(RESENHA) DURANT, Will. "Nossa herança clássica." Rio de Janeiro: Record, 1995, ISBN 85-01-28822-5

Atualizado: Ago 7

A História da Civilização, coleção escrita por Will e Ariel Durant na década de 30 do século XX, coaduna-se com a historiografia de seu tempo, de Marc Bloch (1886-1944) a Fernand Braudel (1902-1985). Na linha dos historiadores que se aventuraram na escrita de uma História Universal (p. 483), o casal Durant enfrentou com destreza a difícil tarefa de apresentar ao leitor distintos períodos históricos da forma mais completa possível, das artes à política, do cotidiano à filosofia. Este volume, Nossa Herança Clássica, da lavra de Will Durant (1885-1981), segundo volume de um total de 11, demonstra a minuciosa busca por distintas fontes primárias onde nada lhe passou desapercebido: a arqueologia mereceu destaque, bem como objetos cotidianos e descrições de obras de arte perdidas.


A generosidade e cuidado com os temas é visível no registro de trabalhos de colegas de profissão, especialistas em diferentes áreas afins com a História. À imensidão de fontes primárias e secundárias citadas, com rara maestria, tornou-as inteligíveis. Por meio de recortes cronológicos e temáticos, agrupou o que estava disperso e traduziu em uma fórmula simples o que era complexo.


Talvez inspirado pelos historiadores gregos, este volume oferece uma narrativa tão leve e clara que mais parece um diálogo face to face com o dr. Durant do que a leitura de seu livro. O que nos remete a Plutarco (46-120 d.C.), historiador grego dos tempos em que Roma imperava, ao se referir à Tucídides (460-400 a. C.), historiador da Grécia Clássica:


[…] o historiador é aquele que faz a sua narração descrevendo os sentimentos e delineando o caráter dos personagens como se se tratasse de uma pintura. Assim, com sua prosa, Tucídides se esforça sempre para obter essa eficácia expressiva, desejando ardentemente fazer do ouvinte um espectador e de tornar vivos para quem os lê os fatos emocionantes e perturbadores dos quais eram testemunhas oculares.[1]


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Durant foi um historiador que amava a geografia e o seu produto, a cartografia. Em seus livros, antes ou no meio da narrativa, não deixou de localizar o tema ou o contexto no mapa imaginário que suas palavras ajudam a desenhar. E, de fato, esta é a melhor forma de apreender o universo grego da Antiguidade: “Nós o tomaremos pelo agradável método da tournée: com um mapa aberto diante de nós; e sem despender mais do que um pouco de imaginação iremos examinando cidade por cidade do mundo grego” (p. 58). A Grécia da Antiga não estava circunscrita a um centro e suas periferias, haja vista que não existiu unidade ou centro político fixos e constantes entre os seus numerosos estados, conhecidos pela historiografia como cidades-estados, urbes onde todos deviam falar a língua grega e cultuar os deuses gregos (p. 57).


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A noção de cidade-estado significa um conjunto de aglomerados urbanos ou campesinos reunidos – pela força da vontade ou da espada – em torno de uma cidade poderosa. Assim ocorreu com Atenas e Esparta: as regiões vizinhas que se uniram a Atenas aceitaram a submissão por interesses econômicos e estratégicos. Por sua vez, a escravização do povo da cidade de Helo, foi o início da expansão militar de Esparta aos seus arredores, e a gênese da escravidão dos hilotas (p. 60).


