Rembrandt e a Holanda do século XVII
- Autora | Bárbara Dantas
- 9 de ago. de 2018
- 15 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Bárbara Dantas
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
DANTAS, Bárbara. Rembrandt e a Holanda do século XVII. In: DANTAS, Bárbara; LOPES, Almerinda. Momentos da História, Visões da Arte. Volume 2. Vila Velha - ES: Balsamum, 2025, pp. 39-58.
Resumo: Baseado em um discurso interdisciplinar e partindo do exame de fontes iconográficas prímárias, podemos ter uma ideia dos panoramas social, religioso e histórico da Holanda do século XVII, em especial, da região de Amsterdã. A ênfase na estética, técnica e material utilizado pelo famoso pintor e gravador Rembrandt buscam associar o discurso historiográfico com o artístico a fim de tentar diminuir as barreiras existentes entre estas duas correntes de estudo. Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), mais conhecido pela posteridade como pintor, na verdade, atuou muito mais como gravador. Neste trabalho veremos algumas de suas gravuras, nas quais representou imagens com temáticas variadas, mas comuns entre o meio artístico da época: autorretratos, paisagem, cenas bíblicas, de gênero, nus, paisagem e retratos. Pensemos nelas como fontes que nos dão uma infinidade de opções de análise para identificarmos as características formativas e representativas da sociedade holandesa de então.
Palavras-chave: arte holandesa; gravura; autorretrato; religião; retrato; paisagem.
Resumen: A partir de un enfoque interdisciplinario y del análisis de fuentes iconográficas primarias, podemos comprender el panorama social, religioso e histórico de la Holanda del siglo XVII, en particular de la región de Ámsterdam. El énfasis en la estética, las técnicas y los materiales utilizados por el famoso pintor y grabador Rembrandt busca conectar el discurso historiográfico y artístico para reducir las barreras existentes entre ambos campos de estudio. Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), más conocido en la posteridad como pintor, trabajó en realidad mucho más como grabador. En este trabajo, examinaremos algunos de sus grabados, en los que representó imágenes de temática variada, pero comunes en el ámbito artístico de la época: autorretratos, paisajes, escenas bíblicas, escenas de género, desnudos y retratos. Considérelos fuentes que nos ofrecen múltiples opciones analíticas para identificar las características formativas y representativas de la sociedad holandesa de la época.
Palabras clave: arte holandés; grabado; autorretrato; religión; paisaje.
Abstract: Based on an interdisciplinary approach and the examination of primary iconographic sources, we can gain insight into the social, religious, and historical landscape of 17th-century Holland, particularly the Amsterdam region. The emphasis on the aesthetics, techniques, and materials used by the famous painter and engraver Rembrandt seeks to connect historiographical and artistic discourse in order to diminish the existing barriers between these two fields of study. Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), better known to posterity as a painter, actually worked much more as an engraver. In this work, we will examine some of his engravings, in which he represented images with varied themes, but common among the artistic milieu of the time: self-portraits, landscapes, biblical scenes, genre scenes, nudes, and portraits. Let us consider them as sources that offer us a multitude of analytical options to identify the formative and representative characteristics of Dutch society at that time.
Keywords: Dutch art; engraving; self-portrait; religion; landscape.
1. MAES - Museu de Arte do Espírito Santo, Dionísio Del Santo
Fig. 1

Rembrandt e a arte da Gravura. Caderno da exposição de gravuras de Rembrandt no MAES.
Fonte: arquivo pessoal.
Este trabalho nasceu a partir da experiência como estagiária de história no MAES (Museu de Arte do Espírito Santo) durante a exposição temporária “Rembrandt e a arte da gravura” ocorrida entre os meses de Março e Maio de 2010. É uma apresentação das artes gráficas produzidas por Rembrandt e demonstra o olhar deste artista sobre o seu meio e seu tempo. Não se trata do resultado de uma pesquisa aprofundada, mas, apenas, do reconhecimento da importância das obras gráficas de Rembrandt como objetos não apenas artísticos, mas como fontes históricas que merecem especial atenção.
Como exercício acadêmico, ainda nos meus primeiros anos de graduação, eu apresentei essa pesquisa em uma comunicação da VIII Semana Acadêmica, do curso de História, da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, no ano de 2012. Mais de 10 anos depois, ei-lo aqui publicado em versão revisada e ampliada.
2. O século XVII na Holanda
Fig. 2

