(RESENHA) DURANT, Will. "Nossa herança oriental." Rio de Janeiro: Record, 1995, ISBN 85-01-28821-7.

Atualizado: Ago 4

Nada envergonha mais o moderno estudioso do que o inadequado conhecimento que possui da Índia […] a Índia que os pacientes estudiosos de hoje estão revelando para a mentalidade do Ocidente, até bem pouco tempo certa de que a civilização era uma coisa exclusivamente da Europa (p. 263).


Quem de nós não vestirá esta carapuça?


Bem, ademais deste sutil “puxão de orelhas” inicial, que notemos nossa ignorancia a respeito desta e de outras civilizações presentes no livro e possamos, com humilde, “escutar” o que o historiador tinha a nos dizer. Para isso, apresentar-lhes-ei minhas impressões acerca desta obra, Nossa herança oriental, publicada no Brasil pela primeira vez em 1963, com seguidas reimpressões – utilizei a 4ª -, mas pouco valorizada e quase não utilizada em nosso meio acadêmico.


O primeiro volume da coleção A História da Civilização exigiu dedicação exclusiva de WILL DURANT e sua esposa entre os anos de 1927 e 1933, além de uma agradável volta ao mundo para realizar suas pesquisas in loco. Inimaginável para nós - contemporâneos que somos da revolução tecnológica proporcionada pelo computador doméstico - toda a escrita do livro foi manuscrita e, por fim, entregue a especialistas para a revisão que durou todo o ano de 1934. Colegas pesquisadores de Harvard, do Museu de Belas-Artes de Boston e da Universidade de Washington revisaram o texto e as citações de obras artísticas e textuais para, enfim, deixar o livro pronto ser publicado, o que se deu no ano de 1935.


Apesar do leitor se sentir encantado durante e ao final da leitura deste longo livro, o seu Prefácio não é nada mais que um ininterrupto pedido de desculpas e de justificativas. Entre elas, o autor aceita o grau de “absurdo de tal empresa e o quanto de imodéstia que representa o simples fato de concebê-la” (p. VII). Mas não nos deixemos levar por essas palavras que revelam mais sabedoria que imodéstia. Se o propósito de DURANT para a escrita e publicação de uma “História Universal” foi absurdo ou não, neste caso, o resultado foi excelente. Para embasar com fontes primárias, não apenas suas análises históricas, mas suas quimeras, citou as seguintes palavras do historiador chinês Tai T’ung que, no século XIII, decidiu-se por escrever uma igualmente hercúlea História da Escrita Chinesa: “Se eu esperasse a perfeição, este livro não seria terminado nunca” (p. VIII).


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Alquebrados que somos pelo conhecimento de uma história que começa com o advento da escrita e desconhece - quase que completamente - os grandes feitos das sociedades que viveram durante o Paleolítico e o Neolítico, temos a oportunidade de nos aprofundar um pouco mais nesse sentido de forma deveras agradável. O livro de DURANT começa com um extenso capítulo introdutório, “Como se criou a civilização”, no qual mostra as principais condições para a criação e desenvolvimento da da sociedade humana.


Dentre estas condições há uma que subjaz silenciosa bem abaixo de nós e que nos acompanha desde tempos imemoriais. Só sentimos a presença dela quando, vez ou outra, o nosso planeta se cansa da morosidade das eras geológicas e investe sobre a superfície da Terra os eventos cataclísmicos que só a natureza sabe produzir. DURANT nos lembrou que “o demônio do terremoto, com cuja licença construímos nossas cidades, pode sacudir seus ombros e destruir-nos com a maior indiferença” (p. 1).


Enquanto a vida humana e o produto de ininterruptas civilizações insistem em existir sob a sombra de vulcões que podem explodir e à margem de rios e mares que inflam em enchentes e tsunamis devastadoras, a humanidade saiu da condição de animal irracional para a de seres que criam cultura e a perpetuam por meio da educação, das artes e das construções. Porque, para DURANT, a única coisa que nos difere dos outros tantos animais que vagueiam pela superfície terrestre é a produção de cultura, de memória e de educação.


A história do homem começou cerca de um milhão de anos atrás. Segundo nos conta a Arqueologia e a Paleontologia, talvez a mais antiga prova da presença do ser humano no mundo seja o “crânio de Pequim” (c. 1.000.000 anos), encontrado em 1929 junto a restos de animais, vestígios de fogo e de lascas de pedra. Em 1911, foram encontrados na Inglaterra fóssil humano, fogo e pedras lascadas, com idade entre um milhão e 125 mil anos. Ademais, a mais famosa descoberta foi realizada em Neanderthal - Alemanha. No ano de 1857, pesquisadores descobriram fósseis similares a outros desenterrados na Bélgica, França e Espanha, bem como nas praias da Galiléia. Com cerca de 40.000 anos de idade, estes fósseis indicaram uma extensa área territorial da Europa e imediações ocupada por agrupamentos humanos caracterizados, oportunamente, como o “homem de Neanderthal” que viveram na “Idade da Pedra Lascada” também conhecida como Era Paleolítica.


Aqueles grupos de bravos caçadores exploraram todas as partes do mundo e, no decorrer de milhares de anos, percorreram e ocuparam todos os continentes. DURANT aproveitou o ensejo e lembrou aos nacionalistas e eugenistas de plantão naquela tensa década de 1930 de que, naquelas eras primitivas, “o Continente Negro encontrava-se no mesmo grau de desenvolvimento do europeu” (p. 66). Como grande parte dos vestígios arqueológicos com cerca de 20.000 anos foram encontrados em cavernas, aos homens do Paleolítico se costuma associar a ideia de “homens das cavernas”. Foram nessas cavidades profundas, por vezes subterrâneas, que “o homem do Cro-Magnon” registrou suas impressões do mundo por meio da pintura, o que conhecemos como a arte pré-histórica.


IMAGEM 1: Caverna de Lascaux - França, descoberta em 1940 por um grupo de amigos.

As pinturas foram feitas há cerca de 16.000 anos.


Aparentemente, as artes já estavam bem desenvolvidas e eram largamente praticadas há 18.000 anos atrás. Talvez houvesse uma classe de artistas profissionais entre os paleolíticos; talvez houvesse boêmios famintos, abrigados nas cavernas menos respeitáveis, que denunciavam o burguês dos tempos, conspiravam contra as academias e falsificavam antiguidades (p. 68-69).