Por Grécia entende-se “todos os territórios ocupados na antiguidade por povos de idioma grego” (p. 55). Também conhecida como Hélade, foi o território dos helenos, aqueles que nós chamamos de gregos por causa dos romanos, como veremos adiante. Na “infância do mundo” (p. 23), entre os séculos XIV e XIII a.C., os aqueus se expandiram a partir da Tessália em direção ao sul, conquistando qualquer tribo que encontrassem pela frente. Foi dessa forma que o grego, idioma dos aqueus, tornou-se a língua da futura Grécia (p. 31-32). Nos mitos que os gregos formularam para explicar suas origens, estava Hélen, fundador de “todas as tribos gregas, que por isso tomaram o nome de helênicas” (p. 33). Os gregos descendentes dos aqueus tomaram todo o Peloponeso e a Ática. Nesta, Crécrops, favorecido pela deusa Atena, fundou uma cidade que nomeou em honra à divindade que o auxiliou na difícil empreitada: chamou-a de Atenas.


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A Acrópole de Atenas, nos dias atuais, ainda se destaca na formação rochosa que encima. No auge da cidade-estado, no século V a.C., era o coração da poderosa urbe.


Em que consistiu a Civilização Grega, Atenas e Esparta? Não, absolutamente.


Apesar de Platão (428-348 a. C.) e Sócrates (469-399 a. C.) serem crias de Atenas e o rei-herói Leônidas (540-480 a. C.) de Esparta, outras regiões foram fundamentais para a formação da cultura grega, em especial, suas ilhas.


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A transparência e os tons de azul de uma praia de Cós, ilha do Mar Egeu onde nasceu Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da medicina.


No azul ora turquesa, ora celeste do Mar Egeu se formaram varios arquipélagos, dentre eles, as Cíclades: 220 ilhas que rodeiam outra famosa ilha, Delos. Já as Espórades formam um arquipélago perto de Rodes, ilha na qual o mitologia que a envolve é tão antiga quanto a cultura pré-histórica que povoou a ilha. Para Durant, Rodes foi o efêmero e raro centro a partir do qual, no século III a.C., “todo o mundo grego pensou e agiu como um só corpo” (p. 450).


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Entrada do antigo porto, onde se situava o Colosso de Rodes, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.


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Reconstituição computadorizada que sugere como era o Colosso de Rodes.


Mas existem outros arquipélagos: As ilhas Sarônicas e as Jônicas, o Dodecaneso, além das ilhas mais solitárias, como Lesbos, lar da poetisa Safo (630-604 a.C.). Seus poemas são tesouros antigos em homenagem ao amor. Assumidamente atraída por mulheres, (p. 121), Safo é o motivo pelo qual a ilha de Lesbos se tornou a fonte histórica para o nome das mulheres que preferem mulheres: as lésbicas.


As formações insulares da Grécia totalizam quase mil ilhas. Porém, apenas cerca de 200 eram e ainda são habitáveis. Se recorrermos ao mapa imaginário de Durant, ou retornarmos à Imagem 1, encontraremos a Ilha de Creta, bem ao sul, a maior ilha da Grécia e berço da Civilização Egéia (p. 17). A partir de Creta, navegando para o norte até as terras continentais da Trácia – de onde os gregos trouxeram o culto das Musas (p. 57) – observaremos que as ilhas salpicam o mar com semi-submersas montanhas, em grande parte estéreis.


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Ilha de Creta hoje, no sul do Mar Egeu, berço das culturas Micênica e Minóica, anteriores e progenitoras da Civilização Grega.


“Solo pobre: dos 630.000 acres da Ática, um terço se compunha de terras impróprias para a cultura e o resto achava-se empobrecido pelo desflorestamento, pela escassez de chuvas e pela rapidez da erosão” (p. 210). A agricultura continental e insular foi pouco produtiva. Exceção feita às uvas e às oliveiras, base da alimentação grega, junto aos cereais. Carne era um luxo para poucos e as verduras e peixes não eram apreciados. “Sem a importação de gêneros a Atenas de Péricles teria morrido de fome” (p. 211).