Rembrandt. Lição de anatomia do dr. Nicolas Tulp, 169.5 x 216.5 cm, óleo sobre tela, 1632. Mauritshuis Museum, Amsterdã.
Rembrandt tinha apenas 25 anos quando foi convidado a pintar os retratos dos cirurgiões de Amsterdã. A pintura foi encomendada para a aula de anatomia dada pelo Dr. Nicolaes Tulp em janeiro de 1632. Rembrandt retratou os cirurgiões em ação, e todos eles estão olhando para coisas diferentes. O dinamismo é adicionado à cena pelos grandes contrastes entre claro e escuro. Nesse retrato de grupo, o jovem pintor exibiu sua técnica lendária e seu grande talento para pintar retratos realistas. Assim como os nomes dos médicos, também sabemos a identidade do cadáver: Adriaen Adrieansz, também conhecido como Aris Kindt, que fora preso por roubar um casaco de inverno e, por isso, condenado à morte. Ele foi enforcado em 31 de janeiro de 1632. Após sua morte, o corpo de Aris foi entregue à guilda cirúrgica para a aula pública anual de anatomia (Mauritshuis Museum).
O século XVII é considerado o “Século de Ouro” na Holanda, a então província setentrional dos Países Baixos. Devido ao período de paz, após as batalhas contra o jugo espanhol, alguns ramos da sociedade e as produções intelectuais floresceram de forma “peculiar”, em comparação com seus vizinhos europeus (GOMBRICH, 1972, p. 325).
Naquele século, as chamadas “Grandes Navegações” tiveram na Inglaterra e na Holanda os principais países. Os navios holandeses comerciavam com os 05 continentes: o comércio se expandiu às colônias holandesas das Índias Orientais (Índia e China) e Ocidentais (as Américas). Levaram riqueza e prosperidade a uma nação protegida por um poderio marítimo sem par. A Holanda tinha, nesse período, uma atmosfera de segurança e vitalidade que contribuiu para seu rápido desenvolvimento.
Politicamente, os enfrentamentos entre a poderosa burguesia comercial, partidária de um governo descentralizado entre as províncias (ou seja, republicano) e os grupos ortodoxos, advindos da Dinastia dos Orange espanhola e adeptos do regime político absolutista, não chegaram a afetar a paz interna. Pelo contrário, a Casa de Orange reduziu sua atuação às necessidades militares e as “municipalidades” (formadas, em sua grande maioria, de ricos burgueses) de cada província passaram a ditar as regras.
3. Século XVII, o “século de ouro” da arte holandesa
Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 1606, na cidade portuária de Leiden, sendo contemporâneo de Franz Halz (1580-1666) e Jan Vermeer (1632-1675), dois outros renomados artistas. Partícipe da centúria de grandes pintores holandeses, Rembrandt é considerado o maior nome da pintura holandesa do século XVII. Não adquiriu o costume de anotar seus pensamentos e de registrar o processo artístico de suas obras. Contudo, por meio de suas gravuras, podemos conhecer o homem por trás do gênio da arte. Seu olhar gráfico sobre o mundo nos revela tanto quanto as anotações de Leonardo da Vinci (1452-1519) nos podem revelar (GOMBRICH, 1972, p. 330).
Fig. 3

Vermeer. A Rendeira, c. 1669-1670, óleo sobre tela, 24 x 68 cm. Louvre.
4. O filho de moleiros: Leiden
A região da qual trataremos neste capítulo era, no século XVII, conhecida como País Baixo, ou Neerland. O emprego do termo “Holanda ou holandês” não é de todo falho, contudo, entendam que me refiro à região composta pela República dos Países Baixos, calvinista, em oposição à Província Unida do Sul - hoje Bélgica – e, naquele tempo, sob domínio espanhol e fiel à religião católica (ZUMTHOR, 1959, p. 18).
Fig. 4

