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(Resenha ampliada, Parte 1) DURANT, Will. A Idade da Fé. A História da Civilização. Vol. IV. Rio de Janeiro: Editora Record, 1985.

Bárbara DANTAS[1]


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

DANTAS, Bárbara. (Resenha ampliada, Parte 1) DURANT, Will. A Idade da Fé. A História da Civilização. Vol. IV. Rio de Janeiro: Editora Record, 1985. In: Ricardo da COSTA; Nicolás MARTÍNEZ SÁEZ (orgs.). Mirabilia Journal 37, Games from Antiquity to Baroque, 2023/2, pp. 738-779. Disponível em: https://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/23._resenha_barbara.pdf e https://www.barbaradantas.com/post/resenha-ampliada-parte-1-durant-will-a-idade-da-f%C3%A9-a-hist%C3%B3ria-da-civiliza%C3%A7%C3%A3o-vol-iv-rio-de


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Após interlúdio de um ano, volto a compartilhar com o leitor da Mirabilia Journal as resenhas ampliadas de cada um dos onze volumes da Coleção História da Civilização, de Will & Ariel Durant, das quais já publiquei na Mirabilia Journal as resenhas dos três primeiros volumes: Nossa Herança Oriental, Nossa Herança Clássica, além de César e Cristo.[2] O Volume IV, A Idade da Fé, discorre a respeito de mil anos de História em um livro de mil páginas! Labor necessário para abarcar o período milenar indicado pelo subtítulo do livro: Uma História da Civilização Medieval de Constantino a Dante - 325 a 1300 d.C.

 

Ao dissertar acerca do Talmude, o livro sagrado do Judaísmo, Durant enfatiza que o Cristianismo, com a Bíblia, e o Islamismo, com o Alcorão, concordavam que uma moralidade natural ou civil não era praticável, apenas a moral religiosa condiciona a humanidade para o bem comum (p. 324). Essa ideia durou cerca de mil anos. “Meu coração está no Oriente, enquanto me demoro no Ocidente” (p. 359), escreveu Jehuda Halevi (1086-1147), poeta judeu que sonhava em ver Jerusalém. É uma pena este já tão longo texto não ter espaço para mostrar o quanto os judeus do Oriente medieval foram profícuos em várias áreas, apesar das perseguições que sofreram, que Durant resumiu bem: “Por aquela morte na cruz, quantas crucificações!” (p. 354).

 

Em 1948, o casal Durant passou seis meses visitando Turquia, Iraque, Irã, Egito e outros países da Europa. Dois anos depois, publicaram o livro (p. 1019).[3] Essas viagens demonstram que eles visitaram Ásia, Leste europeu, Península arábica e Norte da África para escrever um livro sobre a Idade Média. Isso talvez pareça estranho ao leitor brasileiro, acostumado a estudar esse período histórico nos países da Europa ocidental - especialmente, Inglaterra, França, Itália e Espanha. Para piorar nossa visão sobre os medievais, mesmo no interior desse recorte geográfico, pouco sabemos acerca da rica História do medievo em Portugal, nos países escandinavos ou nos outros países do Reino Unido. Quando se trata das regiões que o casal visitou, então, nosso conhecimento diminui a quase zero. É provável que os americanos da década de 1940-50 também tivessem similar déficit de conhecimento em relação aos países fora do costumeiro limite de estudos sobre a Idade Média e, por esse motivo, Durant ampliou “o quadro da pesquisa”[4], como faz o italiano Carlo Ginzburg, pesquisador da Micro História que também não se limita aos tradicionais recortes geográficos, temporais e temáticos em suas pesquisas.

 

Durant comenta sua escolha sui generis no Prefácio, escrito em novembro de 1949. Primeiro, ele ressalta que certamente o leitor de César e Cristo (Volume III) sentiria um vazio cronológico se o volume seguinte, A Idade da Fé (Volume IV), não discorresse sobre a civilização medieval bizantina (p. VII). Além disso, o volume medieval da sua História da Civilização apresenta os últimos suspiros do Império romano, ocasionado, em grande parte, pelas invasões das tribos “bárbaras” (p. 21) do Norte e do Leste, cujo estabelecimento originou muitos países de hoje. Para Durant: “o Império desaparecia no Ocidente, mas iam nascendo os Estados da Europa Moderna” (p. 39).

 

Em segundo lugar, Durant avisa que a metade de seu enorme livro trata de assuntos que “se afastam de nosso interesse normal [...] O leitor cristão ficará surpreso com o espaço dedicado à cultura muçulmana, e o estudioso muçulmano há de lamentar a brevidade com que a brilhante civilização do Islã medieval foi resumida aqui”. Ele acrescenta que tentou ser o mais imparcial e cuidadoso possível para “enquadrar cada fé e cultura segundo seu próprio ponto de vista”, o que se coaduna com a essência do trabalho de todo historiador, embora ele próprio admita que “os preconceitos persistem”, desculpando-se previamente caso suas escolhas de matérias e de espaços o denunciem de alguma forma (p. VII).

 

Ainda na Antiguidade, a tentativa de invasão persa na Grécia, no século V a.C., iniciou o que conhecemos como as lutas entre o Ocidente e o Oriente (p. 3). Alguns séculos mais tarde, seria a vez dos romanos expandirem seus limites territoriais em direção ao Leste, acirrando as disputas recíprocas. Na Idade Média, os conflitos continuaram. Primeiro: devido às invasões dos mongóis nos séculos IV e V, que arrasaram o Leste europeu e chegaram na Itália, empurrando as tribos que viviam nas áreas vizinhas para o interior do já decadente Império Romano do Ocidente. Segundo: o nascimento e expansionismo árabe/islâmico a partir do século VIII, que tomou para si grande parte do território da Ibéria - Península Ibérica, formada hoje por Portugal e Espanha.

 

Em terceiro lugar, o movimento contrário feito pelas Cruzadas dos séculos XI ao XIV, o expansionismo cristão no sentido Oeste-Leste. Acerca das Cruzadas, sabemos o suficiente, porém, pouco sabemos contra quem os cruzados europeus lutaram: os reinos árabes e os “infiéis” muçulmanos, que diziam serem “infiéis” os cristãos. Parece que, enquanto existirem países e religiões haverá derramamento de sangue. Nosso desconhecimento acerca da História do que existe além do Danúbio, também peca contra nós. O Danúbio é um rio que passa pela Alemanha e por países do Leste europeu. Devido a sua importância histórica e estratégica, tornou-se o marco que antigamente separava a Europa ocidental da oriental. Essa região abriga os países eslavos, nomeados por Durant como “estados limítrofes” (p. XV).

 

Os ditos estados limítrofes sempre foram o palco de grandes disputas político-militares. A exemplo do que hoje ocorre entre a Ucrânia e a Rússia, países que estão envolvidos em lutas territoriais que trazem à tona o nunca morto - apenas, por vezes, sonolento - conflito Ocidente/Oriente. Além disso, essas disputas por regiões de fronteira escondem o temor de uma nova Guerra Mundial em uma área que já ocasionou o estopim de duas: a Primeira Grande Guerra começou na Sérvia e a Segunda (1939-1945) começou na Polônia, ambos são vizinhos tanto dos ucranianos quanto dos russos.

 

Pelos motivos supracitados, dividi a resenha ampliada do Volume IV em duas partes, cuja Parte 1 é essa. A seguinte, a Parte 2, será publicada em 2024/2 na Mirabilia Journal. Seu conteúdo abarcará a Idade Média nos tradicionais países (França, Itália e Espanha), além de Portugal, Império Germânico (grande parte da Alemanha atual), países escandinavos - terra dos vikings - (Noruega, Dinamarca e Suécia) e os países que hoje formam o Reino Unido (Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia).

 

Nesta Parte 1, apresentarei alguns detalhes da sobrevivência, apogeu e queda dos bizantinos, causada pela desagregação interna e lutas externas, principalmente contra o Império Persa, que abarcava os atuais Afeganistão, Irã e Iraque, e onde se encontram duas cordilheiras: do Himalaia ao Cáucaso (p. 124).

 

No tocante aos seguidores de Maomé, os muçulmanos, dissertarei acerca de sua origem, expansão, cultura e decadência, provocada pela ortodoxia religiosa e pelas investidas dos mongóis no século XIII. Ressaltar-se-ão algumas regiões da Arábia, especialmente, a Síria, devido a sua pouco conhecida importância para o Islã medieval. Se grande parte dos países dessa região são locais de areia, ruínas e guerra - como o conflito na Síria, em 2015, e o atual em Israel -, até os anos 1200 viveram em meio a florestas e riquezas naturais abundantes, criação e disseminação do saber, além de prosperidade econômica.

 

Ainda sob o viés da análise do Islã no medievo, sairemos do âmbito oriental e entraremos na Espanha moura, ou seja, muçulmana. E, para finalizar, veremos o impacto das invasões mongóis nas regiões que comportam o que hoje conhecemos como Sérvia, Hungria, Armênia, Polônia e Rússia.

 

I. As invasões bárbaras, os hunos e a Queda do Império Romano do Ocidente; Constantino e o Concílio de Nicéia; Jerônimo e Agostinho; o Império Persa

 

O advento e crescimento do Cristianismo acompanhou a lenta decadência do Império Romano, fruto não apenas das invasões bárbaras, mas sobretudo de muitos problemas internos, entre eles: o crescente poder das províncias em comparação com a Itália e com a cidade de Roma (p. 21); suas famosas estradas estavam em ruínas (p. 26); a diminuição das guerras de conquista, fonte de riquezas, tributos e de mão-de-obra escrava, enfraqueceu seu sistema econômico (p. 27). O historiador americano David Brion Davis (1927-2019) ressalta que mineração, trabalhos domésticos, comércio e plantations eram, essencialmente, trabalho de escravos.[5] Foram quatro séculos de decadência moral e política, militar e econômica. Afinal, Roma não caiu em um dia.

 

O paulatino aumento das ameaças externas ao Império Romano foi por um tempo contido por meio de tensa vigília, além de acordos e desconfianças recíprocos. Durant salienta que o “Império Romano de uma centena de nações poderia ser invadido em qualquer ponto e a qualquer momento por tribos que ainda não se achavam estragadas pela civilização, mas que invejavam seus frutos” (p. 20). Nos limes romanos do Oriente Próximo, os persas se fortaleciam. Já as províncias romanas do Norte da África estavam sob a vigilância das tribos do Sul, entre eles, etíopes, líbios e berberes. A Ibéria parecia segura atrás de suas cordilheiras “e do mar que a protegia”. A Gália era a província romana mais próspera, mas sofria ameaças dos teutônicos nas fronteiras ao Norte. Na distante Britânia, pequenas guarnições de legionários não davam conta dos frequentes ataques de diversas tribos: escotos e pictos a Oeste, saxões ao Sul e escandinavos ao Norte. “Contra essas marés étnicas, o Império não dispunha de qualquer muralha protetora, salvo na Britânia” (p. 20)[6].

