(RESENHA) DURANT, Will. "Nossa herança oriental." Rio de Janeiro: Record, 1995, ISBN 85-01-28821-7.

Atualizado: 1 de Dez de 2020

Nada envergonha mais o moderno estudioso do que o inadequado conhecimento que possui da Índia […] a Índia que os pacientes estudiosos de hoje estão revelando para a mentalidade do Ocidente, até bem pouco tempo certa de que a civilização era uma coisa exclusivamente da Europa (p. 263).


Quem de nós não vestirá esta carapuça?


Bem, ademais deste sutil “puxão de orelhas” inicial, que notemos nossa ignorancia a respeito desta e de outras civilizações presentes no livro e possamos, com humilde, “escutar” o que o historiador tinha a nos dizer. Para isso, apresentar-lhes-ei minhas impressões acerca desta obra, Nossa herança oriental, publicada no Brasil pela primeira vez em 1963, com seguidas reimpressões – utilizei a 4ª -, mas pouco valorizada e quase não utilizada em nosso meio acadêmico.


O primeiro volume da coleção A História da Civilização exigiu dedicação exclusiva de WILL DURANT e sua esposa entre os anos de 1927 e 1933, além de uma agradável volta ao mundo para realizar suas pesquisas in loco. Inimaginável para nós - contemporâneos que somos da revolução tecnológica proporcionada pelo computador doméstico - toda a escrita do livro foi manuscrita e, por fim, entregue a especialistas para a revisão que durou todo o ano de 1934. Colegas pesquisadores de Harvard, do Museu de Belas-Artes de Boston e da Universidade de Washington revisaram o texto e as citações de obras artísticas e textuais para, enfim, deixar o livro pronto ser publicado, o que se deu no ano de 1935.


Apesar do leitor se sentir encantado durante e ao final da leitura deste longo livro, o seu Prefácio não é nada mais que um ininterrupto pedido de desculpas e de justificativas. Entre elas, o autor aceita o grau de “absurdo de tal empresa e o quanto de imodéstia que representa o simples fato de concebê-la” (p. VII). Mas não nos deixemos levar por essas palavras que revelam mais sabedoria que imodéstia. Se o propósito de DURANT para a escrita e publicação de uma “História Universal” foi absurdo ou não, neste caso, o resultado foi excelente. Para embasar com fontes primárias, não apenas suas análises históricas, mas suas quimeras, citou as seguintes palavras do historiador chinês Tai T’ung que, no século XIII, decidiu-se por escrever uma igualmente hercúlea História da Escrita Chinesa: “Se eu esperasse a perfeição, este livro não seria terminado nunca” (p. VIII).


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Alquebrados que somos pelo conhecimento de uma história que começa com o advento da escrita e desconhece - quase que completamente - os grandes feitos das sociedades que viveram durante o Paleolítico e o Neolítico, temos a oportunidade de nos aprofundar um pouco mais nesse sentido de forma deveras agradável. O livro de DURANT começa com um extenso capítulo introdutório, “Como se criou a civilização”, no qual mostra as principais condições para a criação e desenvolvimento da da sociedade humana.


Dentre estas condições há uma que subjaz silenciosa bem abaixo de nós e que nos acompanha desde tempos imemoriais. Só sentimos a presença dela quando, vez ou outra, o nosso planeta se cansa da morosidade das eras geológicas e investe sobre a superfície da Terra os eventos cataclísmicos que só a natureza sabe produzir. DURANT nos lembrou que “o demônio do terremoto, com cuja licença construímos nossas cidades, pode sacudir seus ombros e destruir-nos com a maior indiferença” (p. 1).


Enquanto a vida humana e o produto de ininterruptas civilizações insistem em existir sob a sombra de vulcões que podem explodir e à margem de rios e mares que inflam em enchentes e tsunamis devastadoras, a humanidade saiu da condição de animal irracional para a de seres que criam cultura e a perpetuam por meio da educação, das artes e das construções. Porque, para DURANT, a única coisa que nos difere dos outros tantos animais que vagueiam pela superfície terrestre é a produção de cultura, de memória e de educação.


A história do homem começou cerca de um milhão de anos atrás. Segundo nos conta a Arqueologia e a Paleontologia, talvez a mais antiga prova da presença do ser humano no mundo seja o “crânio de Pequim” (c. 1.000.000 anos), encontrado em 1929 junto a restos de animais, vestígios de fogo e de lascas de pedra. Em 1911, foram encontrados na Inglaterra fóssil humano, fogo e pedras lascadas, com idade entre um milhão e 125 mil anos. Ademais, a mais famosa descoberta foi realizada em Neanderthal - Alemanha. No ano de 1857, pesquisadores descobriram fósseis similares a outros desenterrados na Bélgica, França e Espanha, bem como nas praias da Galiléia. Com cerca de 40.000 anos de idade, estes fósseis indicaram uma extensa área territorial da Europa e imediações ocupada por agrupamentos humanos caracterizados, oportunamente, como o “homem de Neanderthal” que viveram na “Idade da Pedra Lascada” também conhecida como Era Paleolítica.