Rembrandt. Leiden, vista perto de Rampoortje, caneta, tinta marrom e aquarela, 1606-1669, Amsterdã. The Morgan Library and Museum - New York.
Um dos cinco filhos de uma próspera família de moleiros de malte (principal ingrediente da cerveja, a bebida preferida do século XVII holandês) teve uma boa educação voltada à carreira religiosa. Estudou na erudita Escola Latina, na qual aprofundou seu conhecimento nas Artes Liberais e da História da Arte. Não sentindo vocação para a vida clerical, Rembrandt, assim que se formou, mudou-se para Amsterdã, tornando-se um dos aprendizes do famoso pintor Pieter Lastman (1583-1633), com o qual estudou por 06 anos. Tempos depois, já com pleno domínio das técnicas da pintura e da gravura, além de mostrar seu particular toque pessoal, Rembrandt retornou a Leiden. Com 25 anos já era pintor e gravador conceituado (GOMBRICH, 1972, p. 330).
5. Amsterdã, terra do jovem talento da arte
Rembrandt desfrutou do reconhecimento de suas obras gráficas e pinturas desde cedo. Produziu, ao longo de sua vida, 290 gravuras. Um dos maiores números de toda a história da arte. Ao contrário do que a posteridade estabeleceu, em dados quantitativos, Rembrandt foi mais gravador que pintor. Produziu 60 quadros com pinturas a óleo que, infelizmente, não fazem parte do recorte deste trabalho, pois atentar-me-ei às gravuras.
Fig. 5

Rembrandt House Museum, Amsterdã.
A arte da gravura adquiriu uma importância grande na Holanda do século XVII, pois era considerada como figuração da realidade e tinha o valor que, para nós, tem a fotografia, como meio de reproduzir os fatos do cotidiano. Os meios gráficos, tanto em textos como em imagens eram mais amplamente utilizados na política e no âmbito militar (ZUMTHOR, 1989, p. 242).
6. Breve história da gravura
A gravura é uma técnica de reprodução de textos e imagens. Remonta à Idade Média Oriental e chegou à Europa Ocidental através do contato dos cruzados com os árabes. Esses usavam a técnica para ornamentar armas, além de navios mercantes e de guerra, com chapas de metal artisticamente trabalhadas com motivos florais ou geométricos. A gravura foi amplamente utilizada, a partir do século XVII, pelos ingleses, alemães e holandeses para diversos fins, da política à reprodução de obras de arte (WOLF, 2010, p. 40).
Fig. 6

Reconstituição do ateliê de Rembrandt, segundo o inventário para o leilão de seus bens móveis e imóveis. Museu Casa Rembrandt - Amsterdã.
Como dito antes e saliento aqui, Rembrandt foi um dos artistas de seu tempo que utilizou a gravura e seu poder de reprodutibilidade para a produção de obras em larga escala. Possibilidade inovadora até então. “As gravuras de Rembrandt, por seu caráter reprodutível, adquiriam visibilidade muito maior do que suas pinturas e seus desenhos, obras únicas e, assim, foi graças às gravuras que o artista ganhou reputação na Europa, ainda em vida” (MAES, 2010).
6.1. Gravuras: técnicas e instrumentos
A técnica mais usada por Rembrandt na gravura foi a da água-forte. Também utilizou o buril e a ponta seca para “arranhar” a chapa de cobre. Rembrandt dizia que, para admirar suas pinturas, devemos manter uma certa distância para que não identifiquemos as pinceladas e possamos ver a composição total do quadro. Em relação às gravuras, ao contrário, elas devem ser admiradas bem de perto, para identificarmos as “ranhuras” na obra (MAES, 2010).
Fig. 7

Reprodução dos instrumentos e materiais utilizados por Rembrandt na produção de gravuras. Museu Casa Rembrandt - Amsterdã.
O que vemos em preto ou cinza em uma gravura são os “desenhos” que o artista fez na chapa de cobre. Depois, a chapa passa por um complexo processo químico para ser reproduzida em papel. O artista podia reproduzir sua obra várias vezes, mas, deveria ter o cuidado de parar antes de desgastar a chapa. A própria chapa de cobre poderia ser reutilizada ou alterada em alguns detalhes, voltando novamente para o equipamento de impressão em papel.
6.2. Gravuras de paisagem
O jovem Rembrandt tinha uma veia conservadora que o fazia permanecer apegado à sua terra e ao ambiente mais próximo. Os artistas de seu tempo desejavam ir à Itália, onde esperavam encontrar os modelos de acordo com o gosto da tradição clássica, ou seja, greco-romana. Ao contrário destes, Rembrandt nunca saiu da Holanda. Apenas viajou no eixo Leiden-Amsterdã. A maioria das gravuras de paisagem que Rembrandt produziu representa os arredores de Amsterdã. São do período anterior ao seu definitivo estabelecimento na cidade e, desde então, nunca mais saiu dela.
Fig. 8