 

Quanto aos godos, embora o seu mito de origem afirme que eram descendentes de escandinavos da Suécia, Durant lembra que é mais provável que se originaram da região do Rio Vístula, na Polônia, de onde se separaram para se transformarem nos ostrogodos que se instalaram em torno dos rios Dniester e Don, que hoje divisam as fronteiras entre Polônia, Ucrânia e Moldávia. Já os godos que partiram para além do Rio Danúbio, em direção ao Sul, são conhecidos como visigodos (p. 20).

 

Os governantes romanos estavam bem cientes das ameaças externas que pressionavam suas fronteiras. Por isso, inicialmente, tornaram aliados alguns desses contingentes humanos, até então, alheios à autoridade de Roma. Desde o reinado de Otávio Augusto (63 a.C.-14 d.C.), algumas tribos bárbaras que imigraram pacificamente para as áreas fronteiriças “ao sul do Danúbio e dos Alpes” foram convidadas, a mando do imperador, a se instalarem no interior do Império, sob a condição de defenderem os limes contra invasões. Gradativamente, adotou-se o costume de alistar como legionários esses bárbaros, o que elevou alguns deles aos mais altos cargos militares e políticos imperiais. Durant enfatiza: “Outrora o Império havia romanizado tais elementos; agora, os imigrantes é que transformavam os romanos em bárbaros” (p. 21). Mas, a partir do século IV tudo mudou. E a culpa não foi necessariamente dos bárbaros que margeavam os limites a Oeste e Norte do Império. Uma tribo perigosa atravessou as estepes da Mongólia, localizada no centro da Ásia, para tomar pela espada as riquezas que os povos mais a Oeste haviam conquistado, tanto na Ásia quanto na Europa. Os hunos não eram conquistadores, como os romanos, ou imigrantes, como as primeiras tribos germânicas que se instalaram ao norte da Gália, eles eram saqueadores: “a terra deles é o lombo de um cavalo”, diziam os apavorados contemporâneos (pp. 21-22).

 

O propósito dos hunos era recolher todas as riquezas que pudessem carregar, inclusive, escravos. Ao cabo, destruíam tudo que sobrasse, voltavam para suas desérticas estepes para desfrutar das riquezas violentamente apreendidas e se preparar para as próximas investidas. E essa foi apenas a primeira leva de assaltos dos hunos sobre o Oriente Próximo e o Leste Europeu. A segunda ocorrerá no século V, e será mais avassaladora.

 

Ainda no século IV, por volta do ano 355 d.C., os hunos atacaram a Rússia e absorveram para suas fileiras a tribo dos alanos.[7] Em torno do ano 372 d.C., eles invadiram a Ucrânia e subjugaram os ostrogodos. Assim, antes do difícil século IV terminar, “os desesperados godos” pediram asilo aos romanos, que aceitaram sob cruéis normas: entregar armas e filhos primogênitos como “garantia”. Em 378 d.C., os godos se revoltaram. O “último dos historiadores clássicos” (p. 29), Amiano Marcelino (330 d.C.-?), afirma que assistiu “a derrota mais desastrosa que os romanos haviam sofrido” (p. 22), pois a cavalaria dos godos superou a infantaria romana. Lição que os futuros governantes aprenderam, pois criaram a cavalaria, ordem militar que se manteria até o final do século XIV como marco da arte da guerra medieval. Contudo, as ameaças não pararam. No Norte da Gália, os “germanos”, ou teutônicos, aproveitaram-se da fraca unidade política do império e invadiram em 355 d.C. as províncias romanas que margeavam o Rio Reno - hoje, Norte da França e Sul da Alemanha. Eles saquearam Colônia, outras quarenta cidades e dominaram toda a região da Alsácia. O futuro imperador romano, Juliano (322-363 d.C.), liderou as legiões que enfrentaram os “alemânis - a tribo da qual se originou o nome da Alemanha”. Mais ao Norte, bateram-se contra a tribo dos “francos-sálios”, empurrando-os para a outra margem do Reno. Enfim, foram comemorar em Paris, capital da Gália (p. 11).

 

Entrementes, a Igreja cristã aliou-se ao poder político. O imperador romano Constantino (?-337 d.C.) foi o primeiro a se converter ao Cristianismo e reger o império sob o estandarte de Cristo. Enquanto fortalecia o novo credo religioso, entre os anos de 324 e 330 d.C., ele investiu na criação de uma “Nova Roma”, longe da decadência da antiga, localizada na Itália, pois a cidade de Roma “já não era mais capital, raramente via um imperador” (p. 27). A nova sede imperial de Constantino remodelou a antiga cidade de “Bizâncio”, fundada pelos gregos por volta de 657 a.C. Até o século XIV, ou seja, nos mil anos seguintes, será conhecida como Constantinopla (pp. 3-4).

 

Localizada na interseção geográfica entre a Europa e a Ásia, Constantinopla era então a cidade mais estratégica do mundo. “Ali, a qualquer momento, o governo que a dominasse poderia fechar as principais comunicações entre o Oriente e o Ocidente; para ali convergiria o comércio dos continentes [...] suas águas tumultuosas defendiam a cidade de todos os lados” (pp. 3-4), exceto um, na formação topográfica conhecida como o “Corno Dourado”, que margeia uma tranquila enseada no Estreito de Bósforo. Nessa ligação entre o Mar de Mármara e o Mar Negro, os barcos ainda em nossos dias aportam em segurança. Hoje, Constantinopla é a cidade de Istambul, na Turquia.

 

Enquanto a Santa Sé romana crescia em poder espiritual em meio a centenas de templos pagãos ainda de pé em Roma (p. 30), Constantinopla manteve-se durante toda a Idade Média como “a cidade mais rica, mais bela e mais civilizada do mundo” (p. 6). A cultura grega predominou, inclusive na língua, embora todos se considerassem romanos e o latim fosse a língua oficial. Nessa capital, os imperadores romanos assimilaram com mais facilidade a pompa, a coroação, a intangibilidade e a santificação das monarquias orientais, como a persa, além de usufruir da submissão eclesiástica ao Estado. Durant comentou a respeito do anfiteatro que Constantino mandou erigir em Constantinopla no século IV, local onde o casal de historiadores viu um monumento egípcio e uma escultura grega: “No centro dele erguia-se um obelisco de Tutmés III que havia sido trazido do Egito. Ao Sul, via-se um pilar com três serpentes de bronze entrelaçadas, o qual tinha sido primitivamente erguido em Delfos para comemorar a vitória de Platéia (479 a.C.). Esses dois monumentos ainda ali se encontram” (p. 6).


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Da esquerda para a direita: Obelisco do faraó egípcio Tutmés III (1481-1425 a.C.). Escultura em bronze da Grécia Antiga, século V a.C. Nota-se o obelisco ao fundo.

 

Durante o governo de Constantino ocorreu o mais famoso concílio da igreja cristã. Em maio de 325 d.C., o Concílio de Nicéia estabeleceu a Doutrina da Trindade, que considera a manifestação de Deus por meio de três essências, ao mesmo tempo, unitária e tripartida: Deus como Pai, Deus como Filho e Deus como o Espírito Santo. Essa doutrina se opunha a outra, causando distúrbios dentro e fora do âmbito religioso, pois os arianos - discípulos de Ário (253-336 d.C.) - concebiam “Cristo como o Filho de Deus, mas sem que fosse consubstancial e coeterno ao Pai” (p. 7).

 

A assembleia reunida em Nicéia teve um caráter laico e eclesiástico, pois, assim como os tridentinos ainda se engalfinhavam com os arianos, Estado e Igreja também estavam confusamente ligados e disputando poder. Não se sabia a quem obedecer, se ao imperador ou ao papa. Constantino tentou minimizar os problemas teológicos para diminuir os problemas estatais, por isso, ele próprio convocou o Concílio. O imperador convidou, inclusive, o papa Silvestre I (285-335 d.C.), que se deslocou da Sé de Roma com destino à Nicéia - antiga cidade da região da Anatólia, na Turquia (p. 7, 31). O imperador aceitou o decreto a favor do “Credo de Nicéia” (p. 7, 31). Mas, a guerra teológica ainda não estava vencida, perduraria século IV adentro e teria consequências que afetaram todo o império, entre elas, “facções rivais empenharam-se em lutas sangrentas” (p. 8). Os sucessores de Constantino dificultaram ainda mais a situação da Igreja cristã. Seu primeiro sucessor e filho, Constâncio (326-354 d.C.), “adotou o ponto de vista ariano e sentiu a obrigação moral de forçar toda a cristandade a seguir tal ponto de vista” (p. 7). Todos os adeptos do Credo de Nicéia foram banidos de suas igrejas.

 

E piorou. Em 361 d.C., subiu ao trono Juliano - o mesmo que liderou as legiões romanas contra os germanos, alemânis e franco-sálios na Gália. Metade da sua vida foi imersa nos estudos, ele nem imaginava se tornar imperador. Por isso, nas campanhas militares que Constâncio o obrigou a liderar, levava diversos livros. Juliano escreveu: “Alguns homens têm paixão pelos cavalos, outros pelos pássaros, outros pelos animais selvagens; eu, porém, tive, desde a infância, o grande desejo de adquirir livros” (p. 14). Quando o destino o colocou no trono imperial aos 31 anos de idade, Juliano deixou de esconder sua fidelidade ao paganismo, fundamentado, especialmente, no neoplatonismo. Em seus textos, atacava o cristianismo: “chegou à conclusão de que não havia animais mais ferozes do que os cristãos” (p. 10). O bispo Atanásio (?-373 d.C.), “solus contra mundum”, opôs-se “paciente e diplomaticamente”, tanto ao arianismo como ao paganismo, (p. 8). Após a morte de Juliano, retornou triunfante para sua diocese (p. 17).

 

No ano de 380 d.C., o imperador Graciano, ao contrário de Constâncio e Juliano, declarou o Credo de Nicéia obrigatório. Para corroborar sua decisão, ordenou a retirada da “estátua da deusa Vitória” (p. 31) que, desde o ano de 29 a.C., estava no edifício do Senado, em Roma. A vitória do cristianismo sobre o paganismo e as seguidas invasões bárbaras, ocasionou entre os pagãos a ideia de que a “humilhação da cidade que outrora havia dominado o mundo” (p. 32) ocorreu pelo abandono de seus deuses. Em 394 d.C., o imperador romano Teodósio (347-395 d.C.) fez o caminho inverso que o papa Silvestre I fizera em 325 d.C. O imperador partiu de Constantinopla e marchou com seu exército sobre Roma para obrigar o Senado da cidade a proibir toda forma de paganismo. Seguiu-se a destruição ou confisco de templos e expulsão de pagãos (p. 32). Mas, ele trouxe consigo os algozes de Roma. Seu “exército era composto de godos, alanos, caucasianos, iberos e hunos” (p. 24), cuja fidelidade se baseava na bolsa cheia. Entre seus generais estava o líder dos vândalos, Estilicão (359-408 d.C.), e Alarico (370-410 d.C.), o chefe dos godos.

 

Antes de falecer, em 395 d.C., Teodósio dividiu o império entre seus dois filhos, estabelecendo a permanente divisão entre o Império Romano do Oriente e do Ocidente (p. 24). Mas, seus sucessores delegaram as tarefas de governo a seus ministros: Rufino no Oriente e Estilicão no Ocidente (p. 24). Foi assim que o Ocidente entrou no século V regido por um bárbaro, Estilicão, e atacado por outro, Alarico (p. 24).

