Rembrandt e a Holanda do séc. XVII

Atualizado: Ago 4

[1]Resumo: Este trabalho é fruto da experiência como estagiária de história no MAES (Museu de Arte do Espírito Santo) durante a exposição temporária “Rembrandt e a arte da gravura” ocorrida entre os meses de Março e Maio de 2010. Esta comunicação baseia-se nas conversas com o SAE (Setor de Arte-Educação do MAES) e na montagem do discurso para a mediação com o público. Discurso esse que pretendeu ser interdisciplinar, pois, a partir de fontes iconográficas, podemos ter uma ideia dos panoramas social, religioso e histórico da Holanda do século XVII, em especial, da região de Amsterdã. A ênfase na estética, técnica e material utilizado pelo famoso pintor e gravador Rembrandt buscam associar o discurso historiográfico com o artístico a fim de tentar diminuir as barreiras existentes entre estas duas correntes de estudo. Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), mais conhecido pela posteridade como pintor, na verdade, atuou muito mais como gravador. Neste trabalho veremos algumas de suas gravuras, nas quais representou imagens com temáticas variadas, mas comuns entre o meio artístico da época: autorretratos, paisagem, cenas bíblicas, de gênero, nus, paisagem e retratos. Pensemos nelas como fontes que nos dão uma infinidade de opções de análise para identificarmos as características formativas e representativas da sociedade holandesa de então.


Palavras-chave: arte; gravura; autorretrato; religião; paisagem.


Resumen: Este trabajo es el resultado de la experiencia como practicante de Historia en el MAES (Museo de Arte del Espírito Santo) durante la exposición "Rembrandt y el arte del grabado" que aconteció entre marzo y mayo del año de 2010. Esta comunicación se basa en conversaciones do SAE (Sector de Arte-Educación del MAES) y en la montaje del discurso para la mediación con el público. Este discurso está destinado a ser interdisciplinar, ya que, a partir de fuentes iconográficas, nosotros tenemos una idea dos panoramas social, religioso y histórico del siglo XVII en Holanda, en especial, la región de Amsterdam. El énfasis en la estética, en la técnica y en el material utilizado por el famoso pintor y grabador Rembrandt buscan asociar el discurso historiográfico con el discurso de la arte con el fin de reducir las barreras entre estas dos corrientes de estudio. Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), más conocido por la posteridad como un pintor, de hecho, actuó más como un grabador. En este trabajo vamos a ver algunos de sus grabados en los que las imágenes representadas tienen temas variados, pero comúns en el mundo del arte de la época: autorretratos, paisajes, escenas bíblicas, género, desnudos, paisajes y retratos. Pensemos en ellos como fuentes que nos dan una multitud de opciones de análisis para identificar las características de formación y representación de la sociedad holandesa de aquellos tiempos.


Palabras clave: arte; grabado; autorretrato; religión; paisaje.


Abstract: This work is the result of experience as history trainee at the MAES (Museum of Art of Espírito Santo) during the temporary exhibition "Rembrandt and the art of engraving" that took place between the months of March and May 2010. This communication is based on the conversations with SAE (Art-Education Sector of MAES) and in the assembly of the speech for mediation with the public. This discourse was intended to be interdisciplinary, because from iconographic sources we can get an idea of ​​the social, religious and historical panoramas on the seventeenth-century in Holland, especially from the region of Amsterdam. The emphasis in the aesthetics, technique and material used by the famous painter and engraver Rembrandt seeks to associate the historiographic and artistic discourse in order to try to reduce the barriers between these two streams of study. Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), better known to posterity as a painter, in fact acted much more as engraver. In this work we will see some of his engravings in which he represented images with varied themes, but common among the artistic medium of that time: self-portraits, landscape, biblical scenes, genre, nudes, landscape and portraits. Think of them as sources that give us a myriad of analysis options to identify the formative and representative characteristics of dutch society at that time.


Keywords: art; engraving; self-portrait; religion; landscape.