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Figura porta uma coroa de ramos. Fragmento de cratera grega de pinturas vermelhas, Náucratis - Ática, c. 425-400 a.C. British Museum. Internet: https://www.britishmuseum.org/collection/object/X_AshmLoan_51


A Cultura da oliva, matéria-prima do azeite, salvou a boa mesa e a economia dos gregos. O azeite grego de hoje começou naqueles tempos sua caminhada rumo ao sucesso, era o “mais precioso produto agrícola da Ática” (p. 211). À medida que a cultura da oliva se tornava importante, seu valor simbólico também aumentou. A ponto da mais desejada e honrosa premiação ao atleta olímpico ser portar uma coroa feita com ramos de oliveira ou de louros. Durant nos conta que nem a ameaça da imensa horda persa impediu a realização do jogos em 480 a.C.: “Céus! exclamou um dos persas, dirigindo-se a seu general, Que espécie de homens são estes contra os quais nos trouxestes para lutar? Homens que brigam entre si não por dinheiro, mas por honra!” (p. 170).


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Príncipe dos lírios. Afresco do Palácio de Cnossos - Creta, entre os séculos XIX a XVI a.C. Descoberto e restaurado por Sir Arthur Evans (1851-1941) por volta do ano 1900.


Em compensação, o solo e as montanhas insulares eram ricos depósitos de metais e de mármores multicoloridos, motivo para muitas disputas e para a criação de enormes fortunas, antes mesmo da Grécia existir quer como ideia, quer como território, ou seja, ainda sob a influência de Cnossos - Creta (p. 8). Esta antiga cidade foi escavada por arqueólogos no inicio do século XX. O que descobriram foi o palácio e seus esplêndidos afrescos com imagens da natureza exuberante daqueles tempos, de sangrentas touradas e de danças com animais tão perigosas quanto impressionantes, além de outras maravilhas da vida cretense de então (p. 10-11).


Mas, aquelas atividades extrativistas contra as florestas custou caro aos poucos lugares da Grécia que eram forrados com árvores e, consequentemente, às populações daquelas áreas. Uma de suas vítimas, foi Creta:


Não sabemos qual das inúmeras formas de decadência escolheu Creta; talvez todas. Suas florestas de cipreste e cedro, outrora famosas, desapareceram; hoje dois terços da ilha são formados de solo pedrento, incapaz de reter as chuvas do inverno (p. 17).


Séculos antes de Cristo, o homem já destruía de forma irreparável a natureza. A ilha de Chipre teve o mesmo fim, “suas florestas foram reduzidas a lenha” (p. 27). Os nativos da ilha derrubaram as matas para a madeira servir de combustível para os fornos que fundiam o cobre. Os fenícios também colaboraram com a devastação da ilha, suas famosas naus foram construídas com a madeira das florestas já escassas. Quando os gregos ali chegaram, terminaram o serviço, desmataram extensas áreas para o cultivo de alimentos (p. 107).


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“O eco das ruínas” (p. 9) na ilha de Chipre.


Mas, como a história não serve para nada,[1] a humanidade continuou a depredar o mundo, de região em região, de um continente a outro. Prova disso está em outra região, a Antiga Mesopotâmia. Haja vista que o Crescente Fértil, as terras banhadas pelos rios Tigre e Eufrates, região na qual floresceu uma civilização mais antiga que a grega, a Mesopotâmica, há muito tempo já tinha morrido de morte lenta.


Imagem 11

Busto de Aristóteles, cópia romana da obra de Lisipo, 330 a.C. Museu Nacional Romano.


Nos arquipélagos ou no continente, naquelas antigas e diminutas urbes, “cada uma dessas cidadezinhas era o centro do mundo” (p. 72). Centro ao qual se referiam em seus sobrenomes ao invés de individualizar-se pelo parentesco, ou seja, associavam o nome da pessoa ao local de seu nascimento (p. 225): Tales de Mileto (624-546 a. C.), Aristóteles de Estagira (385-322 a. C.), Arquimedes de Siracusa (288-212 a. C.) etc.