Aqueles grupos de bravos caçadores exploraram todas as partes do mundo e, no decorrer de milhares de anos, percorreram e ocuparam todos os continentes. DURANT aproveitou o ensejo e lembrou aos nacionalistas e eugenistas de plantão naquela tensa década de 1930 de que, naquelas eras primitivas, “o Continente Negro encontrava-se no mesmo grau de desenvolvimento do europeu” (p. 66). Como grande parte dos vestígios arqueológicos com cerca de 20.000 anos foram encontrados em cavernas, aos homens do Paleolítico se costuma associar a ideia de “homens das cavernas”. Foram nessas cavidades profundas, por vezes subterrâneas, que “o homem do Cro-Magnon” registrou suas impressões do mundo por meio da pintura, o que conhecemos como a arte pré-histórica.


IMAGEM 1: Caverna de Lascaux - França, descoberta em 1940 por um grupo de amigos.

As pinturas foram feitas há cerca de 16.000 anos.


Aparentemente, as artes já estavam bem desenvolvidas e eram largamente praticadas há 18.000 anos atrás. Talvez houvesse uma classe de artistas profissionais entre os paleolíticos; talvez houvesse boêmios famintos, abrigados nas cavernas menos respeitáveis, que denunciavam o burguês dos tempos, conspiravam contra as academias e falsificavam antiguidades (p. 68-69).


Da Pedra Lascada à Pedra Polida (entre 10.000 e 5.000 anos a.C.), uma nova leva de milhares de anos. Reunidos desde sempre em grupos para sobreviver a um mundo ainda submetido a mutações geológicas e climáticas, sob a constante ameaça das feras devoradoras de homens e da fome, alguns grupos de homens pré-históricos deram seu jeito: decidiram se estabelecer em locais fixos e apostar tudo em um novo meio de subsistência, a agricultura: “no sentido exclusivamente humano, a História gira em torno de duas revoluções: a neolítica (passagem da caça para a agricultura) e a moderna (passagem da agricultura para a indústria)” (p. 70). Este movimento foi acompanhado da domesticação e criação de animais, da invenção da roda e da tecelagem. Uma rude produção de cerâmicas foi acompanhada de meios de transportes e de uma arquitetura que já mostrava qual era seu propósito ao redor do mundo.


Parece que tudo estava pronto para o homem, enfim, dominar o mundo e todos os outros seres viventes. Dominar as montanhas, rios e mares. Expandir-se por todo o globo em barcos, cavalgando equinos domesticados, acompanhados de dóceis cães, comendo carne bovina e suína e enganando a fome com cereais: “Logo que o homem encontrasse os meios de fixar na matéria o pensamento, a fim de transmiti-lo através das gerações, a civilização começaria” (p. 72). A História estava próxima e, com ela, a escrita e o metal, a divisão social e econômica, a política e o Estado. Arte, espiritualidade, bravura e engenhosidade aqueles homens já tinham de sobra.


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Pura “ingenuidade” (p. VIII), escreveu DURANT, mostra o historiador que começa uma História da Civilização com a Grécia ou que, ao incluir os avanços humanos do Oriente, reduz-o a poucas linhas ou a apenas um capítulo genérico demais para ser convincente. Para o autor, nossas raízes são greco-romanas, de fato, mas estas mesmas raízes foram adaptações de saberes que se originaram bem além da Ática ou da Península Itálica. Grandes - senão os maiores - desenvolvimentos intelectuais e técnicos da humanidade ocorreram antes ou em simultaneidade com os avanços dos gregos e, depois, dos romanos.


Se um livro pode se tornar uma “máquina do tempo”, ajustaremos nossas percepções para voltarmos uns 4 mil antes de Cristo. Mas, desta vez, viraremos as costas à Europa. Atravessaremos o Mar Mediterrâneo rumo ao Sul para chegar ao Delta do Rio Nilo, no Egito, localizado no norte da África; percorreremos algumas centenas de quilômetros rumo ao leste e adentraremos as terras do que a historiografia brasileira conhece como as Civilizações do Crescente-Fértil (Suméria, Babilônia, Assíria), no Oriente Próximo; Volveremos nosso percurso novamente para o norte e chegaremos à enigmática Pérsia, na Ásia. Após uma pausa para descansar de uma viagem tão longa, desceremos um pouco e seguiremos rumo ao Extremo Oriente para encontrarmos as outroras imensas Índia e a China.


Estas civilizações, séculos antes das inovações dos gregos e sequer do surgimento do poderio imperialista romano, já viviam sobre intricadas formas de governos teocráticos ou autárquicos, engalfinhavam-se para vender seus produtos artesanais em concorridas rotas comerciais por mar e por terra, exploravam toda espécie de minerais e produziam importantes obras literárias, legais e artísticas, além de nos presentear com valorosa herança científica.