Rembrandt, 1643. As três árvores. Água forte, ponta seca e buril.
Museu Casa Rembrandt - Amsterdã.
A religião protestante afetou o tipo de arte produzida na Holanda do século XVII. O gosto da clientela, grandes ou pequenos burgueses, era menos “exuberante” que o encontrado nos países católicos. “Os holandeses se especializaram em temas mais sóbrios e mais relacionados com a vida cotidiana” (MAES, 2010). As paisagens holandesas são um marco não só para a história da arte: são representações menos alegóricas e mais realistas do mundo daquela época. Não exageremos e digamos que são “retratos”! Mas, os artistas holandeses deixaram à posteridade maravilhosas impressões da natureza, arquitetura e vida cotidiana desde o século XVI, com um olhar menos religioso e mais humanista (SCHNEIDER, 2009, p. 17).
6.3. Gravuras bíblicas
Fig. 9

Rembrandt. O Anjo aparece aos pastores, gravura a ponta seca e buril, 1634.
Museu Casa Rembrandt, Amsterdã.
À noite, apareceu aos pastores no campo um anjo que lhes trouxe as notícias do nascimento de Cristo. Os pastores e seus animais, espalhando-se aterrorizados com essa aparição, são pequenas figuras na paisagem grandiosamente concebida. A luz no céu e no primeiro plano e a escuridão circundante da noite produzem um contraste dramático (Museu Casa Rembrandt).
Este pequeno país europeu absorveu o Calvinismo e o Estado não sofria intervenção da Igreja. Portanto, a Holanda era um país que, no Século XVII, praticava a tolerância religiosa e a liberdade de expressão. Mesmo os artistas fiéis ao protestantismo, como Rembrandt, obtinham encomendas dos Estados ou das Igrejas, não importando a religião ou o tipo de regime político (MAES, 2010).
Rembrandt utilizou os objetos de sua coleção de artigos exóticos para compor os elementos das suas obras bíblicas, tanto em gravura, quanto em pintura. Roupas, acessórios e armas greco-romanas ou orientais eram modelos iconográficos para suas obras. Utilizou, também, modelos vivos de homens idosos para aperfeiçoar a representação das feições e marcas de expressão dos patriarcas e apóstolos da Igreja Cristã. Enfatizou, dessa forma, a expressividade emotiva das figuras (GOMBRICH, 1972, p. 332).
6.4. Gravuras de nus artísticos
Fig. 10

Rembrandt. Nu feminino reclinado, gravura à ponta seca, 1658.
Rijksmuseum, Amsterdã.
“Nesse contexto, o colecionador particular tornou-se o principal suporte de artistas e artesãos. A grande clientela era burguesa, mas cidadãos de diversas classes podiam adquirir obras. As gravuras, por seu caráter reprodutível, tendiam a ser mais baratas.” (MAES, 2010).
O nu foi um dos temas utilizados por Rembrandt em gravuras, mas nem sempre vendia bem. A representação tão realista das formas humanas, muitas vezes feia ou grotesca, desagradou o público consumidor. Esta jovem nu da Fig. 10 está agradavelmente bela. Mas, as reconhecidas formas avantajadas dos holandeses e das holandesas não foram escondidas nas obras gráficas de Rembrandt, que mostrava as imperfeições do corpo humano. Veremos um exemplo disso na gravura com tema mitológico, a seguir.
6.5. Gravuras: mitologia
Fig. 11