Da Pedra Lascada à Pedra Polida (entre 10.000 e 5.000 anos a.C.), uma nova leva de milhares de anos. Reunidos desde sempre em grupos para sobreviver a um mundo ainda submetido a mutações geológicas e climáticas, sob a constante ameaça das feras devoradoras de homens e da fome, alguns grupos de homens pré-históricos deram seu jeito: decidiram se estabelecer em locais fixos e apostar tudo em um novo meio de subsistência, a agricultura: “no sentido exclusivamente humano, a História gira em torno de duas revoluções: a neolítica (passagem da caça para a agricultura) e a moderna (passagem da agricultura para a indústria)” (p. 70). Este movimento foi acompanhado da domesticação e criação de animais, da invenção da roda e da tecelagem. Uma rude produção de cerâmicas foi acompanhada de meios de transportes e de uma arquitetura que já mostrava qual era seu propósito ao redor do mundo.


Parece que tudo estava pronto para o homem, enfim, dominar o mundo e todos os outros seres viventes. Dominar as montanhas, rios e mares. Expandir-se por todo o globo em barcos, cavalgando equinos domesticados, acompanhados de dóceis cães, comendo carne bovina e suína e enganando a fome com cereais: “Logo que o homem encontrasse os meios de fixar na matéria o pensamento, a fim de transmiti-lo através das gerações, a civilização começaria” (p. 72). A História estava próxima e, com ela, a escrita e o metal, a divisão social e econômica, a política e o Estado. Arte, espiritualidade, bravura e engenhosidade aqueles homens já tinham de sobra.


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Pura “ingenuidade” (p. VIII), escreveu DURANT, mostra o historiador que começa uma História da Civilização com a Grécia ou que, ao incluir os avanços humanos do Oriente, reduz-o a poucas linhas ou a apenas um capítulo genérico demais para ser convincente. Para o autor, nossas raízes são greco-romanas, de fato, mas estas mesmas raízes foram adaptações de saberes que se originaram bem além da Ática ou da Península Itálica. Grandes - senão os maiores - desenvolvimentos intelectuais e técnicos da humanidade ocorreram antes ou em simultaneidade com os avanços dos gregos e, depois, dos romanos.


Se um livro pode se tornar uma “máquina do tempo”, ajustaremos nossas percepções para voltarmos uns 4 mil antes de Cristo. Mas, desta vez, viraremos as costas à Europa. Atravessaremos o Mar Mediterrâneo rumo ao Sul para chegar ao Delta do Rio Nilo, no Egito, localizado no norte da África; percorreremos algumas centenas de quilômetros rumo ao leste e adentraremos as terras do que a historiografia brasileira conhece como as Civilizações do Crescente-Fértil (Suméria, Babilônia, Assíria), no Oriente Próximo; Volveremos nosso percurso novamente para o norte e chegaremos à enigmática Pérsia, na Ásia. Após uma pausa para descansar de uma viagem tão longa, desceremos um pouco e seguiremos rumo ao Extremo Oriente para encontrarmos as outroras imensas Índia e a China.


Estas civilizações, séculos antes das inovações dos gregos e sequer do surgimento do poderio imperialista romano, já viviam sobre intricadas formas de governos teocráticos ou autárquicos, engalfinhavam-se para vender seus produtos artesanais em concorridas rotas comerciais por mar e por terra, exploravam toda espécie de minerais e produziam importantes obras literárias, legais e artísticas, além de nos presentear com valorosa herança científica.


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Nesse meio tempo, a Judeia nos encantará. Não apenas por lá ter nascido nosso ideal religioso mais rico, ou pelo relato carregado de respeito e sentimentalidade proporcionado por DURANT, mas por redescobrirmos a corajosa aventura dos primeiros grupos de maltrapilhos e famintos judeus que, em meio a um ambiente adverso e a civilizações militarizadas e dominadoras, conseguiu manter uma história que hoje já atingiu 4 mil anos: “quanto mais os atormentavam mais eles se reproduziam” (p. 203), o autor nos recorda o Êxodo bíblico.


Ao se revolver entre “as mais profundas dúvidas que já surgiram na alma humana” (p. 235), a religião advinda da Lei Mosaica, em particular, e da Torá, em geral, conseguiu suspender a religiosidade e a alteridade humana a um nível não alcançado por nenhuma outra cultura da Antiguidade e da posteridade: “Um admirável preceito; se os homens o seguissem, metade dos horrores do mundo desapareceria” (p. 228). As antigas civilizações disputavam entre si quem praticava com maior intensidade a opressão dos desvalidos e o abandono dos mais fracos à própria sorte. Ainda estamos imersos em tal opressão e abandono, mas lá está a religião nascida daqueles bravos judeus, reestruturada e disseminada por Cristo, a nos guiar nessa difícil empreitada que é a vida.


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Ao Japão, DURANT reservou o último capítulo do livro, 71 de 727 páginas. Não por acaso. Parece que, mesmo nos anos 30 do século XX, os historiadores de culturas extintas ou muito antigas precisavam justificar suas pesquisas segundo uma “utilidade” para questões do presente. O que é uma impropriedade, na minha opinião, mas se necessário for, a excelência do historiador/pensador aflorará e levantará questões do presente em estudos que remontam a séculos atrás. Exatamente o que o autor fez ao analisar a história das civilizações chinesa, indiana e, sobretudo, japonesa. Aqui e ali, deu suas alfinetadas, como esta:


A História moderna não nos mostra fenômeno mais espantoso do que a maneira pela qual o sonolento Japão de tantos séculos acordou ao som dos tiros de canhão do Ocidente, atirou-se ao estudo, criou a instrução, aceitou a ciência, a indústria e a guerra, derrotou todos os competidores do campo comercial e tornou-se, em duas gerações, a nação mais agressiva do mundo moderno (p. 614).


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DURANT, no fim de seu livro, estabeleceu oito elementos sobre os quais a civilização é possível: 1. Trabalho; 2. Governo; 3. Moralidade; 4. Religião; 5. Ciência; 6. Filosofia; 7. Literatura; 8. Arte.


Nota-se que foi sobre essa sistemática que o autor organizou sua narrativa, bem como as milhares de citações, transcrições e descrições de fontes da História do Oriente. Por isso, peço permissão para utilizar a mesma sistematização para lhes apresentar os trechos que se tornaram mais significativos após a minha leitura deste livro. Se algo, porventura, perdeu-se nos arquivos ocultos da minha memória ou sob os necessários recortes e escolhas que um historiador precisa fazer, peço, desde já, perdão. Que esses “silêncios” os incitem a ler a obra e descobrir o que não pude aqui revelar.