1. MAES - Museu de Arte do Espírito Santo, Dionísio Del Santo

Figura 1: Caderno da exposição de gravuras de Rembrandt no MAES.


Este trabalho nasceu a partir da experiência como estagiária de história no MAES (Museu de Arte do Espírito Santo) durante a exposição temporária “Rembrandt e a arte da gravura” ocorrida entre os meses de Março e Maio de 2010. É uma apresentação das artes gráficas produzidas por Rembrandt e demonstra o olhar deste artista sobre o seu meio e seu tempo. Não se trata do resultado de uma pesquisa aprofundada, mas, apenas, do reconhecimento da importância das obras gráficas de Rembrandt como objetos não apenas artísticos, mas como fontes históricas que merecem especial atenção.


2. O século XVII na Holanda


Figura 2: Rembrandt, 1632. Lição de anatomia do dr. Nicolas Tulp. Óleo sobre tela. 169.5 x 216.5 cm, Mauritshuis Museum.


O século XVII é considerado o “Século de Ouro” na Holanda, a então província setentrional dos Países Baixos. Devido ao período de paz após as batalhas contra o jugo espanhol, alguns ramos da sociedade e as produções intelectuais floresceram de forma “peculiar” em comparação com seus vizinhos europeus (GOMBRICH, 1972, p. 325).

Naquele século, as chamadas “Grandes Navegações” tiveram na Inglaterra e na Holanda os principais países. Os navios holandeses comerciavam com os 05 continentes: o comércio se expandiu às colônias holandesas das Índias Orientais e Ocidentais. Levaram riqueza e prosperidade a uma nação protegida por um poderio marítimo sem par. A Holanda tinha, nesse período, uma atmosfera de segurança e vitalidade que contribuiu para seu rápido desenvolvimento.

Politicamente, os enfrentamentos entre a poderosa burguesia comercial, partidária de um governo descentralizado entre as províncias (ou seja, republicano) e os grupos ortodoxos, advindos da Dinastia dos Orange e adeptos do regime político absolutista, não chegaram a afetar a paz interna. Pelo contrário, a Casa de Orange reduziu sua atuação às necessidades militares e as “municipalidades” (formados, em sua grande maioria, de ricos burgueses) de cada província passaram a ditar as regras.


3. Séc. XVII, o “século de ouro” da arte holandesa


Figura 3: Jan Vermeer (1632-1675). A rendeira. Óleo sobre tela, 1669/70. Paris, Museu do Louvre.


Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 1606 na cidade portuária de Leiden e foi contemporâneo de Franz Halz (1580-1666) e Jan Vermeer (1632-1675), dois outros renomados artistas. Partícipe da centúria de grandes pintores holandeses, Rembrandt é considerado o maior nome da pintura holandesa do séc. XVII. Não adquiriu o costume de anotar seus pensamentos e de registrar o processo artístico de suas obras. Contudo, por meio de suas gravuras, podemos conhecer o homem por trás do gênio da arte. Seu olhar gráfico sobre o mundo nos revela tanto quanto as anotações de Leonardo da Vinci nos podem revelar (GOMBRICH, 1972, p. 330).


4. O filho de moleiros: Leiden


Figura 4: Rembrandt. Leiden, vista perto de Rampoortje, Amsterdã. Caneta e tinta marrom.

The Morgan Library and Museum


A região da qual trataremos nesta comunicação era, no séc. XVII, conhecida como País Baixo, ou Neerland. O emprego do termo “Holanda ou holandês” não é de todo falho, contudo, entendam que me refiro à região composta pela República dos Países Baixos, calvinista em oposição à Província Unida do Sul - hoje Bélgica – e, naquele tempo, sob domínio espanhol e fiel à religião católica (ZUMTHOR, 1959, p.18).