Lamentável, desabafa Durant, o fato de o que restou da Civilização Grega da Antiguidade sejam apenas os resquícios do que realmente foi produzido em diversos âmbitos do saber e das artes entre 2.350 e 146 a. C., da cultura egéia da ilha de Creta até a conquista da Grécia pelos romanos: “Temos de avaliar o todo pelos fragmentos de uma parte” (p. 343), esta parte nos chegou, quase toda, de Atenas. Da historiografia grega, por exemplo, Plutarco e Ateneu (170-223 d.C.) mencionam centenas de historiadores, mas Durant lembra: quase todos “foram soterrados pela avalancha do tempo” (p. 343).


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A Parisiense, fragmento de afresco do Palácio de Cnossos - Creta, c. 1350 a.C. Museu Arqueológico de Heraklion – Grécia.


Dos textos sobreviventes, os versos sobre pessoas comuns e heróis na Ilíada e na Odisséia atribuídas a Homero (século VIII a. C.): “Sabemos que a guerra é horrível e a Ilíada é bela. A arte pode emprestar beleza até mesmo ao terror” (p. 46); as descrições do mundo realizadas por Heródoto (485-425 a. C.): “Não descreve apenas reis e rainhas, mas homens de todos os tipos” (p. 339); As aventuras da Retirada dos Dez Mil de Xenofonte (430-355 a. C.) que, apesar de não ter confirmação histórica, mostra um estilo vivo, no qual “os traços dos personagens vibram de realismo” (p. 384).


Ademais, os horrores da guerra entre Esparta e Atenas, a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) narrados por Tucídides e a “impressionante neutralidade que lhe caracteriza a obra” (p. 340); as biografias ganharam espaço como gênero popular entre o público daqueles historiadores, “culminando nas primorosas mexericagens de Plutarco” (p. 384); além do registro da vida do emergente Império Romano realizado por Políbio (203-120 a. C.), “o historiador dos historiadores” (p. 482).


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Zeus e Niké em uma batalha. Ânfora Ática com figuras vermelhas, c. século V e VI a.C. Museu do Louvre. Internet: https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/amphore-col-attique-figures-rouges


Durant não poupou elogios a todos, considera-os marcos a partir dos quais a História se afastou das tediosas listas cronológicas de governantes – como aquelas dos faraós do Egito Antigo – e se transformou em narrativas plenas de vivacidade. Todavia, o relato de Durant a respeito da batalha dos espartanos contra o exército de Xerxes (519-465 a.C.) nas Termópilas é o ápice de sua narrativa, emoção que aflora, talvez, porque a história daqueles guerreiros nos alcançou sem perder seu vigor.


Resistir parecia loucura; a população das cidades gregas, reunida, não chegava a perfazer um décimo do exército de Xerxes. Atenas lançou uma esquadra rumo ao norte na direção da armada persa e Esparta enviou uma pequena força, chefiada pelo rei Leônidas, para impedir por algum tempo o avanço de Xerxes nas Termópilas. A despeito da mais heroica resistência de toda a história, Leônidas fora vencido não tanto pela bravura dos persas como pela traição dos helênicos. Dos dois espartanos sobreviventes, um tombou em Platéia; o outro enforcou-se de vergonha. Os historiadores gregos nos asseguram que os persas perderam 20.000 homens, e os espartanos, 300 (p. 188).


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As volutas dos capitéis que encimam as colunas jônicas são fragmentos gregos, “cuja história nos atinge” (p. 57).


Por outro lado, Durant afirma ser notável como apenas os fragmentos desta civilização tão longínqua no espaço-tempo se tornaram o ponto a partir do qual a cultura da Europa Ocidental se formou. E como, sobretudo, os ensinamentos da Grécia Antiga, no correr dos tempos, milênios depois, continuam como referências fundamentais no que tange ao pensamento e às práticas humanas: “Neste momento, milhares de espíritos inquietos estão a ler Platão, talvez em cada país da Terra” (p. 525).