1. TRABALHO


SUMÉRIA: A Suméria está tão distante de nós que nem lhe damos a devida atenção ou sequer os devidos créditos, reclamou DURANT. 4.000 anos antes do nascimento de Jesus Cristo, aquele povo já dominava a agricultura e irrigava os campos por meios de canais que desviavam os cursos dos rios Tigre e Eufrates. Apesar do metal ainda ser raro entre os sumérios, o arado já colaborava com o labor rural. Uma produção excedente de culturas possibilitou o comércio de gêneros alimentícios e foi a mola propulsora para a fabricação de cerâmicas e tecidos que viajavam longas distâncias para suprir os crescentes desejos das elites ávidas por ítens manufaturados, comida farta e luxo.


Por terra, mas sobretudo, navegando pelos dois rios, as viagens de pessoas e mercadorias eram intensas e o regime econômico era na base da troca, com contratos e sistema de créditos: “Inúmeras tabuinhas trouxeram até nós fragmentos da escrita comercial da época, revelando a intensidade da vida” (p. 87). A estratificação social se fez presente com um fundo econômico e laboral. Escravos, pobres e ricos se acotovelavam naquelas primitivas zonas comerciais e rurais da Suméria.


EGITO: “O por-do-sol em Gizé é maior do que as Pirâmides” (p. 98). Ao contrário do que se costuma pensar, os maiores feits da Civilização Egípcia não foram as pirâmides ou os templos, foi a agricultura. A sociedade egípcia aprendeu a usar cada detalhe da fauna e da flora local a seu favor, pois viviam sob constante ameaça do deserto que os poderia engolir quando bem quisesse. Nesse sentido, DURANT nos lembrou “que coisa precariamente estreita é esse Egito que deve tudo ao Nilo e que de todos os lados as areias esvoaçantes acossam” (p. 96). Depois de invadir os campos marginais nas cheias, ao retomar seu curso vazante, o Nilo presentava as populações ribeirinhas com milhões de peixes que ficavam presos nas poças naturais enquanto macacos colhiam as frutas das árvores para aqueles que os ensinaram tal artimanha. Ao utilizar a natureza para seus próprios fins, o operariado era livre e os escravos abundavam.


O autor nos recorda que Heródoto (485-425 a.C.), o célebre historiador grego, esteve no Egito em 450 a.C. e nos contou muito do que lá viu:


Eles extraem os frutos da terra com menos labor do que qualquer outro povo... porque estão livres do trabalho de desatar a terra com o arado, ou com a enxada, ou qualquer outro processo que o homem empregue para obter colheitas de cereais; quando o rio entende de irrigar os campos e depois retira as águas, cada homem semeia seu lote e lança os porcos; depois que as sementes estão bem enterradas pelo patinhar dos porcos, eles os retiram e esperam pelo tempo da colheita.


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Desde o tempo do grego Megástenes, que a descreveu em 302 a.C., até o século XVIII, a Índia foi a maravilha e o mistério da Europa. Marco Polo (1254-1323) pintou vagamente parte da Índia Ocidental; Colombo, ao tentar alcançá-la, foi bater na América; Vasco da Gama deu à volta à África para redescobri-la; e os mercadores falavam gulosamente nas “riquezas da Índia” (p. 263).


ÍNDIA: Nenhuma das empreitadas acima seriam necessárias sem o labor enérgico dos indianos, 3.000 anos antes de Cristo já praticavam o comércio exterior. A Índia da Antiguidade era uma enorme massa territorial que abrangia os picos do Himalaia, passando pelas planícies úmidas às margens do Ganges, tomando para si parte do que é o Afeganistão de hoje até chegar ao deserto do Ceilão. Tal diversidade de clima e geografia propunha uma igual versatilidade para lidar com os trabalhos diários. Versatilidade e hombridade, o historiador que acompanhou Alexandre Magno (356-323 a. C.) à Índia nos conta que os indianos eram “notáveis pela integridade, a ponto de raro recorrerem à justiça, e tão honestos que não usavam fechaduras nas portas e não exigiam documentos escritos em seus contratos; eram da maior confiança” (p. 270).


DURANT revelou que o mais antigo carro de duas rodas descoberto é indiano, que havia uma Superintendência da Prostituição que zelava pelo bem estar das “mulheres públicas” (p. 299) e que há indícios de que foram eles os primeiros a minerar o ouro. A técnica de fundir e temperar o ferro em fornos acendidos por carvão de madeira só chegou à Europa no século XVIII, mas era usado na Índia desde a Antiguidade. Heródoto nos contou que os indianos usavam uma tal de “lã de algodão” para fazer roupas.


CHINA: “Toda a variada literatura dessa língua, todas as sutilezas do pensamento e todos os requintes da vida chinesa repousam, em última análise, na fertilidade dos campos, ou melhor, na labuta dos homens - porque os campos férteis não nascem, são feitos” (p. 521). A harmonia social era, por vezes, atormentada pelos criminosos, por isso, o chinês do campo nunca viveu isolado, sempre se reuniu em pequenas ou grandes aldeias. Aliás, nas grandes cidades da China, que ao tempo da visita de Marco Polo já somavam mais de 200, as familias abundavam e raros eram aqueles que viviam sós. Aquela vida comunitária de ajuda mútua possibilitou a produção de alimentos para a sempre imensa população chinesa, mas não impediu os anuais flagelos causados pela fome. As principais culturas se misturavam com as preferências nacionais: o peixe de mar ou rio, o arroz e o chá. O macarrão matava a fome quando os vegetais não abundavam e os chineses quase não davam atenção aos ovos e ao leite de vaca. Tradicionalmente, não havia fins de semana e férias, mas dias de festas, como as do Ano-Novo Chinês ou das Lanternas, momentos de confraternização social e de descanso laboral.


Era comum o transporte de pessoas e produtos pelos cules (criados alugados). Eles puxavam liteiras com abastados passageiros ou transportavam nas costas grandes fardos com de diferentes produtos. “Tão barato era o músculo humano, que não havia interesse em desenvolver o transporte por meio de animais ou dispositivos mecânicos” (p. 524). O meio fluvial era o favorito dos chineses, os Rios abundam naquelas terras e seus afluentes são igualmente navegáveis por milhares de quilômetros. Só depois da chegada dos ingleses é que a China (mais por imposição que por disposição) se tornou adepta das linhas férreas. Mas, em compensação, desde o ano de 807, a “moeda voadora” facilitava as transações comerciais chinesas. O papel-moeda era produzido a partir da casca da amoreira em um processo que a transformava em uma folha que era cortada em diversos quadrados. No comércio, tinha sua equivalência comparada ao valor do ouro.