Um dos cinco filhos de uma próspera família de moleiros de malte (principal ingrediente da cerveja, a bebida preferida do séc XVII holandês) teve uma boa educação voltada à carreira religiosa. Estudou na erudita Escola Latina, na qual aprofundou seu conhecimento nas Artes Liberais e da História da Arte. Não sentindo vocação para a vida clerical, Rembrandt, assim que se formou, mudou-se para Amsterdã tornando-se um dos aprendizes do famoso pintor Pieter Lastman (1583-1633), com o qual estudou por 06 anos. Anos depois, com pleno domínio das técnicas da pintura e gravura e mostrando seu particular toque pessoal, Rembrandt retornou a Leiden. Com 25 anos já era pintor e gravador conceituado (GOMBRICH, 1972, p. 330).


5. Amsterdã, terra do jovem talento da arte


Figura 5: Casa de Rembrandt em Amsterdã. Rieke, 1868.


Rembrandt desfrutou do reconhecimento de suas obras gráficas e pinturas desde cedo. Produziu, ao longo de sua vida, 290 gravuras. Um dos maiores números de toda a história. Ao contrário do que a posteridade estabeleceu, em dados quantitativos, Rembrandt foi mais gravador que pintor. Produziu 60 quadros com pinturas a óleo, que, infelizmente, não fazem parte do recorte deste trabalho, atentar-me-ei às gravuras.

A arte da gravura adquiriu uma importância grande na Holanda do séc. XVII, era considerada como figuração da realidade e tinha o valor que, para nós, tem a fotografia como meio de reproduzir os fatos do cotidiano. Eram mais amplamente utilizadas na política e nos meios militares (ZUMTHOR, 1989, p. 242).


6. Breve história da gravura


Figura 6: Reconstituição do atelier de Rembrandt segundo o inventário para o leilão de seus pertences.


A gravura é uma técnica de reprodução de textos e imagens. Remonta à Idade Média Oriental e chegou à Europa Ocidental através do contato dos cruzados com os árabes. Estes usavam a técnica para ornamentar armas, além de navios mercantes e de guerra com chapas de metal artisticamente trabalhadas com motivos florais ou geométricos. A gravura foi amplamente utilizada, a partir do século XVII, pelos ingleses, alemães e holandeses para diversos fins, da politica à reprodução de obras de arte (WOLF, 2010, p. 40).

Como dito antes e saliento aqui, Rembrandt foi um dos artistas de seu tempo que utilizou a gravura e seu poder de reprodutibilidade, para a produção de obras em larga escala. Possibilidade inovadora até então. “As gravuras de Rembrandt, por seu caráter reprodutível, adquiriam visibilidade muito maior do que suas pinturas e seus desenhos, obras únicas, e assim, foi graças às gravuras que o artista ganhou reputação na Europa ainda em vida” (MAES, 2010).


Gravuras: técnicas e instrumentos


Figura 7: Reprodução dos instrumentos e materiais utilizados por Rembrandt na produção de gravuras. Museu Casa Rembrandt, Amsterdã.


A técnica mais usada por Rembrandt na gravura foi a da água-forte. Também utilizou o buril e a ponta seca para “arranhar” a chapa de cobre. Rembrandt dizia que, para admirar suas pinturas, devemos manter uma certa distância para que não identifiquemos as pinceladas e possamos ver a composição total do quadro. As gravuras, ao contrário, devem ser admiradas bem de perto, para identificarmos as “ranhuras” na obra (MAES, 2010).

O que vemos em preto ou cinza em uma gravura são os “desenhos” que o artista fez na chapa de cobre. Depois, a chapa passa por um complexo processo químico para ser reproduzida em papel. O artista podia reproduzir sua obra várias vezes, mas, deveria ter o cuidado de parar antes de desgastar a chapa. A própria chapa de cobre poderia ser reutilizada ou alterada em alguns detalhes, voltando novamente para o equipamento de impressão em papel.


Gravuras de paisagem


Figura 8: Rembrandt, 1643. As três árvores. Água forte, ponta seca e buril. Museu Casa Rembrandt, Amsterdã.