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Nesse meio tempo, a Judeia nos encantará. Não apenas por lá ter nascido nosso ideal religioso mais rico, ou pelo relato carregado de respeito e sentimentalidade proporcionado por DURANT, mas por redescobrirmos a corajosa aventura dos primeiros grupos de maltrapilhos e famintos judeus que, em meio a um ambiente adverso e a civilizações militarizadas e dominadoras, conseguiu manter uma história que hoje já atingiu 4 mil anos: “quanto mais os atormentavam mais eles se reproduziam” (p. 203), o autor nos recorda o Êxodo bíblico.


Ao se revolver entre “as mais profundas dúvidas que já surgiram na alma humana” (p. 235), a religião advinda da Lei Mosaica, em particular, e da Torá, em geral, conseguiu suspender a religiosidade e a alteridade humana a um nível não alcançado por nenhuma outra cultura da Antiguidade e da posteridade: “Um admirável preceito; se os homens o seguissem, metade dos horrores do mundo desapareceria” (p. 228). As antigas civilizações disputavam entre si quem praticava com maior intensidade a opressão dos desvalidos e o abandono dos mais fracos à própria sorte. Ainda estamos imersos em tal opressão e abandono, mas lá está a religião nascida daqueles bravos judeus, reestruturada e disseminada por Cristo, a nos guiar nessa difícil empreitada que é a vida.


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Ao Japão, DURANT reservou o último capítulo do livro, 71 de 727 páginas. Não por acaso. Parece que, mesmo nos anos 30 do século XX, os historiadores de culturas extintas ou muito antigas precisavam justificar suas pesquisas segundo uma “utilidade” para questões do presente. O que é uma impropriedade, na minha opinião, mas se necessário for, a excelência do historiador/pensador aflorará e levantará questões do presente em estudos que remontam a séculos atrás. Exatamente o que o autor fez ao analisar a história das civilizações chinesa, indiana e, sobretudo, japonesa. Aqui e ali, deu suas alfinetadas, como esta:


A História moderna não nos mostra fenômeno mais espantoso do que a maneira pela qual o sonolento Japão de tantos séculos acordou ao som dos tiros de canhão do Ocidente, atirou-se ao estudo, criou a instrução, aceitou a ciência, a indústria e a guerra, derrotou todos os competidores do campo comercial e tornou-se, em duas gerações, a nação mais agressiva do mundo moderno (p. 614).


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DURANT, no fim de seu livro, estabeleceu oito elementos sobre os quais a civilização é possível: 1. Trabalho; 2. Governo; 3. Moralidade; 4. Religião; 5. Ciência; 6. Filosofia; 7. Literatura; 8. Arte.


Nota-se que foi sobre essa sistemática que o autor organizou sua narrativa, bem como as milhares de citações, transcrições e descrições de fontes da História do Oriente. Por isso, peço permissão para utilizar a mesma sistematização para lhes apresentar os trechos que se tornaram mais significativos após a minha leitura deste livro. Se algo, porventura, perdeu-se nos arquivos ocultos da minha memória ou sob os necessários recortes e escolhas que um historiador precisa fazer, peço, desde já, perdão. Que esses “silêncios” os incitem a ler a obra e descobrir o que não pude aqui revelar.


1. TRABALHO


SUMÉRIA: A Suméria está tão distante de nós que nem lhe damos a devida atenção ou sequer os devidos créditos, reclamou DURANT. 4.000 anos antes do nascimento de Jesus Cristo, aquele povo já dominava a agricultura e irrigava os campos por meios de canais que desviavam os cursos dos rios Tigre e Eufrates. Apesar do metal ainda ser raro entre os sumérios, o arado já colaborava com o labor rural. Uma produção excedente de culturas possibilitou o comércio de gêneros alimentícios e foi a mola propulsora para a fabricação de cerâmicas e tecidos que viajavam longas distâncias para suprir os crescentes desejos das elites ávidas por ítens manufaturados, comida farta e luxo.


Por terra, mas sobretudo, navegando pelos dois rios, as viagens de pessoas e mercadorias eram intensas e o regime econômico era na base da troca, com contratos e sistema de créditos: “Inúmeras tabuinhas trouxeram até nós fragmentos da escrita comercial da época, revelando a intensidade da vida” (p. 87). A estratificação social se fez presente com um fundo econômico e laboral. Escravos, pobres e ricos se acotovelavam naquelas primitivas zonas comerciais e rurais da Suméria.


EGITO: “O por-do-sol em Gizé é maior do que as Pirâmides” (p. 98). Ao contrário do que se costuma pensar, os maiores feits da Civilização Egípcia não foram as pirâmides ou os templos, foi a agricultura. A sociedade egípcia aprendeu a usar cada detalhe da fauna e da flora local a seu favor, pois viviam sob constante ameaça do deserto que os poderia engolir quando bem quisesse. Nesse sentido, DURANT nos lembrou “que coisa precariamente estreita é esse Egito que deve tudo ao Nilo e que de todos os lados as areias esvoaçantes acossam” (p. 96). Depois de invadir os campos marginais nas cheias, ao retomar seu curso vazante, o Nilo presentava as populações ribeirinhas com milhões de peixes que ficavam presos nas poças naturais enquanto macacos colhiam as frutas das árvores para aqueles que os ensinaram tal artimanha. Ao utilizar a natureza para seus próprios fins, o operariado era livre e os escravos abundavam.