JAPÃO: No Extremo Oriente, distante milhares de quilômetros do continente localizado à oeste, gigantescos movimentos de placas tectônicas fizeram a lava do interior do planeta fluir rápida e mortalmente para a superfície do planeta. Não foi uma, mais centenas de vezes e por milhares de anos. Quando o centro da Terra, enfim, acalmou um pouco e resolveu não se agitar demais, as lavas incandencentes esfriaram, as pedras se assentaram e a vida pôde iniciar sua trajetória. 4.223 ilhas foram criadas e formaram um arquipélago com apenas 5 ilhas grandes, o ambiente era hostil. Contudo, parece que esqueceram de avisar à humanidade que há ambientes impossíveis de se viver, e o Japão nasceu. Hoje, 600 ilhas são habitadas e DURANT concorda que ainda é difícil encontrar as origens históricas de povo tão destemido, dos primeiros homens que se aventuraram por aquelas paragens inóspitas, constantemente ameaçadas pela fúria de vulcões e do mar.


O japonês, até os dias atuais, é pouco afeito à reclamações, trabalha em silêncio e tem sempre um sorriso no rosto. Este japonês carrega séculos de uma genética que lutou contra os elementos, frutificou um solo quase infértil, abriu estradas em meio a montanhas de pedra, plantou arroz na água e tudo aproveitou nessa cultura, desde as fezes humanas e animais às águas da chuva: “a bravura que ainda dá ao japonês um poder acima de suas forças e riqueza” (p. 613). Como os chineses, o japonês não perde nada, não desperdiça coisa alguma. Para este povo, tudo tem uma utilidade. No japão, e também na China, famílias inteiras se sustentam com inimagináveis práticas laborais. “Gente marítima”, o mar e o arquipélago lhes protege de invasões e também lhe traz o sustento, pois o japonês aprendeu a usufruir de tudo que o mar lhe presenteia, das algas às baleias.


IMAGEM 2: Obra citada por DURANT. Katsushika Hokusai (1790-1849), The Great Wave off Kanagawa, primeira gravura da série 36 Views of Mount Fuji, publicada entre 1826 e 1833. Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.


2. GOVERNO


SUMÉRIA: DURANT chamou a Mesopotâmia de “Terra-Entre-os-Rios”. Por Mesopotâmia entendemos uma “cultura triangular” formada pela Suméria, Babilônia e Assíria - não necessariamente contemporâneas umas das outras. “A primitiva história da Mesopotâmia representa a luta entre povos não-semitas da Suméria para preservar a independência contra a expansão dos semitas” (p. 83). A Teocracia, fusão entre governo laico e religioso, dominou a Suméria durante toda a sua existência. O típico rei sumeriano, sobre seu carro puxado por valorosos cavalos, estava costumeiramente na linha de frente do exército a reivindicar facilidades comerciais ou domínios territoriais de seus vizinhos. Aquelas cidades que se engalfinhavam tanto no comércio como na guerra, por fim, sucumbiram à chegada de Assurbanipal (686-628 a.C.). A cidade de Susa sobreviveu às destrutivas práticas humanas e acumulou quase 6.000 anos de história passando para as mãos de diversos conquistadores. Ur, foi a maior e mais poderosa dentre todas as cidades sumerianas.


EGITO: No Egito Antigo, todas as terras e cidades eram propriedade do governante que portava a coroa dupla, pois era o faraó “do alto e do baixo Egito”. Há cerca de 6.000 anos, já existia ali um complexo regime de governo dividido em “nomos” (extensas e estreitas regiões que margeavam o Rio Nilo de norte a sul) regidos por “nomarcas” (os governantes locais). Aquele misto de governo centralizado na figura do faraó e descentralizado nos muitos e poderosos nomarcas, talvez tenha sido a chave para o sucesso da civilização que mais tempo durou na História do mundo. DURANT deixou transparecer certa perplexidade perante a enorme relação de nomes de faraós que governaram em nome de um número igualmente extenso de dinastias.


IMAGEM 3: Obra citada por Durant, detalhe da escultura de Akhenaton, c. 1550-1069 a.C. Louvre.


Tutancamon (faraó de 1336 a 1327 a.C.) é a figura mais famosa devido à riqueza encontrada junto a ele em seu túmulo, mas o autor TECEU diversos elogios a Akhenaton, “a primeira firme expressão do monoteísmo - 700 anos antes de Isaías” (p. 144), e à Hatshepsut, “primeira grande mulher e rainha da História” (p. 98).


IMAGEM 4: Obra citada por DURANT, Busto de Hatshepsut, c. 1479-1458 a.C.

Metropolitan Museum - Nova York.


ÍNDIA: Até o armagedon muçulmano do ano 1000, tudo corria bem na Índia. Uma classe abastada dominava milhões de almas pias e trabalhadoras, a terra frutificava, as monções e outras manifestações impiedosas da natureza eram previstas e seus estragos minimizados. Ouro e outras riquezas deram à Índia a reputação milenar de ser a terra mais próspera do mundo, sua cultura exótica se tornou tema para várias lendas. Das grandes civilizações da Antiguidade, DURANT deu destaque a duas que se perpetuaram com poucas mudanças significativas até nossos dias: a Índia e a China. Sua narrativa não se perdeu no passado, pelo contrário, para ambas, fez as devidas conexões entre o passado milenar até chegar ao contexto no qual escrevia o livro.


DURANT não se absteve de palavras para expor com qual voracidade destrutiva os discípulos de Maomé invadiram, pilharam e destruíram milênios de uma cultura que, para o autor, foi a mais nobre que o homem já produziu. “A conquista maometana da Índia é provavelmente a maior sangueira da História” (p. 309). Se antes, milhões de seres viviam em uma pobreza submissamente aceita pelo sistema de castas, após as brutalidades dos muçulmanos, os pacatos hindus aceitaram seu destino, uniram-se a um misticismo exacerbado e se entregaram à miséria e à exploração, primeiro dos muçulmanos, depois dos ingleses. Até que a serena voz de Ganghi exortou todos os bons cidadãos da Índia a, pacificamente, não mais obedecer aos desmandos da gente de fora.