O jovem Rembrandt tinha uma veia conservadora que o fazia permanecer apegado a sua terra e ao ambiente mais próximo. Os artistas de seu tempo desejavam ir à Itália, onde esperavam encontrar os modelos de acordo com o gosto da tradição clássica. Ao contrário destes, Rembrandt nunca saiu da Holanda. Apenas viajou no eixo Leiden-Amsterdã. A maioria das gravuras de paisagem que Rembrandt produziu representa os arredores de Amsterdã. São do período anterior ao seu definitivo estabelecimento na cidade e, desde então, nunca mais saiu dela.

A religião protestante afetou o tipo de arte produzida na Holanda do séc XVII. O gosto da clientela, grandes ou pequenos burgueses, era menos “exuberante” que o encontrado nos países católicos. “Os holandeses se especializaram em temas mais sóbrios e mais relacionados com a vida cotidiana” (MAES, 2010). As paisagens holandesas são um marco não só para a história da arte: são representações menos alegóricas e mais realistas do mundo daquela época. Não exageremos e digamos que são “retratos”! Mas, os artistas holandeses deixaram à posteridade maravilhosas impressões da natureza, arquitetura e vida cotidiana desde o séc. XVI, com um olhar menos religioso e mais humanista (SCHNEIDER, 2009, p. 17).


Gravuras bíblicas


Figura 9: Rembrandt, 1653. As três cruzes. Ponta seca e buril. Estado I (5). Museu Casa Rembrandt.


Este pequeno país europeu absorveu o Calvinismo e o Estado não sofria intervenção da Igreja. Portanto, a Holanda era um país que, no Século XVII, praticava a tolerância religiosa e a liberdade de expressão. Como professavam o protestantismo, os artistas dos Países Baixos obtinham encomendas do Estado ou da Igreja, ao contrário do que ocorria no universo católico daquele período (MAES, 2010).

Rembrandt utilizou os objetos de sua coleção de artigos exóticos para compor os elementos das suas obras bíblicas, tanto em gravura, quanto em pintura. Roupas, acessórios e armas greco-romanas ou orientais como modelos para suas obras. Utilizou, também, modelos vivos de homens idosos para aperfeiçoar a representação das feições e marcas de expressão dos patriarcas da Igreja Cristã. Enfatizou, dessa forma, a expressividade emotiva das figuras (GOMBRICH, 1972, p. 332).


Gravuras de nus artísticos


Figura 10: Rembrandt. Homem nu sentado. Gravura, estado II. Museu Casa Rembrandt.


“Nesse contexto, o colecionador particular tornou-se o principal suporte de artistas e artesãos. A grande clientela era burguesa, mas cidadãos de diversas classes podiam adquirir obras. As gravuras, por seu caráter reprodutível, tendiam a ser mais baratas.” (MAES, 2010).

O nu foi um dos temas utilizados por Rembrandt em gravuras, mas nem sempre vendia bem. A representação tão realista das formas humanas, muitas vezes feia ou grotesca, desagradou o público consumidor. Este jovem nu da FIGURA 10 está agradavelmente belo. Mas, as reconhecidas formas avantajadas dos holandeses não foram escondidas nas obras gráficas de Rembrandt, que mostrava as imperfeições do corpo humano. Veremos um exemplo disso na gravura com tema mitológico.


Gravuras: mitologia


Figura 11: Rembrandt, 1631. Diana banhando-se. Água forte, estado único. 178x159mm. Museu Casa Rembrandt.


Ao contrário de outros artistas de seu tempo, que se especializavam em um determinado tema em suas obras gráficas, Rembrandt trabalhou com várias temáticas. Para a Mitologia, utilizava como modelos pessoas conhecidas, inclusive Saskia, sua esposa. Esta modelo foi representada como a deusa Diana, como vemos na FIGURA 11. Seu corpo não idealizado se inseria em composições de um mundo imaginado pela mente criativa de Rembrandt, que teve acesso a obras do poeta grego Ovídio durante seus anos de estudos na Escola Latina de Teologia.