O autor nos recorda que Heródoto (485-425 a.C.), o célebre historiador grego, esteve no Egito em 450 a.C. e nos contou muito do que lá viu:


Eles extraem os frutos da terra com menos labor do que qualquer outro povo... porque estão livres do trabalho de desatar a terra com o arado, ou com a enxada, ou qualquer outro processo que o homem empregue para obter colheitas de cereais; quando o rio entende de irrigar os campos e depois retira as águas, cada homem semeia seu lote e lança os porcos; depois que as sementes estão bem enterradas pelo patinhar dos porcos, eles os retiram e esperam pelo tempo da colheita.


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Desde o tempo do grego Megástenes, que a descreveu em 302 a.C., até o século XVIII, a Índia foi a maravilha e o mistério da Europa. Marco Polo (1254-1323) pintou vagamente parte da Índia Ocidental; Colombo, ao tentar alcançá-la, foi bater na América; Vasco da Gama deu à volta à África para redescobri-la; e os mercadores falavam gulosamente nas “riquezas da Índia” (p. 263).


ÍNDIA: Nenhuma das empreitadas acima seriam necessárias sem o labor enérgico dos indianos, 3.000 anos antes de Cristo já praticavam o comércio exterior. A Índia da Antiguidade era uma enorme massa territorial que abrangia os picos do Himalaia, passando pelas planícies úmidas às margens do Ganges, tomando para si parte do que é o Afeganistão de hoje até chegar ao deserto do Ceilão. Tal diversidade de clima e geografia propunha uma igual versatilidade para lidar com os trabalhos diários. Versatilidade e hombridade, o historiador que acompanhou Alexandre Magno (356-323 a. C.) à Índia nos conta que os indianos eram “notáveis pela integridade, a ponto de raro recorrerem à justiça, e tão honestos que não usavam fechaduras nas portas e não exigiam documentos escritos em seus contratos; eram da maior confiança” (p. 270).


DURANT revelou que o mais antigo carro de duas rodas descoberto é indiano, que havia uma Superintendência da Prostituição que zelava pelo bem estar das “mulheres públicas” (p. 299) e que há indícios de que foram eles os primeiros a minerar o ouro. A técnica de fundir e temperar o ferro em fornos acendidos por carvão de madeira só chegou à Europa no século XVIII, mas era usado na Índia desde a Antiguidade. Heródoto nos contou que os indianos usavam uma tal de “lã de algodão” para fazer roupas.


CHINA: “Toda a variada literatura dessa língua, todas as sutilezas do pensamento e todos os requintes da vida chinesa repousam, em última análise, na fertilidade dos campos, ou melhor, na labuta dos homens - porque os campos férteis não nascem, são feitos” (p. 521). A harmonia social era, por vezes, atormentada pelos criminosos, por isso, o chinês do campo nunca viveu isolado, sempre se reuniu em pequenas ou grandes aldeias. Aliás, nas grandes cidades da China, que ao tempo da visita de Marco Polo já somavam mais de 200, as familias abundavam e raros eram aqueles que viviam sós. Aquela vida comunitária de ajuda mútua possibilitou a produção de alimentos para a sempre imensa população chinesa, mas não impediu os anuais flagelos causados pela fome. As principais culturas se misturavam com as preferências nacionais: o peixe de mar ou rio, o arroz e o chá. O macarrão matava a fome quando os vegetais não abundavam e os chineses quase não davam atenção aos ovos e ao leite de vaca. Tradicionalmente, não havia fins de semana e férias, mas dias de festas, como as do Ano-Novo Chinês ou das Lanternas, momentos de confraternização social e de descanso laboral.


Era comum o transporte de pessoas e produtos pelos cules (criados alugados). Eles puxavam liteiras com abastados passageiros ou transportavam nas costas grandes fardos com de diferentes produtos. “Tão barato era o músculo humano, que não havia interesse em desenvolver o transporte por meio de animais ou dispositivos mecânicos” (p. 524). O meio fluvial era o favorito dos chineses, os Rios abundam naquelas terras e seus afluentes são igualmente navegáveis por milhares de quilômetros. Só depois da chegada dos ingleses é que a China (mais por imposição que por disposição) se tornou adepta das linhas férreas. Mas, em compensação, desde o ano de 807, a “moeda voadora” facilitava as transações comerciais chinesas. O papel-moeda era produzido a partir da casca da amoreira em um processo que a transformava em uma folha que era cortada em diversos quadrados. No comércio, tinha sua equivalência comparada ao valor do ouro.