Para enfatizar essa visão, Durant recorre à sua erudição, um impressionante saber histórico, filosófico e artístico que coloca o leitor desavisado em apuros e envergonha o historiador preguiçoso. No decorrer deste livro, Durant faz recorrentes analogias entre a cultura grega da Antiguidade e a cultura da Europa da Modernidade. Da filosofia à arte, revela como uma extensa linha histórica une estas duas temporalidades. Ao que chamou de “estranha contemporaneidade de modos antigos e modernos” (p. 25), citou um extrato da poesia produzida em Esparta – aos quais observa que “por estes poetas podemos verificar que os espartanos nem sempre eram espartanos” (p. 62):


Dormem os picos e as cavernas, as encostas e as ravinas das montanhas; os seres rastejantes que saem da terra escura, as feras que habitam as lombas dos morros, as abelhas, os monstros das purpúreas profundezas do mar; tudo dorme – e com eles dormem as aves (p. 62).


Logo em seguida cita um trecho da poesia de Goethe (1749-1832), “O canto noturno do caminhante”, para demonstrar a semelhança entre eles:


Sobre os picos dos montes

Tudo está agora calmo,

No alto de todas as árvores

Mal consegue ouvir

O mais leve sopro;

Dormem os pássaros no arvoredo.

Espera; breve, como eles,

Descansarás também (p. 62).


Imagem 15

Miquerinos e a Rainha, de Gizé. c. 2470 a.C. Xisto. Museum of Fine Arts - Boston.


Humildemente, os gregos consideravam a cultura egípcia mais antiga e, por isso, soberana. Desse modo, muito da herança egípcia estava presente entre a cultura grega, visto que, desde os séculos VII e VI a.C., os portos egípcios estavam abertos aos barcos gregos que chegavam ao norte da África. Muitos gregos famosos visitam o Egito, entre eles, Tales de Mileto. Durant nos revela que os egípcios riam-se dos gregos, consideravam-nos “crianças fúteis” (p. 55). Entre as mais evidentes influências da cultura egípcia n agrega está a ideia de julgamento após a norte, a técnica para moldar o bronze e, claro, as estátuas. Comparemos o casal real da Imagem 15 e as figuras da Imagem 16. Além da postura hierática, da cintura delgada e dos braços que recaem naturalmente ao lado do corpo, é sugestiva a posição de um dos pés, à frente do outro.


Imagem 16

Kouros de Anavyssos, tamanho natural, c. 530 a.C. Museu Arqueológico de Atenas.


Nota-se que não há limites temporais para Durant, o que lhe importa é mostrar como o conhecimento e a arte, em alguns casos, senão na maioria das vezes, são apenas repetições, ou melhor, adaptações posteriores de algo que foi criado no passado. Quanto aos gregos e a modernidade, àqueles Durant assevera que criaram ou transmitiram aos pósteros quase tudo que se conhece, exceto a maquinaria e “as forças cegas da natureza” (p. VII/523), e quanto a estes, os modernos pensadores, adaptaram as ideias gregas às suas realidades e demandas, criando novos saberes, claro, mas a partir de conhecimentos que lhes eram anteriores e antiquíssimos.


As palavras de Giorgio Vasari (1511-1574) escritor da Renascença Italiana, fundamentam a opinião de Durant: “Mas, assim como nada se diz que não tenha sido dito, talvez nada haja que não tenha havido”.[2] Sem medo do anacronismo, Durant faz deste um “instrumento de sua profissão”,[3] tal como ocorre enquanto nos descreve algumas obras de arte da Civilização de Creta, berço da Grécia Clássica: 2.500 antes de Cristo, afrescos recobriam as frias e escuras paredes dos palácios com “campos ensolarados […] diante dessas pinturas ninguém sustentará que a natureza tenha sido uma descoberta de Rousseau” (p. 14).


Imagem 17

Afrescos do Palácio de Cnossos.