 

Estilicão interrompeu o pagamento dos tributos que Teodósio dava aos godos e, além disso, dispensou suas tropas. Insatisfeito com tal atitude, Alarico - que era versado na arte da guerra e na do convencimento - induziu os godos a segui-lo em suas campanhas militares contra o Império ocidental. Seu exército saiu da Trácia - antiga Macedônia, hoje, parte da Grécia, Bulgária e Turquia - e percorreu a terra dos gregos matando homens e escravizando as mulheres. Ele atravessou o desfiladeiro das Termópilas[8] e “devastou o Peloponeso” (p. 24). Só poupou Atenas porque aceitou o rico tributo que a cidade pagou para deixá-la em paz. Estilicão tentou proteger Atenas, tanto da ofensiva quanto do pagamento do resgate que arruinou as riquezas dos moradores da cidade, mas chegara tarde. Ainda na Grécia, no Epiro, Alarico descansou por quatro anos, nos quais obrigou os armeiros da região a produzir “um completo sortimento de lanças, espadas, capacetes e escudos” (p. 25). Alarico invadiu a Itália em 401, saqueou todas as cidades pelas quais passou em direção à Roma. Quando os exércitos de Estilicão e de Alarico se encontraram, uma pequena vitória do primeiro conduziu o segundo para Roma, que estava desprotegida, mas fora salva, dessa vez, pelo suborno que recebeu do imperador romano do Ocidente.

 

Em paralelo, a Itália se tornou alvo de outras tribos bárbaras, a exemplo dos “alanos, quados, ostrogodos e vândalos” (p. 25), que atravessaram os Alpes e saquearam Florença, Norte da Itália. Em 408 d.C., Estilicão morreu pela traição de seus colegas (p. 26). Meses depois, Alarico retornou à Itália “chegando às portas de Roma”. Somente um monge foi ao encontro de Alarico, que escutou as acusações e, depois, respondeu: “fora o próprio Deus que havia ordenado a invasão” (p. 32).

 

O líder godo cortou as comunicações externas da cidade para fazê-la definhar pela escassez. Apesar do horror da fome e outras penúrias, os romanos preferiram oferecer suas riquezas a se entregarem. Mas, o golpe contra Roma veio do interior de seus muros fortificados. Enquanto as negociações ocorriam e o cerco se fechava, milhares de escravos fugiram de seus donos para se aliar ao exército de Alarico. Ao atacar mais uma vez a cidade, “um escravo abriu os portões da cidade e os godos entraram” (p. 33).

 

Ainda em 408 d.C., Alarico morreu de uma febre incurável e, Ataulfo, seu cunhado e sucessor - apesar da destruição causada pelo seu antecessor - “proclamou que seu desejo não é destruir o Império Romano, porém preservá-lo e fortificá-lo” (p. 33). Na medida que viam a Itália ser devastada e Roma cair pela primeira vez, acendeu-se a imaginação de outras tribos bárbaras. Em 406 d.C., aproveitando-se do direcionamento de tropas romanas para conter Alarico, “grandes massas de vândalos, alanos e suevos invadiam o Reno e devastavam a Gália” (p. 33). Outros contingentes dessas tribos entraram na Espanha em 409 d.C. e a arruinaram, de Norte a Sul, durante dois anos.


Em 429 d.C., vândalos e alanos invadiram as províncias romanas do Norte da África (p. 34-35). Cerca de um ano depois, Genserico (389-477 d.C.), o chefe desse exército, tentou subjugar Hipona, mas não conseguiu devido, em boa medida, “à heroica resistência” de catorze meses incitada pelo bispo da cidade, conhecido como Agostinho de Hipona ou santo Agostinho (354-430 d.C.). Por fim, Genserico se contentou em saquear Cartago e construir a “grande frota, com a qual devastou as costas da Espanha, Itália e Grécia” usando navios que transportavam até cavalos (p. 34-35).

 

Agostinho de Hipona faz parte do triunfo do cristianismo no Norte da África, onde, entre os séculos III e IV, duas vertentes cristãs se alternavam em poder: o monge e o bispo. Durant afirma que “as formas monásticas” existem desde a Antiguidade, por volta de 250 a.C. No século III d. C., o Egito abrigou os primeiros mosteiros e conventos cristãos, nos quais se encontravam refúgios alheios ao caos da guerra e das invasões bárbaras, (p. 52). Os egípcios cristãos eram conhecidos como coptas (p. 55).

 

O monge oriental dos primeiros séculos era um anacoreta. O mais famoso foi Jerônimo (340-420 d.C.). Mesmo como sacerdote ou secretário do Papa, não abandonou “o manto e a túnica marrom dos anacoretas” (pp. 46-47). Nascido na Itália, Jerônimo estudou em Roma e fundou uma comunidade de ascetas em Aquiléia. Insatisfeito com o bispo local, mudou com um amigo para Antioquia, remota cidade localizada onde hoje é a Turquia. Então, ele se mudou para Belém - Hoje, no Estado de Israel -, onde edificou um mosteiro, um convento, uma igreja e um retiro para peregrinos (p. 49). Seu maior feito, porém, não foi institucional, visto que no ano de 385 d.C. fez para si uma cela em uma caverna, onde morou o restante de seus dias, durante 34 anos. Foi nela que realizou sua “tradução da Bíblia para o latim”, conhecida como a Vulgata, escrita após 18 anos de estudos das línguas hebraica e grega. Essa tradução da Bíblia ainda é o “texto-padrão em latim para o mundo católico romano” (p. 49).

 

Jerônimo viveu o bastante para presenciar as invasões bárbaras na Síria e na Palestina, no ano de 395 d.C. Nem os mosteiros eram poupados, ao que ele concluiu: “O Império Romano está desmoronando” (p. 49). À conclusão semelhante chegou Agostinho, com o qual Jerônimo trocou cartas. Em um de seus livros, o bispo de Hipona desabafou: “Assim, ruínas, homicídios, pilhagem, desolação, incêndio, horrores cometidos no recente desastre de Roma”[9]. Agostinho nasceu em Tagaste, cidade localizada onde hoje está a Argélia, no Norte da África. Aos 17 anos foi estudar em Cartago que, nas palavras de seu contemporâneo, Salviano de Massília (400-490 d.C.), era descrita da seguinte forma: a África é “a cloaca do mundo” e Cartago é “a cloaca da África” (p. 58). Porém, nem sempre podemos confiar nas fontes, lembra o historiador francês Marc Bloch (1886-1944).[10] 

 

Desde a conquista romana até o século VII, algumas cidades africanas eram mais ricas que as do continente europeu e rivalizavam em esplendor com as asiáticas. Cartago, inclusive, foi a sede de um império que ameaçou o domínio romano na Antiguidade.[11] No 1o século d.C., ela voltou ao seu antigo tempo de prosperidade econômica e berço do saber, tanto pagão quanto cristão (p. 257). Outras cidades norte-africanas abrigavam portos e mercados, universidades e bibliotecas. Durant mostra que, no século IV, a pagã Hipácia (?-415 d.C.) lecionou matemática e ocupou a cadeira de filosofia na Universidade de Alexandria (pp. 110-111). No século VI, essa cidade do Egito possuía centenas de palácios, banhos e teatros (p. 255).  

 

Agostinho foi o mais célebre africano que se conhece. Ele fascinou-se pelos escritos de Platão (428-347 a.C.) e de Plotino (205-270 a.C.), integrando em sua filosofia o neoplatonismo. Durante nove anos, aceitou o dualismo maniqueísta - fundada por Maniqueu, no século III, essa crença religiosa concebia o mundo submisso a dois princípios: um bom, Deus; e um mal, Satanás.[12] Arrependido, Agostinho seguiu o conselho do bispo Ambrósio (340-397 d.C.) e leu “a Bíblia à luz da declaração de Paulo”[13]. As Epístolas de Paulo aos Coríntios tocaram-no, pois vira “um homem que, como ele, estivera também dominado pela dúvida”. Concluiu-se a adesão de Agostinho a um cristianismo que lhe trouxe “estímulo moral e paz para o espírito” (pp. 58-59).

 

Enquanto Jerônimo passou os últimos 34 anos de sua vida morando em uma cela perto de Belém, Agostinho foi bispo de Hipona nos últimos 34 anos de sua vida. Acerca das atividades bispais da época, reunia a administração civil e a educação espiritual (p. 78). Agostinho escreveu muitas cartas e sermões (p. 59). Envolto em um mundo arruinado e conhecedor da fraqueza da razão, esforçou-se em demonstrar que a “autoridade das Escrituras é maior que todos os esforços da inteligência humana” (p. 63). Escritos nesse viés, Durant incluiu dois livros do eminente teólogo no rol das maiores obras clássicas: as Confissões e A Cidade de Deus (p. 64)[14]. Confissões é uma autobiografia com “uma sinceridade chocante” (p. 64). Em um trecho, ele envergonha-se de quando era discípulo de Maniqueu: “Mas, - ai, ai de mim! - acreditei nos erros dos maniqueístas”[15].

 

Em A Cidade de Deus, por sua vez, de bispo e teólogo, Agostinho torna-se, também, filósofo. Em 410 d.C., ao saber a respeito do saque de Roma feito pelo exército de Alarico dois anos antes, ele começou o trabalho de treze anos em uma obra que dirimisse as dúvidas dos cristãos quanto aos motivos para tal catástrofe. O seu principal argumento é o de que a antiga capital do Império Romano não fora punida por aderir ao cristianismo, mas por seus recorrentes pecados. Ele funda a ideia da “civitas Dei” em contraposição à “civitas terrena”: na primeira, o homem vive de acordo com Deus, na qual “a Igreja pode identificar-se com a Cidade de Deus” na terra; na segunda, os cristãos vivem conforme as leis da humanidade e à mercê do diabo (pp. 64-65): “Dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor-próprio, levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial”[16].

 

Em 455 d.C., Genserico - o líder bárbaro que tentou invadir a cidade de Agostinho, Hipona - será o próximo algoz de Roma. Mas, antes disso, havia outra ameaça bem maior, “que aparecia para punir indistintamente pagãos e cristãos”. Eles foram atormentados por Átila, o Huno (?-453 d.C.), chamado pelos cristãos de “flagellum Dei”, o “flagelo de Deus” (pp. 35-36).

 

Após as primeiras investidas do século anterior, grande parte dos hunos se instalaram na Hungria e imediações. Em 441 d.C., ainda insatisfeito com os grandes tributos que recebia dos dois impérios romanos (do Ocidente e do Oriente), Átila reuniu um exército de meio milhão de homens e começou a tomar para si tudo que lhe estava pelo caminho rumo à Europa. Seu exército devastou de tal forma Sérvia, Bulgária e outros países dos Bálcãs, que essa região ficou arruinada por cerca de quatro séculos (pp. 35-36). Átila e seu exército chegaram à Gália em 451 d.C. Após destruir, saquear e escravizar, invadiram a Itália no ano seguinte. Na margem Sul do Rio Pó, próximo de Roma, o líder huno estacionou sua tropa e recebeu a comitiva formada por senadores romanos e pelo papa Leão I, líder dos cristãos entre 440 e 461 d.C. Não se conhece o que discutiram, mas a História sabe a respeito da peste e da fome que grassou o exército huno, além de sua retirada, logo após o encontro com o papa e sua delegação. E Átila voltou para a Hungria, onde, depois de uma noitada de comes e bebes, bem como outros exageros, foi encontrado morto em sua cama (pp. 36-37).