Os freqüentes contatos que os holandeses faziam com países do Oriente, ampliaram os horizontes intelectuais dos artistas da época. Os navios retornavam aos portos da Holanda com uma infinidade de objetos e textos orientais e clássicos, até então, desconhecidos no Ocidente Europeu. Rembrandt, como dito antes, foi colecionador de objetos exóticos. Em suas composições de pintura ou gravura com temática mitológica, assim como nas bíblicas, também utilizou estes objetos e vestuário como modelos (GOMBRICH, 1972, p. 333).


Gravuras de gênero


Figura 12: Rembrandt, 1631. Um homem urinando. Água forte, estado único. 82x48mm. Museu Casa Rembrandt.


No séc XVII, os burgueses holandeses se acostumaram com a paz. Podiam, dessa forma, dedicarem-se às atividades domésticas, desfrutar os prazeres da música e da pintura. A vida social adquiriu um caráter mais íntimo (ZUMTHOR, 1989, p. 237-238). Os acontecimentos dramáticos da agitada cena política européia já não pareciam ser um obstáculo para suas ocupações privadas. Este tema, chamado de “gênero” ou do “cotidiano”, foi largamente representado nas gravuras de artistas holandeses do séc. XVII.

Esta liberdade de representação não idealizada da realidade, de retratar da forma o mais fiel possível mendigos, camponeses e músicos em situações por vezes escandalosas como urinando na rua como notamos na FIGURA 12, fazem dos gravadores da Holanda setecentista uma vertente menos clássica e mais moderna da arte de então.

Ao longo do séc XVII, a sociedade holandesa, antes, pescadores e camponeses refinou seus hábitos à medida que as condições socioeconômicas prosperaram e, principalmente, pelo convívio com outras culturas por meio do comércio marítimo. Assim, adquiriram uma fachada de limpeza e ordem, mas conservaram sua origem rústica (ZUMTHOR, 1959, p. 372).

Os holandeses eram conhecidos como glutões e comerciantes incansáveis propensos a exagerar na bebida. Rembrandt figurou-os, por vezes, dessa forma. “Todos queriam adquirir obras, independentemente de sua classe socioeconômica. As obras de arte eram vistas como um bom investimento e tinham valor de moeda, além de sua revenda ser fácil” (MAES, 2010).


Gravuras de autorretratos


Figura 13: autorretrato de Rembrandt.


Rembrandt foi o artista que mais se autorretratou. Conhecemos 90 autorretratos de Rembrandt, tanto em gravura, quanto em pintura (MUSEU CASA, 2010). Desde sua juventude até a velhice. Um verdadeiro registro autobiográfico pictórico. A título de comparação: O espanhol Goya, renomado também pelas suas obras gráficas, autorretratou-se apenas 09 vezes (HUGUES, 2007, p. 122).

Estas obras em gravura, não sugerem, ao contrário do que algumas análises indicam, um narcisismo da parte de Rembrandt. Ao observar uma série de autorretratos seus e, sabendo como era dedicado a melhora da técnica, o mais correto é entendermos estas obras como estudos de face, de movimentos, de feições humanas, dos efeitos de luz e sombra (o chiaroscuro) e da técnica da perspectiva usando si mesmo como modelo.


Museu Casa Rembrandt, Amsterdã


Figura 14: Rembrandt, 1647. Retrato Jan Six. Água forte e buril. 24.4 x 19.1 cm. Amsterdam, Museum het Rembrandthuis.


Ressaltando o que foi dito antes, ao contrário do que ocorria nos países cristãos católicos, como França e Espanha, a igreja calvinista da Holanda não interferia no Estado e não patrocinava a produção de obras de arte, mesmo as que representavam passagens da bíblia. A religião calvinista não permitia a produção de imagens cultuais ou ornamentais.

Os mecenas da arte na Holanda do século XVII foram os grandes comerciantes (os burgueses) e as instâncias governamentais. Além de adquirir obras de arte como símbolo de riqueza, estes burgueses queriam ser retratados em todo o seu luxo e poder. A recém formada burguesia estava ansiosa por se auto afirmar. Por vezes, preferiam mostrar um lado erudito representados lendo ou rodeado de livros. Mas, por outro lado, Rembrandt pintou e gravou, principalmente, poderosos homens junto a seus atributos de poder que variavam desde montes de moedas de ouro à armadas de navios atracados em um cais atrás do personagem retratado.