JAPÃO: No Extremo Oriente, distante milhares de quilômetros do continente localizado à oeste, gigantescos movimentos de placas tectônicas fizeram a lava do interior do planeta fluir rápida e mortalmente para a superfície do planeta. Não foi uma, mais centenas de vezes e por milhares de anos. Quando o centro da Terra, enfim, acalmou um pouco e resolveu não se agitar demais, as lavas incandencentes esfriaram, as pedras se assentaram e a vida pôde iniciar sua trajetória. 4.223 ilhas foram criadas e formaram um arquipélago com apenas 5 ilhas grandes, o ambiente era hostil. Contudo, parece que esqueceram de avisar à humanidade que há ambientes impossíveis de se viver, e o Japão nasceu. Hoje, 600 ilhas são habitadas e DURANT concorda que ainda é difícil encontrar as origens históricas de povo tão destemido, dos primeiros homens que se aventuraram por aquelas paragens inóspitas, constantemente ameaçadas pela fúria de vulcões e do mar.


O japonês, até os dias atuais, é pouco afeito à reclamações, trabalha em silêncio e tem sempre um sorriso no rosto. Este japonês carrega séculos de uma genética que lutou contra os elementos, frutificou um solo quase infértil, abriu estradas em meio a montanhas de pedra, plantou arroz na água e tudo aproveitou nessa cultura, desde as fezes humanas e animais às águas da chuva: “a bravura que ainda dá ao japonês um poder acima de suas forças e riqueza” (p. 613). Como os chineses, o japonês não perde nada, não desperdiça coisa alguma. Para este povo, tudo tem uma utilidade. No japão, e também na China, famílias inteiras se sustentam com inimagináveis práticas laborais. “Gente marítima”, o mar e o arquipélago lhes protege de invasões e também lhe traz o sustento, pois o japonês aprendeu a usufruir de tudo que o mar lhe presenteia, das algas às baleias.


IMAGEM 2: Obra citada por DURANT. Katsushika Hokusai (1790-1849), The Great Wave off Kanagawa, primeira gravura da série 36 Views of Mount Fuji, publicada entre 1826 e 1833. Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.


2. GOVERNO


SUMÉRIA: DURANT chamou a Mesopotâmia de “Terra-Entre-os-Rios”. Por Mesopotâmia entendemos uma “cultura triangular” formada pela Suméria, Babilônia e Assíria - não necessariamente contemporâneas umas das outras. “A primitiva história da Mesopotâmia representa a luta entre povos não-semitas da Suméria para preservar a independência contra a expansão dos semitas” (p. 83). A Teocracia, fusão entre governo laico e religioso, dominou a Suméria durante toda a sua existência. O típico rei sumeriano, sobre seu carro puxado por valorosos cavalos, estava costumeiramente na linha de frente do exército a reivindicar facilidades comerciais ou domínios territoriais de seus vizinhos. Aquelas cidades que se engalfinhavam tanto no comércio como na guerra, por fim, sucumbiram à chegada de Assurbanipal (686-628 a.C.). A cidade de Susa sobreviveu às destrutivas práticas humanas e acumulou quase 6.000 anos de história passando para as mãos de diversos conquistadores. Ur, foi a maior e mais poderosa dentre todas as cidades sumerianas.


EGITO: No Egito Antigo, todas as terras e cidades eram propriedade do governante que portava a coroa dupla, pois era o faraó “do alto e do baixo Egito”. Há cerca de 6.000 anos, já existia ali um complexo regime de governo dividido em “nomos” (extensas e estreitas regiões que margeavam o Rio Nilo de norte a sul) regidos por “nomarcas” (os governantes locais). Aquele misto de governo centralizado na figura do faraó e descentralizado nos muitos e poderosos nomarcas, talvez tenha sido a chave para o sucesso da civilização que mais tempo durou na História do mundo. DURANT deixou transparecer certa perplexidade perante a enorme relação de nomes de faraós que governaram em nome de um número igualmente extenso de dinastias.


IMAGEM 3: Obra citada por Durant, detalhe da escultura de Akhenaton, c. 1550-1069 a.C. Louvre.


Tutancamon (faraó de 1336 a 1327 a.C.) é a figura mais famosa devido à riqueza encontrada junto a ele em seu túmulo, mas o autor TECEU diversos elogios a Akhenaton, “a primeira firme expressão do monoteísmo - 700 anos antes de Isaías” (p. 144), e à Hatshepsut, “primeira grande mulher e rainha da História” (p. 98).


IMAGEM 4: Obra citada por DURANT, Busto de Hatshepsut, c. 1479-1458 a.C.

Metropolitan Museum - Nova York.


ÍNDIA: Até o armagedon muçulmano do ano 1000, tudo corria bem na Índia. Uma classe abastada dominava milhões de almas pias e trabalhadoras, a terra frutificava, as monções e outras manifestações impiedosas da natureza eram previstas e seus estragos minimizados. Ouro e outras riquezas deram à Índia a reputação milenar de ser a terra mais próspera do mundo, sua cultura exótica se tornou tema para várias lendas. Das grandes civilizações da Antiguidade, DURANT deu destaque a duas que se perpetuaram com poucas mudanças significativas até nossos dias: a Índia e a China. Sua narrativa não se perdeu no passado, pelo contrário, para ambas, fez as devidas conexões entre o passado milenar até chegar ao contexto no qual escrevia o livro.