Eis aqui o segredo da história política da Índia moderna. Enfraquecidos pela divisão, os hindus sucumbiram aos invasores; empobrecidos por estes, perderam a faculdade da resistência e refugiaram-se nas consolações sobrenaturais (p. 312).


CHINA: Ainda jovem, Confúcio (551-479 a.C.) já portava modos um tanto circunspectos, DURANT imaginou nele uma “apavorante seriedade de expressão que não sugere humor nem sensibilidade estética” (p. 445). Era comum vê-lo vagando pelas terras altas e baixas da China em sua inglória busca por um governo que lhe permitisse, efetivamente, colocar em prática suas ideias. Não deu certo, encontrou pelo caminho governantes mentirosos e rudes. Em sua Doutrina da Humildade ressaltou que “a administração do governo jaz em descobrir os homens competentes. Estes têm que ser descobertos por meio do caráter do governante” (p. 453). O mestre dizia que “se houvesse um príncipe que me empregasse, no curso de 12 meses eu teria feito algo considerável. Em três anos o governo estaria aperfeiçoado” (p. 446).


Confúncio, então, aceitou sua condição de professor e continuou a espalhar suas premissas por onde passava e por meio de seus já numerosos discípulos. Mas isso ocorreu durante sua vida. Após um breve interlúdio e a queima de muitos de seus livros a mando do primeiro imperador que unificou a China, Shih Huang-ti (259-210 a.C.), a filosofia confuciana triunfou, pois “tinha um cunho político e prático que a tornou querida dos chineses depois de sua morte” (p. 454). A Dinastia Tang elevou o confucionismo à luz que conduziu a China a séculos de harmoniosa vida comum e resistência moral frente aos invasores mongóis, na Idade Média, e ingleses, na modernidade. Como não podemos distinguir uma religiosidade essencialmente chinesa, temos na filosofia de Confúncio os princípios basilares que acompanharam a China por 2.000 anos com regras práticas e racionais, como a possibilidade de destituir um governante caso se mostrasse nocivo ao povo.


Tanto quanto DURANT, ficaremos intrigados com o meio de escolha dos funcionários que exerciam os mais altos cargos administrativos na China, prática que perdurou até o iniício do século XX. Pais abastados matriculavam seus filhos em escolas particulares ou lhes ofereciam um tutor doméstico para memorizarem os ditos de Confúcio, aprenderem os meandros da poesia, além da arte da caligrafia e da aquarela. A vara de bambu era o mais usual instrumento disciplinador. Na devida ocasião, após muitos anos de estudos intensos e já na idade adulta, o candidato se submetia à prova que durava dias. Em cada distrito ocorriam as preliminares que avaliavam a memorização das premissas confucianas, o conhecimento da História e da poesia chinesas, bem como seu nível de escrita. Ao candidato bem avaliado, dois caminhos: exercer um cargo local ou tentar os “Grandes Exames de Pequim” para cargos nacionais. Cada pretendente era colocado em uma fria, mal iluminada e rude cela por três dias, durante os quais deveria escrever um poema ou um ensaio filosófico sobre o assunto proposto, por exemplo: “O som dos remos e o verde das montanhas e da água” (p. 538). Notamos, portanto, um meio de contratar aquele que possuísse o caráter mais determinado na vontade e sutil nas palavras. Conhecimentos administrativos, econômicos e afins não estavam em pauta.


JAPÃO: DURANT separou a História do Japão em quatro fases: a primeira, o “Japão budista”, entre os anos de 522 e 1603, época na qual a China os presenteou não só com os ensinamentos de Buda, mas sobretudo, com a escrita chinesa, base sobre a qual os japoneses criaram sua própria língua. Em seguida, o “Japão do Xogunato Tokugawa”, 1603-1868. Foi nesse período que os samurais e as gueixas adquiriram tanta popularidade e importância que entraram para sempre no imaginário japonês e mundial. Desaparecerem devido aos canhões americanos que tornavam as espadas samurais inúteis - “de que iria valer a bravura do herói contra o anonimato das bombas?” (p. 614) - e aos valores ocidentais que rejeitavam a prática de uma prostituição institucionalizada, mesmo que nobre, praticada pelas gueixas.


IMAGEM 5: Obra citada por DURANT. Kano Motonobu (1476-1559), Conquista de Goblin Shuten-doji, 1522. Suntory Museum of Art, Tóquio - Japão.


A terceira fase transcorreu desde a chegada da esquadra americana, em 1853, até os dias nos quais o autor escrevia seu livro, entre 1927 e 1934. Por fim, de fato, impressionou-me como o autor denominou a fase seguinte: “o quarto ato será a guerra”, com o Japão “imitador dos métodos imperialistas do Ocidente e ameaçador da paz e da ascendência da raça branca no mundo” (p. 559). A feroz entrada e participação nipônica na Segunda Guerra Mundial confirma o prognóstico do visionário historiador. A propósito, nippon, autodesignação comum entre os japoneses, tem sua origem na palavra com a qual os chineses identificavam os japoneses, jihpen, que significa “o lugar de onde vem o sol” (p. 559).


3. MORALIDADE


SUMÉRIA: Adstrita à religião, a moralidade entre os Sumérios pode ser identificada pelo que sabemos de suas regras a respeito da mulher e do casamento. Um rol complicado e extenso de normas regia o matrimônio. Tudo, menos o amor, claro. O principal papel das “boas moças” era proporcionar ao marido muitos filhos. Em caso de esterilidade, o marido poderia dela se divorciar sem maiores delongas. Outra função da mulher era a de “servir ao Templo” como servas ou concubinas, prática que muito orgulho dava às famílias que comemoravam a realização com farto festejo e a entrega ritual do dote da filha aos sacerdotes. A desigualdade social e econômica já se fazia presente com toda força entre os sumérios: promovida pelos governos despóticos, imposta pelos militares, legitimada pelos sacerdotes, aceita com submissão pelas mulheres e com desesperança pelos escravos.