 

Leão I será mais uma vez o protagonista de outra tentativa de defender Roma. Quando Genserico chegou às portas da cidade em 455 d.C., apenas ele e o clero local foram ao seu encontro. O papa conseguiu um “acordo”, no qual obteve do líder dos vândalos “a promessa de que não faria massacres, torturas, tampouco incendiaria a cidade”. Porém, durante quatro dias, a cidade foi saqueada e milhares de pessoas transportadas nos navios de Genserico para serem vendidas como escravos em mercados do Norte da África. Durant considera esse acontecimento como uma vingança de Cartago pela “crueldade dos romanos no ano 146 a.C.” (p. 37)[17]. No decorrer de vinte anos, seguiu-se imperadores “medíocres” e conspirações de morte envolvendo os líderes das diferentes tribos bárbaras e províncias romanas que disputavam o poder máximo daquele império desagregado. Nessa época, apenas um dos soberanos “morreu de morte natural, o que foi uma surpresa” (p. 38). Nesse meio-tempo, ocorria outra de leva de invasões bárbaras. Entre eles, os hérulos.

 

Em 475 d.C., Orestes, um obscuro líder da Panônia - província romana localizada onde hoje está a Áustria - colocou seu filho Rômulo no trono, apelidado de Augústulo. Em 476 d.C., Rômulo foi morto e o general hérulo, Odoacro (?-493), tomou seu lugar. Durant afirma que os envolvidos não encararam o “fim da linhagem dos imperadores do Ocidente”, pelo assassinato de Rômulo, como a “queda de Roma”, mas como um novo tipo de unificação imperial (p. 38). Contudo, o que ocorreu foi a desagregação do império em diversos reinos: Odoacro se tornou o primeiro rei da Itália; Genserico manteve sob seu domínio o Norte da África; os francos governavam a Gália; os anglo-saxões conquistaram a Britania; e visigodos governaram a Ibéria (p. 39). Na medida que o império Ocidental se esfacelava, o Oriental sobreviveu mais oito séculos. Nele, o legado do Império Romano se manifestou de forma contínua, protegendo-se do esquecimento histórico (p. 4). Contudo, a partir do século V, o Império Romano do Oriente não era mais o mesmo. As invasões bárbaras causaram a perda de importantes territórios, como a África e parte da Itália (p. 105).

 

Durante o reinado de Justiniano (482-565 d.C.), os hunos, terremotos, fome e peste causaram horror, distúrbios sociais e desavenças políticas, desagregando a unidade territorial tão arduamente conseguida (pp. 104-105). Ainda assim, Justiniano legou à posteridade dois monumentos, um legal e outro religioso/artístico: o primeiro é o Código de Justiniano, que perdurou até o fim do Império Bizantino, no século XV, e se tornou o “alicerce da ordem na estrutura de muitos Estados modernos” (p. 103).

 

O segundo monumento é Santa Sofia, templo erguido sob o mando de Justiniano após a destruição do primeiro, em 532 d.C. (pp. 95, 105, 114). O nome do santuário não é o de uma santa, mas uma homenagem à “Hagia Sophia, a Sabedoria Sagrada ou Logos Criador do Próprio Deus”. Os construtores abdicaram da forma basilical para construir um edifício em formato de cruz-grega, coberto por um domo espaçoso e sustentado por pilares. Decoraram-na com “ouro, prata, marfim e pedras preciosas”, talharam nas pedras desenhos de folhas de acanto e de parreiras, além de cobrir com mosaicos paredes e abóbodas. Após cinco anos de obras, o imperador e o patriarca de Constantinopla lideraram a procissão que terminou com a consagração do templo (pp. 118-119).


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A mãe de Deus. Mosaico, século X. Hagia Sophia, sala do vestíbulo. À esquerda, Justiniano; no centro, Jesus no colo de Maria; à direita, Constantino.

 

Após visitar o templo de Santa Sofia - ou Hagia Sophia -, em Istambul, na Turquia, Durant observou que a cúpula parecia em um estado precário, mas não se podia negar que “eles começaram a construir à maneira de gigantes e acabaram requintando suas obras com as minúcias de um joalheiro” (pp. 118-119).

 

Ademais, um antigo rival continuava a bater à porta dos bizantinos: o Império Persa. Enquanto as hordas bárbaras assaltavam o Império Romano Oriental e destruíam o Ocidental, os persas dos séculos IV ao VI estavam no auge de seu prestígio e poder bélico/político (p. 131). Os homens que cobriam a cabeça com turbantes fundaram o Reino Sassânida. Em 260 d.C., os persas levaram “para o Irã milhares de prisioneiros para trabalhos forçados”, apreendidos na cidade romana de Antioquia. O Rio Eufrates - localizado no Iraque atual - era a “fronteira romano-persa” (pp. 124, 130).  


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Acima: Naqsh-i-Rustam, Irã. No detalhe, abaixo: Ardaxir, Sapor I e Bahram II. Século V.

 

No que se refere à arte oriental, Durant se impressionou com as “gigantescas figuras esculpidas nas encostas das montanhas da Pérsia [...] os mais belos trabalhos são os que se encontram em Naqsh-i-Rustam, perto de Persépolis, em honra de Ardaxir, Sapor I e Bahram II. É imponente a reprodução das figuras reais” (p. 135). Ele acrescenta que os historiadores não sabem ao certo a origem da técnica do esmalte, o cloisonné: se “na Pérsia sassânida, na Síria ou em Bizâncio” (p. 136).

 

No século V, os persas não deixavam em paz suas fronteiras com os romanos, principalmente na Síria, onde tomaram Alepo e Damasco no século seguinte. Então, os persas saquearam Jerusalém, no Oriente Médio, Alexandria, no Norte da África, e Edessa, na Turquia atual (pp. 133-134). Mas, as conquistas dos persas não duraram muito. Nesse mesmo século, enquanto os persas brigavam com os romanos e os bárbaros estabeleciam-se em suas conquistas no Ocidente, outra ameaça se formava. Ela veio do lugar mais improvável: dos desertos da Arábia. Assim, em meados do século VII, o Império Persa não existia mais. Somente metade do Império Romano do Oriente sobreviveu, graças à “muralha” fornecida por Constantinopla. No século VIII, eles subjugaram a Espanha visigótica (pp. 4, 138).

 

Durant afirma que o primeiro ataque de um bando de árabes a terras da Pérsia ocorreu em 629 d.C., próximo ao Rio Jordão, no Oriente Médio. Em 634 d.C., já não era um bando, mas um exército “acostumado à luta e faminto de despojos” que estacionou na margem Sul do Golfo Pérsico - então, o limite entre as tribos da Arábia e os territórios persas. O líder do “exército de árabes beduínos”, o comandante Calid, enviou a seguinte mensagem para o “governador da província fronteiriça: ‘Aceitai o Islamismo e com isso estareis salvo, caso contrário pagareis tributo ... Um povo vos está atacando, um povo que ama a morte da mesma maneira que amais a vida’” (p. 137).

 

II. A Arábia e Maomé; o Islamismo e seus fiéis; a expansão do Islã e a Síria

 

Maomé (569-632 d.C.), o Islamismo e a criação do Estado árabe, se não foram os maiores acontecimentos da Idade Média, decerto foram os mais avassaladores. Em menos de dois séculos, esparsas tribos de nômades dos desertos da Arábia, conhecidos como beduínos, uniram-se sob o chamado maometano para sair de suas dunas de areia e oásis e partir para o domínio de meio mundo (p. 141).

 

De todas as penínsulas - a itálica ou a ibérica, por exemplo - a Arábica é a maior. Apesar de estar separada pelo Mar Vermelho, geologicamente, é uma continuação do Deserto do Saara, na África, e se une ao Deserto de Gobi, que atravessa parte da China e da Mongólia. O termo Árabica vem de Arab, que significa árido, devido à característica desértica da região (pp. 141-142).

 

À Leste, a península possui alturas que chegam a quatro mil metros. No centro desse altiplano de milhares de quilômetros “existem alguns verdejantes oásis e aldeias ornadas de palmeiras, onde a água pode ser alcançada a pouca profundidade”, mas, rodeadas de areia por centenas de quilômetros. “De dia, o sol queima as faces e ferve o sangue”; à noite, as temperaturas podem cair a 3 graus celsius. Na medida que se aproxima do Golfo Pérsico, as alturas diminuem até atingir o litoral. Recorrentes chuvas litorâneas possibilitaram a criação de cidades, como as icônicas Meca e Medina, além de antigos reinos da Arábia, como o Reino de Sabá, que se localizava onde hoje está o Iêmen, na extremidade Sul da península (pp. 141-142).

 

Durant volta à Antiguidade ao recordar que o comércio dos árabes com o Egito remonta a 2.743 a.C., tão antigo quanto suas relações comerciais com a Índia (p. 143). O historiador relembra igualmente a passagem bíblica que conta a visita da rainha de Sabá ao rei Salomão, em Jerusalém, que datou por volta de 950 a.C. (p. 142). O incenso e a Mirra, tão famosos nas crônicas orientais e nos textos sagrados, eram produzidos pelos sabeus. Contudo, tamanha fortuna vinha da localização estratégica do Reino de Sabá, pois estava na interseção do intenso comércio marítimo entre o Egito e a Índia, além de controlar as rotas de caravanas de camelos que atravessavam os desertos árabes, passando por Meca e Medina, para chegar a Petra[18] e a Jerusalém. No fim da Antiguidade, os romanos se aborreceram com tal poder estratégico-comercial e tomaram para si o principal porto do reino sabeu (p. 142).

 

Mesmo sob os olhos cobiçosos de Roma e da Pérsia, os reinos árabes expandiram-se até a Síria e ao Iraque. Esses reinos eram compostos por clãs e tribos que se reuniam em torno de um “xeque” escolhido entre as famílias mais poderosas no que se referia à “riqueza, saber ou feitos de guerra” (pp. 143-144).

 

As cidades eram escassas, pois a maior parte da população vivia em comunidades errantes do deserto ou em aldeias. “Cinco sextos da população eram de beduínos nômades”, eles “amavam seus cavalos, mas no deserto seu maior amigo era o camelo”. No verão, o camelo resiste a 5 dias sem água; no inverno, a 25. Os bandos de beduínos viviam entre as lutas tribais e as vinganças por insultos ou pelo amor a suas mulheres, que “passava de uma idolatria momentânea ao trabalho escravo de toda a vida”, cujas obrigações eram produzir guerreiros, além de cuidar da casa e da família (pp. 143-144).