No Prefácio, Durant alerta o leitor a respeito de que se trata o livro: “Não há nada na civilização grega que não ilumine a nossa” (p. VII). Ao final da leitura, vê-se que o autor prova sua hipótese. E vai além: se a Grécia Antiga nos ensinou o que é a democracia, também nos ensinou os defeitos desta forma de governo. Aliás, quase tudo que se conhece a respeito da administração de Estados por meio de regimes políticos (a ditadura, a tirania, a monarquia e a democracia) foram experimentadas em menor medida, e no decorrer de séculos, pelo gregos da Antiguidade.


Para além da homegeneidade fundamentada em uma língua comum, as cidades-estados gregas eram unidas culturalmente, embora separadas em regimes políticos próprios aos seus microestados. Entre acertos e erros, os governantes das cidades-estados gregas nos ensinaram que grande parte dos regimes políticos têm suas vantagens e desvantagens. A democracia grega favoreceu o facciosismo político e “contentou-se com os escravos” (p. 497), mas nos transmitiu as ideias de governo responsável e de julgamento pelo júri (p. 523-524). No século IV, as ditaduras já tinham ensinado ensinando aos gregos o valor da liberdade e estavam prontos para a “realização do governo representativo” (p. 183), regime de governo sem precedentes.


A ditadura pode instituir a ordem, porém, pratica o morticínio da oposição - exceção feita a Hierão II, ditador de Siracusa no século IV a. C. que “governou durante 54 anos, diz Políbio, embasbacado, sem matar, exilar ou maltratar um único cidadão, o que torna o fato assombroso” ( p. 471).


Quanto à oligarquia, a mais famosa é a de Esparta e, para Durant, é um tipo de governo liderado por uma classe preparada para exercer funções governativas, porém, é responsável pelo fosso que separa os oligarcas – esta diminuta classe portadora de direitos políticos – do povo – a imensa maioria da população. Na medida que a riqueza da oligarquia política aumenta, a pobreza popular também cresce, e o fosso se aprofunda e cresce em diâmetro.


Imagem 18

Guerreiro hoplita, escultura em mármore, século V a.C. Museu Arqueológico de Esparta.


Esparta, “a esparsa”, junção de 5 cidades onde viviam aproximadamente 7.000 habitantes. Os lacedemônios – como se autonomeavam – eram senhores do Peloponeso, península protegida por altas montanhas escarpadas, assombrosas para os viajantes que ousavam percorrê-las. Estes montes elevados resguardaram Esparta de tal forma que não precisou de muralhas e cultivou, ao mesmo tempo, uma severa aversão aos estrangeiros e ignoravam o que acontecia fora da Lacedemônia (p. 70). Durant afirmou ser impressionante a falta de hospitalidade dos espartanos e a necessidade de autorização do governo para sair da cidade (p. 69).


Platão e Plutarco foram intrépidos viajantes que chegaram à Lacedemônia. De lá voltaram preconizando o admirável regime político, os espartanos consideravam a democracia como berço do caos e da vulgaridade; a sóbria sociedade, na qual todos compartilhavam diariamente, sem distinção ou exceção, uma frugal refeição pública vestidos com as mesmas túnicas simples; e, claro, não pouparam elogios aos espartanos e espartanas: aos primeiros, consideraram os mais fortes e belos gregos entre todos, quanto às mulheres, as mais sadias e encantadoras de toda a Grécia (p. 66).


Durant não perdeu a oportunidade de se contrapor ao que chamou de “Uma Apreciação de Esparta”, da qual nem Xenofonte escapou: “Podiam elogiar Esparta, já que não eram obrigados a viver lá. Não podiam sentir de perto o egoísmo, a indiferença e a crueldade do caráter espartano” (p. 70). Outrora, Esparta “dominou e arruinou a Grécia”; hoje, não é mais que uma pequena aldeia (p. 59).


Para Durant,