EGITO: Apesar da monogamia ter sido comum entre a população do Egito Antigo, tanto para a realeza quanto para as classes mais abastadas, o casamento entre irmãos foi tão longevo quanto os milênios sob as quais aquela civilização faraônica às margens do Nilo sobreviveu. DURANT fez sutis gracejos com a descoberta de que foi costume daqueles tempos o domínio da mulher sobre o homem em relação ao casamento. Cabia à mulher, inclusive, a iniciativa para o início do namoro, como nos mostra a carta de uma mulher endereçada ao seu pretendente: “Ó meu belo amigo, o meu desejo é tornar-me, como tua mulher, a dona de todas as tuas posses” (p. 115). Era em nome da esposa que ficavam as propriedades da família, que delas podia dispor como bem entendesse. Se aquela sociedade foi matriarcal demais para o nosso olhar hodierno, não acontecerá o mesmo ao lermos o trecho do texto, A Sabedoria de Amenemope, que o autor encontrou abrigado no Museu Britânico, parafraseou em seu livro e considerou bem próximo dos Provérbios de Salomão da Bíblia (p. 116):


Não te mostres cobiçoso de um cúbito de terra

E não invadas o terreno da viúva...

Ara o campo que baste às tuas necessidades

E obtém o teu pão pelo teu próprio trabalho.

Melhor um alqueire que Deus te dá

Do que cinco mil ganhos com transgressão...

Melhor pobreza na mão de Deus

Do que riquezas no armazém;

E melhor pão simples de coração alegre

Do que mundos na infelicidades.



ÍNDIA: A moralidade não foi o ponto forte dos indianos, apegados que estavam a regras um tanto cruéis aos olhos dos ocidentais. Gandhi, a maior voz tanto dos indianos quanto do Hinduísmo mais asceta, foi o primeiro a notar as mazelas causadas pela prática do casamento infantil e do sistema de castas. Ambos, em épocas já esquecidas pelo tempo e pela História, já serviram para reprimir os impulsos sexuais da juventude e para “domar” da forma mais eficaz que se conhece a ambição de grupos inteiros em prol dos ganhos de apenas um grupo, os Brâmanes. Mas não nos deixemos enganar pelos nossos ascos sociais, a violência nunca foi uma calamidade social na Índia como ocorre no Ocidente, exceção feita aos tempos de guerra. A maior catástrofe que se abate sobre o indiano comum é a fome, mas não era presente na Antiguidade, segundo o testemunho de Megástenes (350-290 a.C.): “diz-se que a fome jamais visitou a Índia, e que nunca houve escassez de alimentos” (p. 298). Mas, após a conquista dos muçulmanos, tudo mudou.


Gandhi viveu o mundo de lá e de cá: Índia, Inglaterra e África. Na Inglaterra, conheceu e se encantou com a Palavra de Cristo. Viveu alguns anos na África para ajudar os locais contra os regimes políticos racistas e segregadores. Ao retornar à Índia, em meio a uma crise sociopolítica de grandes proporções, entregou-se ao ascetismo budista. Uniu o povo para tentar tirar a Índia da opressão e da miséria na qual vivia naquelas primeiras décadas do século XX. DURANT, como homem do mundo e historiador com faro apurado, notou a importância daquela figura esquálida de olhos grandes e teceu muitos elogios às proposições daquele homem que gostava de permanecer preso, porque só assim conseguia ter o tempo e o ambiente necessários para fazer suas leituras.


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O corpo deste império subsistiu quatro mil anos sem ter sofrido nenhuma alteração sensível nas leis, nos costumes e na linguagem, ou mesmo no modo geral de se vestir... a organização desse império é na verdade a melhor que o mundo já conheceu.

Voltaire (p. 431)


CHINA: Parece que o segredo da longevidade do Confucionismo na China foi o valor e poder que deu à instituição da família. Foi para a família que os sucessivos imperadores entregaram as obrigações quanto à educação e à moralidade. “A sabedoria, portanto, começa em casa, e o fundamento da sociedade é o indivíduo disciplinado, dentro de uma família disciplinada”, dizia Confúcio (p. 451). Várias foram as passagens nas quais o mestre exaltou a família como a base de um governo estável por meio da moralidade e de uma sociedade feliz por meio do respeito mútuo e aos mais velhos. Faltavam ainda cinco séculos para o nascimento de Jesus, mas lá estava Confúcio a orientar seu pupilo para que “não faças aos outros o que não queres que te façam” (p. 452). Estes princípios morais reduziam as mulheres a uma servidão e submissão desalentadora e tornaram o chinês um povo pouco afeito ao progresso. Os ingleses impuseram novas perspectivas por meio do comércio do ópio, desanuviando as mentes mais hostis, e da guerra, humilhando os oponentes. A China se vingou com os próprios meios sofisticados dos ingleses: com as estradas de ferro e as universidades, mas sobretudo, com a indústria e o comércio internacional.


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JAPÃO: o orgulho é o maior pecado do japonês, mas também sua melhor virtude. Seu orgulho lhe permite realizar feitos estupendos com suas próprias mãos e mente; também lhe permite amar fervorosamente seu país e suas tradições. O japonês considera a natureza sublime e acompanha as mudanças das Estações do Ano com a empolgação de uma criança à espera de seu novo brinquedo. “Japão, país que se entregou mais à procura da beleza que da verdade” (p. 613). A Primavera sempre foi a mais celebrada das estações. Como o japonês ama as suas flores! DURANT extasiou-se ao narrar as diferentes manifestações de apreço do japonês pelas árvores, pelas folhas e, sobretudo, pelas flores. Que palavras podem exprimir o orgulho que os habitantes do Japão sentem quando suas cerejeiras se enchem com tão grande quantidade de flores que milhares caem e cobrem todo o chão ao redor? A vida se enche de cor nessa época.


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Cerejeira de flores rosas, ao fundo, o Monte Fuji - Japão.


A natureza tem um simbolismo muito forte para o japonês, nela está a metáfora da vida com suas diferentes estações. O Outono é igualmente celebrado, visto que é encarado como um período de renovação espiritual. É Nessa estação que as folhas caem, as cores se tornam pastéis, sem brilho, os ventos se enregelam e as pessoas se verão com menor frequencia. Em oposição à uma individualidade típica do japonês, o orgulho nacional faz qualquer indivíduo largar imediatamente seus afazeres para lutar ou oferecer seus serviços laborais em prol da unidade nacional, contra invasores ou para desenvolver a nação.


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Obra citada por DURANT: “em 1900, este biombo foi escolhido pelo governo japonês para ser exposto em Paris” (p. 610). Iwasa Matabei, biombo de bambu, 1637.

Moa Museum of Art - Japão.