 

Apesar das poucas áreas urbanas, os portos e mercados abundavam nos litorais árabes. Feiras ocorriam nos pontos de parada das rotas de caravanas que atravessavam todo o deserto até chegarem à Síria, como a feira anual perto de Meca, onde reuniam-se “mercadores, atores, pregadores, jogadores, poetas e prostitutas”. A Arábia pré-islâmica ativa a nossa imaginação em torno do exotismo dessa cálida terra: os “belos cavalos” criados nas aldeias; o cultivo de tâmaras e romãs, do jasmim, da lavanda e do almíscar; a produção de mirra e bálsamo retirados dos troncos de árvores (pp. 143, 145).

 

A terra onde nasceu Maomé (Mohammed) era politeísta, cujos principais objetos de adoração eram “pedras sagradas”. A pedra mais reverenciada ainda está abrigada na cidade de Meca, onde até hoje existe a Caaba - que significa cubo. O templo remete a construções antiquíssimas, contemporâneas talvez do patriarca Abraão (c. 1.800 a.C.), mas foi reconstruído pela décima vez na época de Maomé (pp. 146-174). Durant descreve “a Caaba de hoje”, que é praticamente a mesma do século VII:

 

Ergue-se perto do centro de amplo cercado com pórtico, o Masjid al-Haram, ou Mesquita Sagrada. É um edifício de pedra retangular, de 40 pés [12 m] de comprimento por 35 [10 m] de largura e 50 [15 m] de altura. No seu canto sudeste, a cinco pés [1,5 m] do solo, na altura exata para beijar, está colocada a Pedra Preta, de material vermelho-escuro, forma oval, e cerca de sete polegadas [17 cm] de diâmetro (p. 146).[19]

 

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A Caaba, em Meca, foto de 2020.

 

O politeísmo dos árabes se confrontou com o monoteísmo dos coraixitas e, depois, de Maomé. A Caaba pré-islâmica possuía no seu interior diversos “ídolos que representavam deuses”. Um deles era Alá (Allah), reverenciado pela tribo coraixita, cujos líderes eram os sacerdotes, guardiões do templo de Meca e governantes da cidade. O culto a Alá é tão antigo que Durant garante que o historiador grego Heródoto (485-425 a.C.) a ele se referiu como “al-Lat” (p. 147).

 

Quanto à origem dos termos pelos quais conhecemos os povos da Arábia e os fiéis maometanos, os gregos da Antiguidade nomearam os nativos da península de “sarakenoi, sarracenos, ao que parece do árabe sharqiyun” (p. 143), nomenclatura que se manteve no decorrer da Idade Média. Ao fugir de Meca para Medina em 622 d.C. - conhecida como a Hégira -, Maomé uniu os refugiados de Meca que o acompanharam - cerca de 200 famílias - e os convertidos de Medina na mesquita que mandara construir onde seu camelo parou ao entrar na cidade, segundo nos conta os biógrafos coetâneos ao profeta do Islã. Na primeira cerimônia, Maomé “subiu ao púlpito e gritou em alta voz: ‘Alá é o maior’”, seguido de igual clamor da congregação. Ele, então, desceu de costas e se prostou três vezes em direção ao púlpito, sem cessar a oração. Para Durant: “Nesse prostar estava simbolizada a submissão da alma a Alá que deu à nova fé seu nome Islam ‘render-se’, ‘fazer as pazes’ - e aos adeptos o de muslimin [muçulmanos] ‘os que se rendem’, ‘aqueles que fizeram as pazes com Deus’” (pp. 151-152).

 

Inicialmente, Maomé elegeu a cidade de Jerusalém como o “qibla - ponto para onde os muçulmanos deveriam voltar-se para orar”, mas em 624 d.C. modificou para a direção da Caaba, em Meca, o que se mantém até hoje (p. 153). Porém, tanto os jejuns ocasionais quanto a regra que determina a prostração em oração com a testa no chão, três vezes ao dia, e em direção ao templo sagrado, são adaptações islâmicas de práticas judaicas anteriores - os judeus prostram-se na direção do Templo de Jerusalém (p. 168).

 

Maomé fundou um Estado teocrático, no qual se tornou, simultaneamente, governante e líder espiritual. Ele também iniciou a prática do assalto a caravanas, com a justificativa de sustentar seus soldados e trazer conforto às suas famílias: se um dos seus companheiros caísse em batalha, sua parte do espólio iria para a família e sua alma diretamente para o paraíso, onde encontrará abundâncias e perfeições de todos os tipos (pp. 152, 154, 162).

 

O profeta do Islamismo também incentivou a guerra de conquista pela primeira vez quando investiu no intuito de retornar com seu povo à Meca, ainda considerada cidade santificada por abrigar a Caaba. Após anos de batalhas, assaltos e acordos, em 629 d.C., os muçulmanos de Medina entraram pacificamente em Meca, então, Maomé silenciou a multidão ao seu redor, tocou a Pedra Preta com seu bastão e anunciou em voz alta: “Não há outro Deus senão Alá!”. Desde então, grande parte dos habitantes de Medina se converteram, bem como “algumas tribos do deserto” (pp. 153, 155).

 

Adentrar a cidade santa não foi suficiente para Maomé, pois, em 630 d.C., ele reuniu um exército de mais de 10 mil homens e invadiu Meca. O líder dos muçulmanos destituiu os coraixitas do comando da cidade e como protetores da Caaba. Em seguida, ele destruiu todos os ídolos do templo, além das pedras sagradas, exceto a Pedra Preta, na qual criou a regra de beijá-la. Ele “proclamou Meca como a cidade santa do islamismo” e, nos dois anos seguintes, “toda a Arábia se submeteu a sua soberania e crença” (p. 155). Maomé tornou natural a poligamia. “Comia com os dedos e lambia-os cuidadosamente depois de cada refeição”. Ele seguiu sua própria interdição ao vinho e ensinou a modéstia e o domínio da voz. “Seus amigos o amavam até a idolatria” (pp. 156-157).

 

Durant considera os feitos de Maomé como os maiores entre todos os reformadores religiosos. Apesar da antiguidade das tribos árabes, só ele conseguiu uni-las política e religiosamente. Antes de falecer, Maomé assistiu ao sucesso de todos os seus empreendimentos temporais e causas espirituais. Para o fundador do Islamismo, a religião era o único caminho para a mudança, cujas regras se encontram no Alcorão - “qur’ân significa leitura ou discurso” de qualquer parte desse livro sagrado (pp. 158-159).

 

Assim como o Talmude ou a Bíblia, o Alcorão é um “aglomerado literário” que os fiéis de cada crença afirmam ser de inspiração divina. O que difere o Alcorão dos outros dois Livros Sagrados é o fato de que “é obra quase exclusiva de um homem”: Maomé. Nos últimos 23 anos de sua vida, ele ditou as revelações que recebia de Alá, as quais foram escritas em pergaminho, folhas de palmeira, couro e até em ossos. Esses fragmentos eram lidos para as assembleias e depositados em receptáculos diversos, até que o “primeiro califa do Islã”, Abu-Béquer (573-634 d.C.), em 633 d.C., ordenou a reunião deles em um livro. Em 651 d.C., outro califa, Otmã (576-656 d.C.), encarregou três coraixitas de revisá-lo. Desde então, não há quaisquer mudanças no texto do Alcorão, escrito na língua árabe mais pura (pp. 159-160, 170).

 

O universo sobrenatural do Alcorão está repleto de “anjos, demônios e um diabo”. Alá é onisciente, pois conhece o passado, o presente e já escreveu todo o futuro. Assim como o texto bíblico, a ética do livro dos muçulmanos se baseia no medo do castigo em vida e na promessa de recompensa após a morte; os mortos dormirão até o Dia do Juízo Final, quando vão ressuscitar após o terceiro toque das trombetas que anunciarão os derradeiros dias. O Alcorão não considera Jesus como Filho de Deus (pp. 161-162). Além de guia espiritual, o Alcorão rege outros âmbitos do Islã, como educacional, moral e político. Nele, as mulheres são impedidas de governar, a escravidão é legítima e o celibato ilegítimo. “Maomé pregou a jihad (guerra santa), uma Cruzada em nome de Alá”, e todo homem adulto tem a obrigação de participar dela. A alfabetização, e grande parte do ensino, é feita a partir da leitura do Livro (pp. 163-166).

 

Abu-Béquer foi o primeiro sucessor de Maomé, um “khalifa” - de modo geral, significa representante, oficialmente, é o “Comandante dos fiéis e Defensor da fé” (p. 265). Ele foi o responsável por converter os árabes da Síria ao Islamismo que, consequentemente, rejeitaram o Cristianismo bizantino. Algo similar ocorrerá na antiga região da Mesopotâmia, o Iraque de hoje. Esses locais tinham em comum com os muçulmanos a etnia e cultura árabes, a ânsia por obter mais terras cultiváveis e, sobretudo, o fato de que tanto a Pérsia quanto Bizâncio estavam em visível decadência, praticavam ocasionais perseguições religiosas e não tinham mais o ardor pela guerra devido à influência dos monges e bispos. Ou seja, eram presas fáceis para os islâmicos (pp. 170-171).

 

“O Iraque, agora semideserto, era então um jardim do Éden” (p. 206), recorda Durant. Não só o Iraque, mas também a Síria nem sempre foram como são hoje. Um dos primeiros motivos para a decadência dessas áreas foi anterior ao advento do Islã. Um século antes, a diminuição da atenção do Estado persa dada aos sistemas de canais e de irrigação de terras ameaçou a sobrevivência de uma população que só crescia. Mesmo no decorrer dos tempos áureos do Islã nesses locais, entre os séculos VII e XIII, a negligência da administração oficial causou o paulatino empobrecimento da população e deu espaço para a fome e as epidemias, vez ou outra, reequilibrarem os índices demográficos. Contudo, nas áreas ainda irrigadas e às margens dos canais, ambos à custa da direção dos califados, houve interlúdios de prosperidade e de abundância. No século X, o povo dizia que, dos “quatro paraísos terrestres”, um ficava onde hoje é o Uzbequistão e os outros três em regiões dos atuais Iraque e Síria (pp. 171, 187). Para Durant: “O Oriente Próximo vive ou morre de irrigação” (p. 183).

 

Quando os sírios aderiram ao Islamismo, por volta de 634 d.C., e o general Calid, “a Espada de Alá”, tomou completamente a Síria em 640 d.C., essa região se tornou o ponto a partir do qual o império muçulmano cresceu (pp. 171-172). Dois geógrafos muçulmanos testemunharam a riqueza da região. Eles visitaram Baalbek: no fim do século IX, Al-Iacubi registrou que “é uma das mais encantadoras cidades da Síria”; e, no século seguinte, al-Muqaddasi (940-991 d.C.) escreveu que era “próspera e agradável”. Muqaddasi também fez registros sobre Alepo, rica cidade devido ao encontro de duas grandes rotas de caravanas: “a cidade é populosa e construída de pedra [...] ruas sombreadas com fileiras de lojas conduziam a cada um dos portões da mesquita”; no entorno havia colégios, um hospital e igrejas cristãs - um indício de que os muçulmanos eram mais tolerantes que os cristãos de então. (p. 208).