Rembrandt, 1631. Diana banhando-se, água forte, estado único, 17,8 x 15,9 cm.
Ao contrário de outros artistas de seu tempo, que se especializavam em um determinado tema em suas obras gráficas, Rembrandt trabalhou com várias temáticas. Para a Mitologia, utilizava como modelos pessoas conhecidas, inclusive Saskia, sua esposa. Essa modelo foi representada como a deusa Diana, como vemos na Fig. 11. Seu corpo não idealizado se inseria em composições de um mundo imaginado pela mente criativa de Rembrandt, que teve acesso a obras do poeta grego Ovídio durante seus anos de estudos na Escola Latina de Teologia.
Os frequentes contatos que os holandeses tinham com países do Oriente, ampliaram os horizontes intelectuais dos artistas da época. Os navios retornavam aos portos da Holanda com uma infinidade de objetos e textos orientais e clássicos, até então, desconhecidos no Ocidente Europeu. Rembrandt, como dito antes, foi colecionador de objetos exóticos. Para adquiri-los, dispendia grandes somas de dinheiro nos portos. (GOMBRICH, 1972, p. 333).
6.6. Gravuras de gênero
Fig. 12

Rembrandt, 1631. Um homem urinando, água forte, estado único, 8,2 x 4,8 cm.
No século XVII, os burgueses holandeses se acostumaram com a paz. Podiam, dessa forma, dedicarem-se às atividades domésticas, desfrutar os prazeres da música e da pintura. A vida social adquiriu um caráter mais íntimo (ZUMTHOR, 1989, pp. 237-238). Os acontecimentos dramáticos da agitada cena política europeia já não pareciam ser um obstáculo para suas ocupações privadas. Esse tema, chamado de “gênero” ou do “cotidiano”, foi largamente representado nas gravuras de artistas holandeses do século XVII.
Tal liberdade de representação não idealizada da realidade, de retratar da forma o mais fiel possível mendigos, camponeses e músicos em situações por vezes escandalosas, como urinando na rua, que vimos na Fig. 12, fazem dos gravadores da Holanda setecentista uma vertente menos clássica e mais moderna da arte de então.
Ao longo do século XVII, a sociedade holandesa, antes, formada por pescadores e camponeses, refinou seus hábitos à medida que as condições socioeconômicas prosperaram e, principalmente, pelo convívio com outras culturas por meio do comércio marítimo. Assim, adquiriram uma fachada de limpeza e ordem, mas conservaram sua origem rústica (ZUMTHOR, 1959, p. 372).
Os holandeses eram conhecidos como glutões e comerciantes incansáveis, além de propensos a exagerar na bebida. Rembrandt figurou-os, por vezes, dessa forma. “Todos queriam adquirir obras, independentemente de sua classe socioeconômica. As obras de arte eram vistas como um bom investimento e tinham valor de moeda, além de sua revenda ser fácil” (MAES, 2010).
6.7. Gravuras de autorretratos
Rembrandt foi o artista que mais se autorretratou. Conhecemos 90 autorretratos dele, tanto em gravura, quanto em pintura (MUSEU CASA, 2010). Desde sua juventude até a velhice. Um verdadeiro registro autobiográfico pictórico. A título de comparação: o artista espanhol Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), Primeiro Pintor da Corte espanhola de três reis sucessivos e renomado também pelas suas obras gráficas, autorretratou-se apenas 09 vezes (HUGUES, 2007, p. 122).
Fig. 13

Rembrandt, 1636. Autorretrato com boina, olhos bem abertos e boca aberta, gravura e ponta-seca. Rijksmuseum - Amsterdã.
De todos os autorretratos em que Rembrandt retrata estados de espírito, esse é talvez o mais bonito. Ele parece assustado, com os lábios franzidos e os olhos arregalados. Você olha para ele um pouco de baixo, de modo que parece que ele está se encolhendo. O trabalho de gravura clara é muito inteligente, no qual os contornos dos ombros e da boina se dissolvem para fora (Rijksmuseum).
Suas obras em gravura, não sugerem, ao contrário do que algumas análises indicam, um narcisismo da parte de Rembrandt. Ao observar uma série de autorretratos seus e, sabendo como ele era dedicado a melhora da técnica, o mais correto é entendermos essas obras como estudos de face, de movimentos, de feições humanas, dos efeitos de luz e sombra (o chiaroscuro) e da técnica da perspectiva, usando si mesmo como modelo.
6.8. O Museu Casa Rembrandt, Amsterdã
Fig. 14