No inverno, não só o Monte Fuji e outras montanhas que sombreiam o Japão se cobrem de neve, um manto branco cobre tudo o que se pode ver. É nessa estação que os japoneses mais humildes tirintam de frio e tentam se aquecer nas noites geladas com várias camadas de roupas. Como calafetar residências tão frágeis e que permitem a entrada dos ventos invernais? O medo dos tremores de terra, sempre atormentaram os japoneses e, por isso, não se viam altas construções ali até chegar o século XX e a tecnologia anti-terremotos. Casas e palácios de um ou dois pavimentos, no máximo, era o mais corriqueiro. No interior destas construções, o costume mais difundido era separar os cômodos por meio de biombos ou por paredes de bambu, madeira, papel ou seda.


4. RELIGIÃO


SUMÉRIA: A Suméria era formada por várias cidades que se consideravam autônomas. O autor nos conta que os líderes militares daquelas primitivas urbes eram estreitamente associados ao sacerdotes e seus respectivos culto aos deuses, pois os seres divinos eram os únicos capazes de proteger os homens com anjos contra os dêmonios. Por isso, a quantidade de deuses sumérios era tão grande quanto a de outras civilizações da Antiguidade: cada cidade tinha um Deus que lhe protegia e exigia grandes riquezas e ritos em troca. DURANT nos faz viajar no tempo e sentir a aura daqueles longínquos dias: “O ar vivia saturado de espíritos, anjos protetores de cada sumeriano e demônios que procuravam sobrepujar os anjos e se apoderar do corpo e da alma da criaturas” (p. 89). O sumeriano comum não rezava por benesses no além-túmulo, suas orações pediam graças ainda em vida.


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EGITO: O céu (deusa Hator), o sol (Ra ou Amon) e o Nilo permaneceram, até o fim, como as principais materializações das mais importantes divindades do Egito Antigo. Aliás, parece-nos que, de fato, todos os meandros da vida (e da morte) naqueles tempos foi envolvido pela religião. DURANT ressaltou que desconhece civilização que mais valor deu à morte e ao “além” do que a dos egípcios. Algumas plantas e animais também se tornaram divindades, como a flor de lótus e a palmeira, o escaravelho e o gato. Um capítulo foi dedicado ao “Rei Herético” Akhenaton que, apesar de profusamente citado, ganhou mais este destaque. Entendemos a afinidade do autor com o antigo faraó adorador do deus Aton, devido à sua piedade muito similar à cristã, apesar de seu advento milênios antes do nascimento de Cristo. É de Akhenaton a prece que DURANT classificou como “o mais longo e belo” (p. 142) poema da literatura egípcia. Tamanha foi sua admiração pelo texto, que ocupou três páginas de seu livro com ele. Segue um extrato para acentuar a curiosidade (p. 144):


Cintilante, luminoso, afastando-te e voltando.

Tu fazes milhões de formas

Através de ti somente;

Cidades, aldeias e tribos.

Estradas e rios.

Todos os olhos te vêem diante de si

Porque és o Aton dos dias da terra...


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ÍNDIA: “A primeira de todas as adorações é a adoração de todos os seres em redor de nós... Só serve a Deus quem serve aos outros seres” (p. 259), Swami Vivekananda (1863-1902). Nós, ocidentais, vemos a religião hindu envolta em uma aura de misticismo porque ela é irreconhecível a nós. A religião da Índia nos parece animista devido ao culto que oferecem aos animais, como a vaca e o elefante. Mas o Hinduísmo dá o seu espaço privilegiado a uma multidão de deuses antropomórficos não superada por nenhuma outra religião do mundo. “Os Upanishads representam para a Índia o que o Novo Testamento representa para o Cristianismo” (p. 280).

Segundo DURANT, Egito e Índia se superam entre as antigas civilizações que, mais do que incutir uma crença popular, estabeleceram uma mentalidade coletiva de tal forma dominante que impediu mudanças significativas na cultura religiosa e moral destas civilizações. Porém, a religião do Egito se perdeu nas areias do tempo enquanto a religião dos indianos pemanece tão apeada aos seus desígnios religiosos quanto era há milênios atrás. Nem os terrores das muitas invasões e destruições estrangeiras, nem a pobreza, muito menos as mudanças conjunturais solaparam a religiosidade que passa de geração a geração entre os hindus.

Há, certamente, uma relação muito forte entre o indiano com sua terra e com os animais, fruto do Budismo que se disseminou com a rapidez do pó ao vento em torno daquele imenso território que era a Índia na Antiguidade. Mesmo o mais simplório budista de hoje considera qualquer ser vivo como de extrema importância para o mundo e pratica o ahimsa, ou seja, não praticar o mal contra nenhum ser vivo. Mas, caso algo de mal lhe suceda, fatalmente considerará que a Lei do Carma pesou sobre ele, assim como pesa sobre os ombros dos homens. Visto que nossas vidas são o resultados de inúmeras vidas passadas, em seres não restritos à raça humana, que por aqui sofrem as incomodidades inerentes à vida para tentar se libertar de seus pecados e vícios. Libertar-se, sobretudo, do desejo, o maior mal que recai sobre o espírito do homem.

Libertar-se do desejo é tarefa tão imensa que, em uma vida, não é possível se afastar dele, só com a alma indo e voltando à Terra, pode-se tentar chegar o mais próximo possível do Nirvana, que não é o Paraíso, mas um estado de espírito de pura calma e sem desejo algum. Sabe-se que só Buda o alcançou, e o próprio nos conta que:


Com o espírito concentrado, clarificado, purificado... eu dirigi minha ideia para o ir e vir dos seres... vi os seres morrerem e renascerem... de acordo com seus carmas... a lei pela qual cada ato de bondade e maldade é recompensado ou punido nesta vida ou em outra encarnação da alma.


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CHINA: DURANT considerou a China uma civilização na qual havia uma “religião sem igreja” (p. 527). Porque, para o autor, o chinês foi o único povo que se deixou conduzir mais pelos filósofos que pelos sacerdotes. Se considerarmos as bases do Taoísmo, com seu yang e yin, e do Confucionismo, com suas exortações morais, notaremos que a filosofia influenciou as formas racional e secular com as quais os chineses viam o mundo e se perguntavam a respeito de tudo que não compreendiam. O chinês comum, assim como vimos em relação aos sumérios, não oravam para pedir a salvação de suas almas após a morte, queriam desfrutar de favores divinos em vida.


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Monumental estátua de Buda em Leshan - China.