 

Damasco, outra cidade da Síria, também viveu tempos abastados sob o Islã medieval. O califado Omíada (661-775 d.C.) escolheu-a como capital devido aos cinco rios que convergiam em seu interior, tornando-a o “Jardim da Terra”, segundo testemunhos da época. Havia uma centena de fontes e banhos públicos, além do extenso “Vale das Violetas”. Al-Idrisi (1099-1166), mais um geógrafo muçulmano, afirmou que Damasco “é a mais deliciosa de todas as cidades de Deus” (p. 208).

 

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Mesquita Omíada de Damasco, séculos VII-VIII. Foto de 2020.

 

Durant ressalta a beleza da Grande Mesquita: “a única relíquia que resta da Damasco dos Omíadas”. Embora a decoração medieval esteja sob a caiação do século XIX e seguidos incêndios tenham-na prejudicado, a estrutura arquitetônica pouco mudou. Os viajantes medievais julgavam-na como a “mais suntuosa construção do mundo muçulmano”. Um dos seus minaretes é, talvez, o mais antigo do Islã. O minarete (manara, que significa farol) é o local de onde os fiéis são chamados para as orações diárias, é a estrutura arquitetônica mais característica das mesquitas e Durant afirma que se originou na Síria (pp. 208, 246).

 

Entre 929 e 944 d.C., Alepo, na Síria, e Mossul, no Iraque, tornaram-se “brilhantes centros da vida cultural”. A corte formada em Alepo recebeu o “mais popular dos poetas árabes”, al-Mutanabi (?-965 d.C.), além do filósofo al-Farabi (870-950 d.C.). Após o domínio romano, persa, bizantino e, depois, muçulmano, uma rica herança grega sobreviveu entre os sírios, que os califas omíadas e abássidas (750-1058) ajudaram a preservar financiando escolas, cópias e traduções (pp. 184, 216).

 

No século XII, em plena época das Cruzadas, um famoso estadista e militar muçulmano fez da Síria seu reino: Salah-ed-din ou Saladino (1138-1193). Nascido em uma cidade do atual Iraque, o pai de Saladino foi governador de duas cidades da Síria que citamos: Baalbek e Damasco. Criado nas cortes dessas cidades, ele aprendeu cedo as artes da guerra e da política, às quais acrescentou a ortodoxia religiosa do Islamismo. Enviado como soldado para o Egito, logo conquistou o posto de comandante político-militar de Alexandria, defendendo-a com eficácia contra os francos no ano de 1167. Aos 30 anos de idade, no ano de 1171, na condição de vizir (cargo similar ao do primeiro-ministro) do Califado Fatimita do Egito (969-1175), Saladino presenciou a morte do último representante dessa dinastia (pp. 258-280).

 

Em 1173, alegando que os cruzados pretendiam invadir a Síria, Saladino reuniu 700 cavaleiros e, quando lá chegou, fez-se rei dos sírios. Dois anos depois, de volta ao Egito, tomou-o igualmente para si e fundou a Dinastia Aiubida (1175-1260) - Durant escreveu “Ayyubida”. Após seis anos, Saladino fez de Damasco a capital do seu reino e acrescentou a Mesopotâmia. Ele tornara-se senhor do Egito e da Síria. Durante seu reinado, o Islã teve seus últimos suspiros de integridade moral, piedade religiosa, eficácia política e destreza na guerra vindas de um governante, visto que foi admirado não só pelos muçulmanos, mas também pelos cristãos, com os quais lutou ferozmente nos campos de batalhas e dialogou serenamente nos encontros diplomáticos (p. 281).

 

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Cidadela de Saladino, em Alepo. Imagem de 2008.

 

Durant se refere a duas construções ligadas a Saladino: a Cidadela - similar a um castelo fortificado no alto de um monte -, que o estadista muçulmano mandou erigir em Alepo; a segunda é o seu mausoléu, construído após a morte de Saladino (p. 285) na cidade de Damasco. Em seguida, o historiador ressalta que, sob as dinastias Seljúcida e Aiubida, Alepo e Damasco estiveram “entre as cidades mais bem adornadas e mais cultas do mundo” (pp. 280-281).

 

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Mausoléu de Saladino - Damasco. Detalhe do interior. Foto de 2020.


O Islã, para Durant, “em uma geração conquistou uma centena de vitórias e em um século tornou-se um império” (p. 158). Os muçulmanos chegaram na Espanha vindos do Norte da África, onde submeteram grande parte da península sob o poder espiritual de Maomé e o poder temporal do califado omíada, sediado em Damasco (p. 87).

 

III. Os vândalos e os visigodos; Isidoro de Sevilha e sua Etymologiae; o domínio islâmico no Norte da África e na Espanha; os mongóis e a decadência do Oriente eslavo e islâmico

 

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Anônimo. Recaredo e os bispos, iluminura, Codex Vigilanus, fol. 145, c. 589 d.C. Biblioteca do Mosteiro de El Escorial - Madri, Espanha.[20]

 

Após tomar as terras dos vândalos, os visigodos, do século V ao VIII, governaram uma Espanha fragmentada por disputas internas. A monarquia visigoda escolheu Toledo como capital e instalou nela uma corte luxuosa (p. 85). No III Concílio de Toledo, ocorrido em 589 d.C., o soberano Recaredo (559-601 d.C.) mudou sua fé - de cristão ariano a tridentino -, os súditos foram obrigados a seguir seu credo e os judeus sofreram diversas restrições. Os Concílios seguintes reafirmaram o poder espiritual da Igreja unido ao poder temporal do rei: “Os bispos tornaram-se o principal baluarte da monarquia e a força dominante no Estado” (pp. 85-86).

 

O mais célebre bispo e intelectual da Espanha visigoda foi Isidoro de Sevilha (c. 560-636 d.C.). Apesar de suas atividades no bispado da cidade tomarem muito de seu tempo, assim como ocorreu com Agostinho de Hipona, Isidoro “achou tempo para escrever meia dúzia de livros” (p. 86). Entre eles, estão os excertos de vários autores pagãos e cristãos versando acerca de diferentes assuntos, todos reunidos na obra “Etymologiarum sive originum libri xx”, ou simplesmente, Etymologiae - entre nós, Etimologias. Em 900 páginas, sua obra obteve prestígio no decorrer da Idade Média, cujos textos sobre o “trivium” (gramática, retórica e lógica) e o “quadrivium” (aritmética, geometria, música e astronomia) são os maiores legados de Isidoro de Sevilha (p. 86).

 

Em 708 d.C., os filhos do soberano visigodo recentemente falecido, Witiza (687-710 d.C.), insatisfeitos com a sucessão real dada a Roderico (c. 687-711), que não era da realeza, atravessaram o estreito de Gibraltar e o mediterrâneo em direção ao Norte da África. O intuito era pedir auxílio militar aos líderes dos muçulmanos berberes com o fim de reconquistarem o trono. Os berberes atacaram aqui e ali a Espanha. Em 711 d.C., voltaram com um exército invasor. Após uma batalha contra as forças invasoras, Roderico desapareceu e muitos soldados visigodos se aliaram aos muçulmanos. Acreditando serem os muçulmanos berberes libertadores, algumas cidades abriram seus portões e as comunidades de judeus ajudaram nas investidas militares contra os visigodos, que os perseguiam há séculos (pp. 87, 270).

 

O mesmo aconteceu antes, quando os árabes muçulmanos invadiram e tomaram o Norte da África, em 641 d.C. Apenas sete anos depois da morte de Maomé, o líder militar Amr ibn al-As (573-664 d.C.) partiu da Palestina para dominar as principais cidades do Egito. Ajudado pelos cristãos monofisitas, que eram continuamente perseguidos pelo governo bizantino, os muçulmanos tomaram Mênfis e seguiram para Alexandria. Após sitiar essa cidade por 23 meses, Amr estabeleceu Alexandria como sua capital e, de fato, declarou liberdade religiosa a todos os credos (p. 255).

 

Os berberes - nativos da África do Norte - defenderam Cartago durante décadas, e só foi tomada pelos muçulmanos em 698 d.C., cujo domínio favoreceu “o controle do Mediterrâneo e abriria caminho para a Espanha” (p. 256). Logo depois, toda extensão do Norte africano estaria sob a lei e a fé do Islã. Os berberes recusaram o cristianismo e a abraçaram a fé muçulmana. No Egito, os coptas mantiveram sua crença cristã em igrejas-fortalezas ou em segredo. Porém, a herança de Agostinho desvaneceu-se (p. 261).

 

Os califas fatimitas tinham a seu dispor a “Grande Loja”, ordem secreta que empregava espionagem e forjava intrigas políticas. Durant declara que essa organização influenciou as vindouras, como os Templários, Illuminatti e outras (p. 261).

 

Foram os muçulmanos berberes, e não os muçulmanos árabes, que conquistaram a Espanha. Durant lembra que o exército que tomou a península possuía sete mil berberes e somente trezentos árabes. Os berberes também são conhecidos como mouros, termo que se estendeu para os muçulmanos da Espanha (p. 269). O líder deles foi Tárique, que ganhou uma homenagem póstuma no sopé da rocha onde seu exército desembarcou, a área mais próxima entre o Sul da Espanha e o Norte da África: “gebel-al-Tárique”, abreviado para Gibraltar (p. 263).

 

Assim como na África, os muçulmanos não impuseram crença religiosa nem devastaram grandes regiões da península (pp. 263-264). Até 756 d.C., a Espanha moura esteve sob a tutela dos berberes do Norte africano que, por sua vez, respondiam ao califado de Bagdá. Porém, o morticínio dos príncipes omíadas, deflagrado pelos recém vitoriosos abássidas não obteve o resultado esperado, pois o neto do califa da dinastia derrotada, Abd-er-Ramã (731-788 d.C.), além de sobreviver à perseguição “de aldeia em aldeia, ele atravessou a nado o largo Eufrates, passou para a Palestina, Egito e África e finalmente atingindo o Marrocos”, aceitou o “convite” dos berberes para tomar a Espanha. Em seguida, tornou-se emir de Córdova (756 d.C.) e derrotou o exército árabe que ainda estava em seu encalço (p. 264).

 

Para Durant, a Europa não se tornou islâmica devido às desavenças internas e à falta de apoio externo, que restringiu o domínio mouro ao centro e ao Sul. Reinos cristãos se mantiveram no Norte, no sopé da Cordilheira dos Pirineus. Uma linha imaginária separava as terras cristãs das terras mouras - ia “de Coimbra a Saragoça” e passava ao longo do Rio Ebro. Preocupados com suas próprias posses, os mouros embelezaram cidades, frutificaram terras e comercializaram com todo o mundo de então. No século X, provavelmente, era a região mais urbanizada do mundo (pp. 264, 272).