DURANT não se absteve de palavras para expor com qual voracidade destrutiva os discípulos de Maomé invadiram, pilharam e destruíram milênios de uma cultura que, para o autor, foi a mais nobre que o homem já produziu. “A conquista maometana da Índia é provavelmente a maior sangueira da História” (p. 309). Se antes, milhões de seres viviam em uma pobreza submissamente aceita pelo sistema de castas, após as brutalidades dos muçulmanos, os pacatos hindus aceitaram seu destino, uniram-se a um misticismo exacerbado e se entregaram à miséria e à exploração, primeiro dos muçulmanos, depois dos ingleses. Até que a serena voz de Ganghi exortou todos os bons cidadãos da Índia a, pacificamente, não mais obedecer aos desmandos da gente de fora.


Eis aqui o segredo da história política da Índia moderna. Enfraquecidos pela divisão, os hindus sucumbiram aos invasores; empobrecidos por estes, perderam a faculdade da resistência e refugiaram-se nas consolações sobrenaturais (p. 312).


CHINA: Ainda jovem, Confúcio (551-479 a.C.) já portava modos um tanto circunspectos, DURANT imaginou nele uma “apavorante seriedade de expressão que não sugere humor nem sensibilidade estética” (p. 445). Era comum vê-lo vagando pelas terras altas e baixas da China em sua inglória busca por um governo que lhe permitisse, efetivamente, colocar em prática suas ideias. Não deu certo, encontrou pelo caminho governantes mentirosos e rudes. Em sua Doutrina da Humildade ressaltou que “a administração do governo jaz em descobrir os homens competentes. Estes têm que ser descobertos por meio do caráter do governante” (p. 453). O mestre dizia que “se houvesse um príncipe que me empregasse, no curso de 12 meses eu teria feito algo considerável. Em três anos o governo estaria aperfeiçoado” (p. 446).


Confúncio, então, aceitou sua condição de professor e continuou a espalhar suas premissas por onde passava e por meio de seus já numerosos discípulos. Mas isso ocorreu durante sua vida. Após um breve interlúdio e a queima de muitos de seus livros a mando do primeiro imperador que unificou a China, Shih Huang-ti (259-210 a.C.), a filosofia confuciana triunfou, pois “tinha um cunho político e prático que a tornou querida dos chineses depois de sua morte” (p. 454). A Dinastia Tang elevou o confucionismo à luz que conduziu a China a séculos de harmoniosa vida comum e resistência moral frente aos invasores mongóis, na Idade Média, e ingleses, na modernidade. Como não podemos distinguir uma religiosidade essencialmente chinesa, temos na filosofia de Confúncio os princípios basilares que acompanharam a China por 2.000 anos com regras práticas e racionais, como a possibilidade de destituir um governante caso se mostrasse nocivo ao povo.


Tanto quanto DURANT, ficaremos intrigados com o meio de escolha dos funcionários que exerciam os mais altos cargos administrativos na China, prática que perdurou até o iniício do século XX. Pais abastados matriculavam seus filhos em escolas particulares ou lhes ofereciam um tutor doméstico para memorizarem os ditos de Confúcio, aprenderem os meandros da poesia, além da arte da caligrafia e da aquarela. A vara de bambu era o mais usual instrumento disciplinador. Na devida ocasião, após muitos anos de estudos intensos e já na idade adulta, o candidato se submetia à prova que durava dias. Em cada distrito ocorriam as preliminares que avaliavam a memorização das premissas confucianas, o conhecimento da História e da poesia chinesas, bem como seu nível de escrita. Ao candidato bem avaliado, dois caminhos: exercer um cargo local ou tentar os “Grandes Exames de Pequim” para cargos nacionais. Cada pretendente era colocado em uma fria, mal iluminada e rude cela por três dias, durante os quais deveria escrever um poema ou um ensaio filosófico sobre o assunto proposto, por exemplo: “O som dos remos e o verde das montanhas e da água” (p. 538). Notamos, portanto, um meio de contratar aquele que possuísse o caráter mais determinado na vontade e sutil nas palavras. Conhecimentos administrativos, econômicos e afins não estavam em pauta.


JAPÃO: DURANT separou a História do Japão em quatro fases: a primeira, o “Japão budista”, entre os anos de 522 e 1603, época na qual a China os presenteou não só com os ensinamentos de Buda, mas sobretudo, com a escrita chinesa, base sobre a qual os japoneses criaram sua própria língua. Em seguida, o “Japão do Xogunato Tokugawa”, 1603-1868. Foi nesse período que os samurais e as gueixas adquiriram tanta popularidade e importância que entraram para sempre no imaginário japonês e mundial. Desaparecerem devido aos canhões americanos que tornavam as espadas samurais inúteis - “de que iria valer a bravura do herói contra o anonimato das bombas?” (p. 614) - e aos valores ocidentais que rejeitavam a prática de uma prostituição institucionalizada, mesmo que nobre, praticada pelas gueixas.


IMAGEM 5: Obra citada por DURANT. Kano Motonobu (1476-1559), Conquista de Goblin Shuten-doji, 1522. Suntory Museum of Art, Tóquio - Japão.