Uma bela casa para a amada esposa


Figura 15: Rembrandt, 1636. Autorretrato junto à Saskia. Água forte, estado III. Museu Casa Rembrandt.


O Museu Casa Rembrandt, localizado em Amsterdã, emprestou as 75 gravuras que compunham a exposição no Museu de Arte do Espírito Santo, o MAES. O local do museu de Amsterdã foi a casa de Rembrandt por 20 anos. Já naquela época, valia muito, e Rembrandt despendeu grande soma em dinheiro para comprá-la. Como não era bom administrador de finanças como foi artista, morreu pobre. Devido a dívidas, leiloou a casa e tudo que existia dentro dela (MUSEU CASA, 2010).

Desde então, a casa passou por diversos donos e perdeu a característica da época que Rembrandt morava nela. Em 1910 o governo holandês a comprou e iniciou um lento e profundo processo de restauração interna e externa, além de uma política de compras das obras de Rembrandt que estavam espalhadas pelo mundo. Até alguns objetos exóticos que o artista colecionava foram readquiridos.

Hoje, o Museu Casa Rembrandt possui o maior acervo de gravuras do artista (250 das 290 existentes) e foi restaurada da forma mais próxima possível segundo a fachada externa, decoração, móveis e utensílios de uso pessoal do artista e seus familiares.


7. Conclusão


Para concluir, relembro a visão holandesa de seu meio, representada em suas expressões artísticas, é fruto de um olhar sereno, menos dramatizado e idealizador do mundo ou a respeito dos homens. A diversidade pouco incomodou os holandeses do séc XVII, acostumados a negociar e se relacionar com variadas culturas de diferentes procedências. Aliás, a sobrevivência e a prosperidade dos holandeses são atribuídas ao fato de que os Países Baixos acolhiam comerciantes e viajantes de toda parte. Adquiriram uma capacidade cosmopolita de viver e de aceitar costumes diferentes. Tornaram-se, portanto, amantes da liberdade e inimigos da opressão.

Sua religião austera, não suprimiu a totalidade de hábitos ancestrais. O holandês típico era extremamente religioso, moralista e valorizava a organização da vida doméstica e profissional, mas, por outro lado, praticava com deleite os excessos da bebida, a vida mundana e negócios arriscados, mas altamente lucrativos. Sociedade contraditória, sim. Mas qual não é?


8. Referências


GOMBRICH, Ernest. História da arte. São Paulo: Círculo do livro, 1972.

HUGUES, Robert. Goya. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

LEIDEN. Disponível em: themorgan.org. Acesso em 20 Abril 2012.

MUSEU Casa Rembrandt. Disponível em: rembrandthuis.nl/cms_pages/index_main.html. Acesso em: 19 jun. 2010.

REMBRANDT e a arte da gravura. Caderno de Arte-educação da exposição. Vitória: MAES, 2010.

SCHNEIDER, Norbert. Naturezas-mortas. Colônia: Taschen, 2009.

SLOOTEN, E O. Rembrandt e a arte da gravura. São Paulo: Editora Cultural Banco do Brasil, 2002.

VERMEER. Disponível em: louvre.fr/oeuvre-notices/la-dentelliere. Acesso em 21 Abril 2012.

WOLF, Norbert. Dürer. Colônia: Taschen, 2010.

ZUMTHOR, P. A Holanda no tempo de Rembrandt. São Paulo: Cia das Letras, 1989.


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

DANTAS, Bárbara. “Rembrandt e a Holanda do século XVII.” Trabalho apresentado na VIII Semana Acadêmica do curso de História da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). Vitória, 2012. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/rembrandt-e-a-holanda-do-s%C3%A9c-xvii

[1] Este trabalho foi apresentado na VIII Semana Acadêmica do curso de História da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) em 2012.


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Bárbara

Dantas

Historiadora

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