 

Entre os séculos VI e XI, Toledo e Córdova, Sevilha e Granada, alternaram-se como centros de poder político e cultural da Espanha - primeiro, visigoda, depois, muçulmana (p. 268). Córdova se encheu de mesquitas e palácios, sábios e artes (p. 264). Ainda no tocante a Córdova desse século, um observador registrou: “As ruas eram pavimentadas, dispunham de passeios elevados e eram iluminadas à noite” (p. 272). Durant ressaltou a importância do aqueduto e da mesquita de Córdova, ambos erguidos a mando de Abd-er-Ramã I. O historiador ocupou duas páginas apenas para descrever as belezas da grande mesquita da cidade (pp. 273-274) - hoje Mesquita-Catedral de Córdova, pois, em 1238, foi transformada em igreja cristã e, no século XVI, construiu-se uma catedral no meio da mesquita[21].

 

A partir da iniciativa de Abd-er-Ramã I, todos os califas ampliaram ou embelezaram a Mesquita de Córdova. Mas, nenhum fez tanto como Al-Mansur (938-1002). Ele triplicou o tamanho do santuário, no qual incluiu “uma floresta de 1.290 colunas, que dividiam o interior em 11 naves e 21 transeptos”. Dos capitéis partiam os arcos em ferradura bicolores, em vermelho e branco (p. 273).

 

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Sala hipostila. Mesquita-Catedral de Córdova, séculos VIII ao XVI.[22] 

 

Conforme Durant, é singular para a arte e a arquitetura moura o Alcáçar “(al-qasr, castelo, do latim castrum)”, versão islâmica da união de fortaleza e palácio. O historiador destaca tanto o Alcáçar de Córbova quanto o Alcáçar de Sevilha (pp. 272, 284). Em ambos, observa-se que a conquista militar corresponde ao domínio de outra crença religiosa, pois as duas construções islâmicas se tornaram residências reais de soberanos cristãos a partir do crescente sucesso da Reconquista.


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Alcáçar de Córdoba, séculos VIII ao XVI. Acima. A fortaleza: torre de vigia na muralha externa e torre de menagem (armazém de armamentos e mantimentos). Abaixo. O palácio: os jardins interno e externo.

 

A Reconquista da Península Ibérica foram batalhas entre cristãos e mouros que duraram quase 800 anos. Até o século XI, a vantagem esteve nas mãos dos mouros. Porém, nessa mesma centúria os cristãos se apoderaram de Toledo (1085). Córdova caiu em 1236 e Sevilha, em 1248. Então, as terras muçulmanas se restringiram ao Reino de Granada, entre 1212 e 1492 (pp. 284, 304). O domínio cristão da península ocorreu com a sua queda, mas, antes disso, Granada também legará uma obra maestra da arquitetura: o Alhambra. Assim como o Alcáçar de Córdova e de Sevilha, o Alhambra é arte mourisca - por se acreditar que tal modelo veio do Marrocos -, termo que DURANT considera um equívoco, pois ele salienta a herança da Síria e da Pérsia nessas construções (p. 284).

 

Durant considera Ibn Abi, conhecido como Al-Mansur - o mesmo que ampliou a mesquita de Córdova - como o último poderoso governante muçulmano da Espanha medieval. Al-Mansur significa “o Vitorioso”, alcunha autodenominada por causa das seguidas vitórias de suas escaramuças contra os reinos cristãos: ele escravizou os prisioneiros cristãos e saqueou os reinos de Castela e de Leão, além da cidade de Santiago de Compostela, sagrada para o Cristianismo ibérico - considerado o motivo para a união dos reinos cristãos para acirrar as batalhas da Reconquista (pp. 266-267). Quando Al-Mansur faleceu, em 1002, o destino de vários reinos muçulmanos já estava em perigo. Durante cinco séculos, entre os anos 700 e 1200, “o Islã encabeçou o mundo” (p. 306). O império formado pelos muçulmanos não demorou a se dividir em reinos hostis e seitas rivais. Primeiro, devido ao ócio a que se entregaram seus líderes, principalmente, os seljúcidas (p. 304).

 

Segundo, por causa da crescente ortodoxia religiosa que, paulatinamente, relegou as conquistas nas áreas das ciências e das artes como apêndices pouco valorizados de um credo cada vez mais restritivo, embora politicamente poderoso. “À medida que a ortodoxia triunfava, a tolerância desaparecia”. Em contraponto, os soberanos islâmicos, cada vez mais, experimentavam na intimidade as especulações filosóficas que proibiam ao povo (p. 300). O filósofo Averróis (1126-1198), viveu nessa época em que “pensar constitui empreendimento perigoso, exceto quando em silêncio” (p. 301).

 

Averróis nasceu em Córdova, onde obteve uma educação elevada. Com formação em Direito e medicina, seus textos filosóficos também fizeram sucesso entre os cristãos. Durant cita Tomás de Aquino (1225-1274) e Roger Bacon (1220-1292) como agradecidos a Averróis, porém, ele lamenta a postura do Islã: “Seus contemporâneos muçulmanos perseguiram-no, a posteridade muçulmana esqueceu-o e permitiu que grande parte de suas obras se perdesse em sua forma árabe” (p. 300-304). O maior pecado (para o Islã) e a maior virtude (para o Cristianismo) de Averróis foi propor o “entendimento entre a religião e a filosofia” (p. 302), pois o filósofo percebe a importância da piedade e da moral religiosa para o governo do povo. Na mesma medida, a religião deve permitir ao filósofo buscar a verdade nas doutrinas para harmonizar a ciência, a filosofia e a religiosidade “com vistas ao aperfeiçoamento do homem” (p. 303). Infelizmente, em 1194, o emir de Sevilha mandou queimar todas as obras de Averróis e proibiu o estudo de filosofia, um homem foi morto por desobedecer a ordem. Na entrada dos anos 1200, “o Islamismo proscreveu o pensamento especulativo” (p. 304).

 

Há um terceiro motivo para a decadência do Islã: os mongóis. Oito séculos antes, os hunos causaram terror nas margens do Império Romano, especialmente, nas regiões eslavas. A partir de 1219, o terror mudou de nome, mas vinha das mesmas estepes: eram os mongóis, denominados por Durant como os “novos hunos”. Similar aos seus antepassados, a fama dos mongóis os precedia, eles lançavam “um terror paralisante” por meio da violência. Eles não conquistavam, pilhavam e matavam (pp. 305-306).

 

A região que mais sofreu com o fluxo violento dos mongóis foi a Rússia. Ela é a mais antiga terra dos eslavos, originária da região pantanosa em torno do Reino de Kiev. Sempre pobres e oprimidos devido aos periódicos ataques de nômades, como os hunos e os mongóis, tornaram-se fortes pelas dificuldades e numerosos pela fertilidade de suas mulheres. Muitos desses nômades estabeleceram-se nas planícies meridionais da Rússia, entre eles, os “cazares” que, no século VII, aderiram ao Judaísmo (pp. 398-399). Ainda no século VII, eslavos russos espalharam-se e criaram a Ucrânia, além de originar os sérvios e os croatas. Ambos aderiram ao Cristianismo, a Sérvia ao credo grego e a Croácia ao credo romano. A partir do século VIII, “a Europa Central, os Bálcãs e a Rússia eram um mar eslávico” (p. 399). No século X, a Rússia já era uma potência econômica e preferiram o Cristianismo, especialmente, a ideia do “direito divino dos reis” (p. 401). Durante cerca de três séculos, os mongóis arrasavam as terras russas no caminho de ida para a Europa e destruíam o que restava no percurso de volta às suas estepes (p. 583). Entre 1054 e 1224, além das 83 guerras civis e 16 disputas com estrangeiros, os territórios russos sofreram 46 invasões, especialmente dos mongóis (p. 581).

 

No século XI, Kiev e Novgorod eram alguns dos grandes principados que formavam a Rússia, mas estavam em decadência por causa do desvio das principais rotas de comércio para o Mediterrâneo. O enfraquecimento deixou-os à mercê de invasões estrangeiras, já em 1096, e às guerras fratricidas, como a destruição de Kiev em 1169 pelo soberano de um principado rival. Para completar a situação precária da “mãe das cidades russas”, entre 1229 e 1240, os mongóis devastaram-na seguidas vezes (p. 582). Em 1156, fundou-se Moscou. Em 1237, Batu, a mando de Ogodai Cã, incendiou a cidade. O que salvou Novgorod foram “as espessas florestas e grandes rios” ao seu redor. Então, Batu seguiu para arrasar, uma vez mais, Kiev. Tal cenário permaneceu por séculos, entre os quais, uma parte da horda mongol escolheu a Rússia como lar e, para isso, cobrou tributos de outros principados. Aos príncipes submetidos não havia escolha, então, adaptaram-se como puderam (p. 583).

 

A autoridade despótica do Cã, a Igreja russa (fundamentada no Cristianismo bizantino) tornada sua aliada, milhares de russos que preferiram a vida monástica e a submissão feudal, que atingiu todos os âmbitos da vida, foram a base para o desenvolvimento do futuro governo de cada “Autocrata de Todas as Rússias” e de uma região “vergada pelo ciclone mongólico, que permaneceu, como imenso fosso e trincheira, a proteger a maior parte da Europa contra a conquista asiática. Toda a fúria daquela tempestade humana desabou sobre os eslavos”, ressalta Durant (p. 584).

 

Gengis Khan (1167-1227) - Khan ou Cã, significa chefe - estava ocupado em invadir e saquear regiões inteiras entre a Rússia e a China, quando um reino muçulmano da Ásia se uniu a um rebelde contra Gengis Khan, isso foi o suficiente para chamar a atenção do líder mongol para os territórios do Islã (p. 397). Aos países eslavos já deteriorados, a partir de 1219, acrescentou-se ao cardápio mongol o Islã Oriental. Bucara, Samarcanda e Nixapur e Merv foram algumas das cidades devastadas. Um século depois, o viajante marroquino, Ibn Batuta (1304-1369), descreveu-as como ainda em ruínas (p. 305).

 

A partir de 1234, parecia que todo o mundo conhecido pereceria sob a adaga mongol. Ogodai (1185-1241), filho e sucessor de Gengis Khan, possuía tal poder militar que, simultaneamente, manteve três frentes de ataque: “contra a Coréia, contra a China e contra a Europa” (p. 585). No exército direcionado ao Leste, Batu foi um dos comandantes responsáveis pela desenfreada assolação de regiões inteiras, como a Mesopotâmia e grande parte do Azerbaijão (p. 305). Os mongóis saquearam a vizinha Armênia em 1234, na época, dividida em uma parte muçulmana e outra cristã - no século XIV, mesmo sob governo mameluco, os armênios continuaram a adotar uma forma particular de Cristianismo, alheio a Constantinopla ou a Roma (pp. 305, 580).

 

No tocante à Sérvia e à Bósnia, absorveram o Cristianismo bizantino e, em 1237, sofreram o mesmo destino nas mãos dos mongóis (pp. 584-585). Entre o século XII e XIII, o reino cristão da Bulgária elevou-se à mesma cultura de outros eminentes reinos da época, mas também foi vítima do fluxo mongol, que desorganizou o reino.