A terceira fase transcorreu desde a chegada da esquadra americana, em 1853, até os dias nos quais o autor escrevia seu livro, entre 1927 e 1934. Por fim, de fato, impressionou-me como o autor denominou a fase seguinte: “o quarto ato será a guerra”, com o Japão “imitador dos métodos imperialistas do Ocidente e ameaçador da paz e da ascendência da raça branca no mundo” (p. 559). A feroz entrada e participação nipônica na Segunda Guerra Mundial confirma o prognóstico do visionário historiador. A propósito, nippon, autodesignação comum entre os japoneses, tem sua origem na palavra com a qual os chineses identificavam os japoneses, jihpen, que significa “o lugar de onde vem o sol” (p. 559).


3. MORALIDADE


SUMÉRIA: Adstrita à religião, a moralidade entre os Sumérios pode ser identificada pelo que sabemos de suas regras a respeito da mulher e do casamento. Um rol complicado e extenso de normas regia o matrimônio. Tudo, menos o amor, claro. O principal papel das “boas moças” era proporcionar ao marido muitos filhos. Em caso de esterilidade, o marido poderia dela se divorciar sem maiores delongas. Outra função da mulher era a de “servir ao Templo” como servas ou concubinas, prática que muito orgulho dava às famílias que comemoravam a realização com farto festejo e a entrega ritual do dote da filha aos sacerdotes. A desigualdade social e econômica já se fazia presente com toda força entre os sumérios: promovida pelos governos despóticos, imposta pelos militares, legitimada pelos sacerdotes, aceita com submissão pelas mulheres e com desesperança pelos escravos.


EGITO: Apesar da monogamia ter sido comum entre a população do Egito Antigo, tanto para a realeza quanto para as classes mais abastadas, o casamento entre irmãos foi tão longevo quanto os milênios sob as quais aquela civilização faraônica às margens do Nilo sobreviveu. DURANT fez sutis gracejos com a descoberta de que foi costume daqueles tempos o domínio da mulher sobre o homem em relação ao casamento. Cabia à mulher, inclusive, a iniciativa para o início do namoro, como nos mostra a carta de uma mulher endereçada ao seu pretendente: “Ó meu belo amigo, o meu desejo é tornar-me, como tua mulher, a dona de todas as tuas posses” (p. 115). Era em nome da esposa que ficavam as propriedades da família, que delas podia dispor como bem entendesse. Se aquela sociedade foi matriarcal demais para o nosso olhar hodierno, não acontecerá o mesmo ao lermos o trecho do texto, A Sabedoria de Amenemope, que o autor encontrou abrigado no Museu Britânico, parafraseou em seu livro e considerou bem próximo dos Provérbios de Salomão da Bíblia (p. 116):


Não te mostres cobiçoso de um cúbito de terra

E não invadas o terreno da viúva...

Ara o campo que baste às tuas necessidades

E obtém o teu pão pelo teu próprio trabalho.

Melhor um alqueire que Deus te dá

Do que cinco mil ganhos com transgressão...

Melhor pobreza na mão de Deus

Do que riquezas no armazém;

E melhor pão simples de coração alegre

Do que mundos na infelicidades.



ÍNDIA: A moralidade não foi o ponto forte dos indianos, apegados que estavam a regras um tanto cruéis aos olhos dos ocidentais. Gandhi, a maior voz tanto dos indianos quanto do Hinduísmo mais asceta, foi o primeiro a notar as mazelas causadas pela prática do casamento infantil e do sistema de castas. Ambos, em épocas já esquecidas pelo tempo e pela História, já serviram para reprimir os impulsos sexuais da juventude e para “domar” da forma mais eficaz que se conhece a ambição de grupos inteiros em prol dos ganhos de apenas um grupo, os Brâmanes. Mas não nos deixemos enganar pelos nossos ascos sociais, a violência nunca foi uma calamidade social na Índia como ocorre no Ocidente, exceção feita aos tempos de guerra. A maior catástrofe que se abate sobre o indiano comum é a fome, mas não era presente na Antiguidade, segundo o testemunho de Megástenes (350-290 a.C.): “diz-se que a fome jamais visitou a Índia, e que nunca houve escassez de alimentos” (p. 298). Mas, após a conquista dos muçulmanos, tudo mudou.


Gandhi viveu o mundo de lá e de cá: Índia, Inglaterra e África. Na Inglaterra, conheceu e se encantou com a Palavra de Cristo. Viveu alguns anos na África para ajudar os locais contra os regimes políticos racistas e segregadores. Ao retornar à Índia, em meio a uma crise sociopolítica de grandes proporções, entregou-se ao ascetismo budista. Uniu o povo para tentar tirar a Índia da opressão e da miséria na qual vivia naquelas primeiras décadas do século XX. DURANT, como homem do mundo e historiador com faro apurado, notou a importância daquela figura esquálida de olhos grandes e teceu muitos elogios às proposições daquele homem que gostava de permanecer preso, porque só assim conseguia ter o tempo e o ambiente necessários para fazer suas leituras.