Rembrandt. Retrato Jan Six, 24,4 x 19,3 cm, água forte e buril, 1647.
Metropolitan Museum of Art, Nova York.
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Ressaltando o que foi dito antes, ao contrário do que ocorria nos países cristãos católicos, como França e Espanha, a igreja calvinista da Holanda não interferia no Estado e não patrocinava a produção de obras de arte, mesmo as que representavam passagens da bíblia. A religião calvinista não permitia a produção de imagens cultuais ou ornamentais.
Os mecenas da arte na Holanda do século XVII foram os grandes comerciantes (os burgueses) e as instâncias governamentais. Além de adquirir obras de arte como símbolo de riqueza, esses burgueses queriam ser retratados em todo o seu luxo e poder. A recém-formada burguesia estava ansiosa por se autoafirmar. Por vezes, preferiam mostrar um lado erudito, representados lendo ou rodeado de livros, como vimos na Fig. 14. Mas, por outro lado, Rembrandt pintou e gravou, principalmente, poderosos homens junto a seus atributos de poder que variavam desde montes de moedas de ouro às armadas de navios atracados em um cais atrás do personagem retratado. Muitas dessas gravuras e desenhos estão abrigados no Museu Casa Rembrandt, em Amsterdã.
6.9. Uma bela casa para a amada esposa
Fig. 15

Rembrandt, 1636. Autorretrato junto à Saskia, água forte, estado III. Museu Casa Rembrandt.
O Museu Casa Rembrandt, localizado em Amsterdã, emprestou as 75 gravuras que compunham a exposição no Museu de Arte do Espírito Santo, o MAES. O local do museu de Amsterdã foi a casa de Rembrandt por 20 anos. Já naquela época, a residência valia muito, e Rembrandt despendeu grande soma em dinheiro para comprá-la. Como não era bom administrador de finanças como foi artista, morreu pobre. Devido a dívidas, leiloou a casa e tudo que existia dentro dela (MUSEU CASA, 2010).
Assim, a casa passou por diversos donos e perdeu a característica da época que Rembrandt morava nela. Em 1910 o governo holandês a comprou e iniciou um lento e profundo processo de restauração interna e externa, além de uma política de compras das obras de Rembrandt que estavam espalhadas pelo mundo. Até alguns objetos exóticos que o artista colecionava foram readquiridos.
Hoje, o Museu Casa Rembrandt possui o maior acervo de gravuras do artista (250 das 290 existentes) e foi restaurada da forma mais próxima possível, segundo a fachada externa, decoração, móveis e utensílios de uso pessoal do artista e seus familiares.
7. Conclusão
Para concluir, relembro a visão holandesa de seu meio, representada em suas expressões artísticas: é fruto de um olhar sereno, menos dramatizado e idealizador do mundo ou a respeito dos homens. A diversidade pouco incomodou os holandeses do século XVII, acostumados a negociar e a se relacionar com variadas culturas de diferentes procedências. Aliás, a sobrevivência e a prosperidade dos holandeses são atribuídas ao fato de que os Países Baixos acolhiam comerciantes e viajantes de toda parte. Adquiriram, dessa forma, uma capacidade cosmopolita de viver e de aceitar costumes diferenciados. Tornaram-se, portanto, amantes da liberdade e inimigos da opressão.
Sua religião austera, não suprimiu a totalidade de hábitos ancestrais. O holandês típico era extremamente religioso, moralista e valorizava a organização da vida doméstica e profissional. Por outro lado, praticava com deleite os excessos da bebida, a vida mundana e os negócios arriscados, mas altamente lucrativos. Sociedade contraditória, sim. Mas, qual não é?
8. Referências
GOMBRICH, Ernest. História da arte. São Paulo: Círculo do livro, 1972.
HUGUES, Robert. Goya. São Paulo: Cia das Letras, 2007.
LEIDEN. The Morgan. Acesso em 20 Abril 2012.
MUSEU Casa Rembrandt. Acesso em: 19 jun. 2010.
REMBRANDT e a arte da gravura. Caderno de Arte-educação da exposição. Vitória: MAES, 2010.
SCHNEIDER, Norbert. Naturezas-mortas. Colônia: Taschen, 2009.
SLOOTEN, E O. Rembrandt e a arte da gravura. São Paulo: Editora Cultural Banco do Brasil, 2002.
VERMEER. Louvre. Acesso em: 21 abr. 2012.
WOLF, Norbert. Dürer. Colônia: Taschen, 2010.
ZUMTHOR, P. A Holanda no tempo de Rembrandt. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