 

A Hungria era formada por parte de sangue huno, eslavo, e da tribo dos magiares, aos quais deu abrigo entre as suas invasões da Europa no século X. Depois, para compensar seus erros, os húngaros tornaram-se cristãos fervorosos (pp. 397-398). Desde o século XI, a Hungria aliou-se política e religiosamente ao Cristianismo de Roma. Em 1222, teve a sua versão de Magna Carta inglesa (1215), nomeada como “Edito de Ouro”, no qual o “conde palatino (isto é, um conde do palácio imperial)”, não tinha direito de taxar terras de nobres ou da igreja. Contudo, seus esforços foram em vão, pois em 1240, Batu, o comandante de Ogodai Cã, invadiu suas terras e causou a morte, segundo os cronistas da época, de “quase toda a força militar do reino”. Os mongóis, descendentes dos hunos, atacaram seus iguais na Hungria, observou Durant (pp. 585-586). Em 1241, Batu arrasou Cracóvia, capital da Polônia, reino que recebeu esse nome do grupo de eslavos ali estabelecidos, nomeados como “polania - povos do campo” (p. 587). Os judeus expulsos do reino Germânico, em 1246, encontraram boa acolhida entres os poloneses.

 

A terceira onda de ataques mongóis ocorreu com a liderança do neto de Gengis Khan, Hulagu (1217-1265). Em 1258, ele entrou na mística e poderosa Bagdá. Para Durant: “Assim terminou o califado Abássida na Ásia” (p. 306). Em 1260, foi a vez de Alepo ser devastada pelos mongóis. Porém, nesse mesmo ano, o exército dos mamelucos Qutuz e Baibars (1223-1277) barrou o avanço mongol perto de Damasco. Esses mamelucos foram escravos-soldados turcos que se rebelaram contra a dinastia Aiúbida no Egito - recordemos, fundada por Saladino -, inaugurando o sultanato mameluco (p. 306). Quando os mongóis retornaram para suas estepes, abandonaram uma Ásia Ocidental, outrora hegemônica no cenário mundial, “à destruição, uma centena de cidades prósperas e cultas da Síria, Mesopotâmia, Pérsia, Cáucaso e Transoxiana à pobreza, doença e estagnação dos tempos modernos” (p. 306). No final de três gerações de Cãs mongóis invasores, a devastação ia do Oceano Pacífico, passava pelo Adriático e chegava ao Báltico (p. 586).

 

Os mongóis, inclusive, tiveram uma ligação com “a seita mais estranha da História”. Na Pérsia do ano 1090, Hassã ibn al-Sabá, líder de uma seita dissidente do Islã, os ismaelitas, ocupou a fortaleza de Alamut, localizada uns três mil metros acima do nível do mar. Ali, Hassã criou o reduto de um credo secreto que “desencadeou uma campanha de terror e morte contra os adversários e perseguidores da fé ismaelita”. Em 1256, os mongóis liderados por Hulagu, tomaram a fortaleza e proibiram o credo secreto e a fé de Hassã. Mas, parece que as atividades continuaram, pois, segundo Marco Polo (1254-1324), que por lá passou em 1271, o jovem que concordasse em ingressar na seita era chamado de “hashshasheen”, ou bebedor de haxixe (hashish), que significa assassino (p. 279)[23].

 

IV. Conclusão

 

A tão repetida Queda de Roma, vimos, ocorreu menos por invasões externas e mais por problemas internos de um vasto e heterogêneo império em um mundo cada vez maior, como revela a chegada dos hunos e dos mongóis às margens da Europa. Quanto à Civilização Bizantina e ao Norte da África, nota-se como foram importantes na formação de crenças seguidas até os dias de hoje, ao que parece, sem perder fôlego, como o Cristianismo Tridentino, além das obras de Agostinho e de Jerônimo.

 

O advento e apogeu do Islã são, para Durant, a restabelecimento da influência do Oriente Próximo em relação à autoridade grega ou romana. Trata-se de uma nova demonstração do poder não apenas de uma Pérsia Sassânida - que vimos nesta Parte 1 da Resenha ampliada do Volume IV, A Idade da Fé -, mas sobretudo da Pérsia de Xerxes e Dario; da Judéia do rei Salomão; da Assíria de Assurbanipal; da Babilônia de Hamurabi e, até da Suméria e seus desconhecidos governantes (p. 309).[24] Não devemos olvidar que foram essas civilizações as primeiras a travar relações diretas com o Extremo Oriente - como China e Índia -, com os países eslavos - como Rússia e Hungria -, e com as regiões subsaarianas, conhecidas como a África Negra. Ou seja, gregos e romanos eram apenas a última escala de pessoas, ideias e mercadorias que chegavam de terras distantes, que bem poucos entre eles conheceram, exceto na imaginação.

 

Talvez, sabendo da dívida que tinha com a herança judaica, Maomé aconselhou a tolerância aos “povos do livro”, exortando os judeus a seguirem sua lei e os cristãos a obedecerem ao Evangelho. Mas, ele frisou que ambos deviam aceitar “o último pronunciamento de Deus”: o Alcorão. O Talmude, a Bíblia e, depois, o Alcorão, segundo Durant, “encheram a Idade da Fé”. Isso ocorreu, provavelmente, porque a gradativa “barbarização” e caos em grande parte do mundo conhecido, mesmo antes da Queda de Roma, mergulhara mentes e corações em uma ética que só poderia vir do Alto, do sobrenatural. E, assim, enquanto os Estados se formavam, essas três religiões do livro competiram espiritual e sangrentamente por seus credos (p. 169).

 

Deixemos o fim para Durant, em seu posicionamento acerca de como o historiador deve estudar determinada crença religiosa, inclusive, quando se trata das religiões que acreditam em um Deus supremo - embora o Judaísmo e o Islamismo considerem o Deus tridentino do Cristianismo como “um politeísmo disfarçado” (p. 160):

 

Uma religião é, entre outras coisas, um mundo de governo moral. O historiador pergunta se uma teologia é verdadeira - com que onisciência poderia ele julgar? Prefere inquirir que fatores sociais e psicológicos se combinaram para produzir a religião; quão bem realizou ela o propósito de transformar [...] corações vazios em coragem esperançosa e mentes em paz; quanta liberdade ela ainda deixou para o desenvolvimento mental da humanidade e qual sua influência na História (p. 160).

 

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Fontes 

 

AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Vol. I. Petrópolis-RJ: Vozes, 2012.

______. A Cidade de Deus. Volume II. Petrópolis-RJ: Vozes, 2012.

______. Confissões. Petrópolis-RJ: Vozes, 2014.

BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2013.

 

Bibliografía 

 

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DANTAS, Bárbara. A arte de construir: a arquitetura nas Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X. Vila Velha-ES: Balsamum, 2018.

DAVIS, David Brion. O problema da escravidão na cultura ocidental. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2001.

GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: verdadeiro, falso e fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MEZQUITA-CATEDRAL de Córdoba. The building. Cabildo da Catedral de Córdoba. 2023.

TERESO, Sofia. Mobility and diet: knowing early medieval populations in the Northeast of Portugal through bioanthropology. Reseed Project. Centro de estudos interdisciplinares da Universidade de Coimbra. Jun/2020.

  

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[1] Profa. Dra. em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Website: www.barbaradantas.com. E-mail: barbara.dantas.hist@gmail.com

[2] Cf. DANTAS, Bárbara. (Resenha ampliada) DURANT, Will. Nossa herança oriental. Coleção A História da Civilização. Vol. I. Rio de Janeiro: Record, 1995, ISBN 85-01-28821-7. In: BEATRIZ VIOLANTE, Susana; COSTA, Ricardo da (orgs.). Mirabilia 28 - The Medieval Aesthetics: Image and Philosophy, 2019/1, pp. 664-703; DANTAS, Bárbara. (Resenha ampliada). DURANT, Will. Nossa Herança Clássica. Coleção A História da Civilização. Vol. II. Rio de Janeiro: Editora Record, 1995, ISBN 85-01-28822-5. In: PAZOS LÓPEZ, Ángel; SALVADOR GONZÁLEZ, José María (orgs.). Mirabilia 31 - Color from Antiquity to Baroque. Materiality and ideality of colors, 2020/2, pp. 899-921; DANTAS, Bárbara. (Resenha ampliada) DURANT, Will. César e Cristo. Coleção A História da Civilização. Vol. III. Rio de Janeiro: Editora Record, 1971. In: GABY, André (org.). Mirabilia Journal 33 - A Música na Antiguidade, Idade Média e Renascimento, 2021/2, pp. 704-745.

[3] As numerações de páginas entre parênteses que aparecerão ao longo do texto se referem a trechos do livro de Durant, citados direta ou indiretamente.

[4] GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: verdadeiro, falso e fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 29.

[5] DAVIS, David Brion. O problema da escravidão na cultura ocidental. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2001, p. 54.

[6] Cf. a respeito das Muralhas de Adriano e de Antonino, construídas entre os anos de 122 e 147 d.C., em: DANTAS, Bárbara. (Resenha ampliada) DURANT, Will. César e Cristo, op. cit., p. 721.

[7] Para facilitar a conexão espacial do leitor com as regiões a que Durant se refere, optei por manter o que ele fez, usar alguns nomes atuais de países ou localidades.

[8] Cf. a respeito da barreira nas Termópilas, onde cerca de 300 soldados espartanos adiaram a passagem do imenso exército do imperador persa, Xerxes, em: DANTAS, Bárbara. (Resenha ampliada). DURANT, Will. Nossa Herança Clássica. Coleção A História da Civilização. Vol. II. Rio de Janeiro: Editora Record, 1995, ISBN 85-01-28822-5. In: PAZOS LÓPEZ, Ángel; SALVADOR GONZÁLEZ, José María (orgs.). Mirabilia 31 - Color from Antiquity to Baroque. Materiality and ideality of colors, 2020/2, p. 904.

[9] AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Vol. I. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002, p. 42.

[10] BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 10.

[12] AGOSTINHO. Confissões. Petrópolis-RJ: Vozes, 2014, p. 404/nota 11.

[13] “Foi ele quem nos tornou aptos para sermos ministros de uma Aliança nova, não da letra, e sim do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito comunica a vida.”. CORÍNTIOS II, 3:7. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2013, p. 2019 [grifo nosso].

[14] Cf. DANTAS, Bárbara. A arte de construir: a arquitetura nas Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X. Vila Velha-ES: Balsamum, 2018, pp. 323, 353-354.

[15]AGOSTINHO. Confissões, op. cit., p. 73.

[16] AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Volume II. Petrópolis-RJ: Vozes, 2012, p. 204.

[19] Incluí a correlação em metros e centímetros para as medidas em pés e polegadas dadas pelo historiador.

[20] TERESO, Sofia. Mobility and diet: knowing early medieval populations in the Northeast of Portugal through bioanthropology. Reseed Project. Centro de estudos interdisciplinares da Universidade de Coimbra. Jun/2020.

[21] Cf. imagens computadorizadas que reconstituem o desenvolvimento da construção do santuário, desde a época de Abd-er-Ramã I, em: MEZQUITA-CATEDRAL de Córdoba. The building. Cabildo da Catedral de Córdoba. 2023.

[22] MEZQUITA-CATEDRAL de Córdoba. The building, op. cit.

[23] Os fãs do game que virou filme, Assassins Creed, podem agradecer a Durant essa informação confiável acerca da origem da seita de “assassinos”.

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