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O corpo deste império subsistiu quatro mil anos sem ter sofrido nenhuma alteração sensível nas leis, nos costumes e na linguagem, ou mesmo no modo geral de se vestir... a organização desse império é na verdade a melhor que o mundo já conheceu.

Voltaire (p. 431)


CHINA: Parece que o segredo da longevidade do Confucionismo na China foi o valor e poder que deu à instituição da família. Foi para a família que os sucessivos imperadores entregaram as obrigações quanto à educação e à moralidade. “A sabedoria, portanto, começa em casa, e o fundamento da sociedade é o indivíduo disciplinado, dentro de uma família disciplinada”, dizia Confúcio (p. 451). Várias foram as passagens nas quais o mestre exaltou a família como a base de um governo estável por meio da moralidade e de uma sociedade feliz por meio do respeito mútuo e aos mais velhos. Faltavam ainda cinco séculos para o nascimento de Jesus, mas lá estava Confúcio a orientar seu pupilo para que “não faças aos outros o que não queres que te façam” (p. 452). Estes princípios morais reduziam as mulheres a uma servidão e submissão desalentadora e tornaram o chinês um povo pouco afeito ao progresso. Os ingleses impuseram novas perspectivas por meio do comércio do ópio, desanuviando as mentes mais hostis, e da guerra, humilhando os oponentes. A China se vingou com os próprios meios sofisticados dos ingleses: com as estradas de ferro e as universidades, mas sobretudo, com a indústria e o comércio internacional.


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JAPÃO: o orgulho é o maior pecado do japonês, mas também sua melhor virtude. Seu orgulho lhe permite realizar feitos estupendos com suas próprias mãos e mente; também lhe permite amar fervorosamente seu país e suas tradições. O japonês considera a natureza sublime e acompanha as mudanças das Estações do Ano com a empolgação de uma criança à espera de seu novo brinquedo. “Japão, país que se entregou mais à procura da beleza que da verdade” (p. 613). A Primavera sempre foi a mais celebrada das estações. Como o japonês ama as suas flores! DURANT extasiou-se ao narrar as diferentes manifestações de apreço do japonês pelas árvores, pelas folhas e, sobretudo, pelas flores. Que palavras podem exprimir o orgulho que os habitantes do Japão sentem quando suas cerejeiras se enchem com tão grande quantidade de flores que milhares caem e cobrem todo o chão ao redor? A vida se enche de cor nessa época.


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Cerejeira de flores rosas, ao fundo, o Monte Fuji - Japão.


A natureza tem um simbolismo muito forte para o japonês, nela está a metáfora da vida com suas diferentes estações. O Outono é igualmente celebrado, visto que é encarado como um período de renovação espiritual. É Nessa estação que as folhas caem, as cores se tornam pastéis, sem brilho, os ventos se enregelam e as pessoas se verão com menor frequencia. Em oposição à uma individualidade típica do japonês, o orgulho nacional faz qualquer indivíduo largar imediatamente seus afazeres para lutar ou oferecer seus serviços laborais em prol da unidade nacional, contra invasores ou para desenvolver a nação.


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Obra citada por DURANT: “em 1900, este biombo foi escolhido pelo governo japonês para ser exposto em Paris” (p. 610). Iwasa Matabei, biombo de bambu, 1637.

Moa Museum of Art - Japão.


No inverno, não só o Monte Fuji e outras montanhas que sombreiam o Japão se cobrem de neve, um manto branco cobre tudo o que se pode ver. É nessa estação que os japoneses mais humildes tirintam de frio e tentam se aquecer nas noites geladas com várias camadas de roupas. Como calafetar residências tão frágeis e que permitem a entrada dos ventos invernais? O medo dos tremores de terra, sempre atormentaram os japoneses e, por isso, não se viam altas construções ali até chegar o século XX e a tecnologia anti-terremotos. Casas e palácios de um ou dois pavimentos, no máximo, era o mais corriqueiro. No interior destas construções, o costume mais difundido era separar os cômodos por meio de biombos ou por paredes de bambu, madeira, papel ou seda.


4. RELIGIÃO


SUMÉRIA: A Suméria era formada por várias cidades que se consideravam autônomas. O autor nos conta que os líderes militares daquelas primitivas urbes eram estreitamente associados ao sacerdotes e seus respectivos culto aos deuses, pois os seres divinos eram os únicos capazes de proteger os homens com anjos contra os dêmonios. Por isso, a quantidade de deuses sumérios era tão grande quanto a de outras civilizações da Antiguidade: cada cidade tinha um Deus que lhe protegia e exigia grandes riquezas e ritos em troca. DURANT nos faz viajar no tempo e sentir a aura daqueles longínquos dias: “O ar vivia saturado de espíritos, anjos protetores de cada sumeriano e demônios que procuravam sobrepujar os anjos e se apoderar do corpo e da alma da criaturas” (p. 89). O sumeriano comum não rezava por benesses no além-túmulo, suas orações pediam graças ainda em vida.


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EGITO: O céu (deusa Hator), o sol (Ra ou Amon) e o Nilo permaneceram, até o fim, como as principais materializações das mais importantes divindades do Egito