E divino era o céu, sendo Tao o caminho celeste. O mundo é dividido entre a terra e o céu que se uniram em uma “unidade cósmica” por meio de elementos masculinos e femininos, senhores e vassalos, chamados por Lao-Tsé (604-517 a.C.), fundador Taoísmo, de yang e yin. Se houve uma religião, esta foi preconizada pelo culto aos antepassados, esse sim, disseminado por ser “saudável para a alma e a raça que os mortos fossem relembrados e reverenciados; porque assim também seria reverenciada a tradição, embaraçada a inovação - e o império teria paz” (p. 528).

Confúcio, por sua vez, foi reverenciado de tal forma que se tornou uma figura divina, menos importante apenas que o céu. Tanto ateus quanto budistas reverenciavam-no. Contudo, até o mais duro seguidor de Confúcio, sabia que uma pia crença embeleza e ajuda a enfrentar os rigores da vida. Por isso, “abrilhantava a prosa da realidade com a poesia do sobrenatural” (p. 528) permitindo a entrada do Budismo na China, por volta do século I. Este se juntou ao Taoísmo para promover as artes e a imprensa, nunca se bateu com outras crenças e “derramou bondade na alma chinesa” (p. 529).


5. CIÊNCIA


SUMÉRIA: Se ciência também é o desenvolvimento de instrumentos e técnicas, os sumerianos nos legaram ambos: guerreavam usando armas de cobre; mulheres e homens da alta sociedade tinham espelhos com os quais admirar os dotes físicos que os deuses lhes proporcionaram; “aparecem pela primeira vez o torno do oleiro e o carro” (p. 83). Os sumérios também foram os primeiros a cunhar moedas, mesmo que não fossem destinadas à grande circulação. Olhando para alto, o erudito de alta estirpe, em meio à ociosidade criadora, admirou e estudou as estrelas para desenvolver, simultaneamente, a matemática e o zodíaco. Aquela mesma intelectualidade trabalhou em prol de projetos mais mundanos e criou o calendário e o relógio.


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EGITO: Da engenharia à arquitetura, da mineração à indústria da cerâmica, da medicina à mumificação, “ainda na infância da História” (p. 97), os egípcios foram os artífices de grande parte dos saberes e técnicas que, comumente, associamos a povos mais recentes, como os gregos ou os romanos. DURANT nos conta que, por exemplo, a ética profissional do médico nasceu no Egito Antigo, sendo pois anterior à do grego Hipócrates. “É na medicina que está a glória da ciência egípcia” (p. 126). As especialidades médicas, como obstetras e cirurgiões, já eram comum naquelas paragens. O cérebro ganhou este nome nos tratados dos médicos egípcios e abundante “farmacopéia” tentava dirimir os males de centenas de enfermidades. Um protocolo de atuação profissional - igual aos de hoje – devia ser comum segundo nos conta DURANT: “diagnóstico provisório, exame, semiologa, diagnóstico, prognóstico, tratamento e paliativos” (p. 126).


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ÍNDIA: Resumo da ciência na Índia: “cientistas desenvolvendo a astronomia há três mil anos passados e ganhando o prêmio Nobel” (p. 263). Por volta de 450 a.C., o Siddanthas, um tratado astronômico afirmou que “a terra, devido a sua força de gravidade, atrai todas as coisas para si” (p. 354). É, parece que a maçã que caiu da árvore na cabeça de Isaac Newton (1643-1727) não foi a primeira Teoria da Gravidade...

Os maiores feitos científicos dos indianos para o mundo foram o “sistema decimal”, o zero e os algarismos “arábicos” (não, não são árabes! Estes só os tomaram grosseiramente para uso próprio). A partir disso, os indianos desenvolveram a Aritmética, além da Álgebra: com seu sistema de numeração com valor negativo, a raiz quadrada e a equação. A Química foi resultado da medicina e da indústria, ainda na Antiguidade, os indianos já produziam o aço. As temíveis lâminas das cimitarras muçulmanas das Cruzadas contra os cristãos na Idade Média eram de aço indiano.

A medicina primou pelo cuidado do corpo e da alma dos doentes por meio de centenas de instrumentos e remédios, exame de urina e drogas que anestesiavam o paciente para a realização de pequenas e grandes cirurgias. Por volta do século IV a.C., Charaka escreveu uma enciclopédia de medicina que começou com os seguintes conselhos: “Não por ti, nem para satisfação de nenhum desejo de lucro material, mas unicamente para o bem da humanidade sofredora, tratarás tu dos doentes, e assim serás grande” (p. 357).


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CHINA: Pólvora e bússola; papel e imprensa; seda e porcelana, além “dos pauzinhos de comer”. Pronto, nem seria necessário escrever mais nada...

A China foi a terra destas invenções que mudaram o modo do homem ver e lidar com o mundo, para o bem ou para o mal. Nas mãos dos chineses que a inventaram, por volta do século VII, a pólvora não passou de matéria explosiva para fogos de artifício; os primeiros a fazerem uso dela para fins militares foram os árabes sarracenos alguns séculos depois. Antiga mesmo é a “agulha que apontava para o sul” (p. 525), inventada entre 1115 e 1078 a.C. por um nobre chamado Chou para guiar as viagens por terra realizadas pelos embaixadores que viajavam pelo extenso território chinês. Antes de ser utilizada na navegação, a “agulha magnética” da bússola foi usada pela astronomia e para a edificação de templos. Para navegar sem se perder, a bússola foi usada pela primeira vez no século XII, não por chineses, mas por árabes. DURANT nos conta que é desta mesma centúria a primeira menção europeia à ela em um poema de Guyot de Provins 1150-1208).


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Equipamento citado por DURANT. Réplica do sismógrafo de Chang Heng feita em 1855 pelo cientista italiano Luigi Palmieri (1807-1896).


Poucos sabem que, no ano 132, o matemático Chang Heng (78-139) inventou um sismógrafo formado por oito dragões de cobre com bolas dentro da boca dispostos sobre molas e acima de igual número de sapos com a boca aberta. Quando um terremoto aconteceu, mesmo sem a terra tremer, um dos dragões deixou a bola cair na boca do sapo abaixo dele exatamente na direção na qual - souberam depois por um mensageiro - tinha ocorrido um terremoto em uma distante província. Porém, nada benéfica para a humanidade era a propensão à crueldade do imperador Chou Hsin (1105-1046 a.C.), inventor dos pauzinhos para comer comida oriental. Ele e sua esposa se divertiam tanto com atrocidades contra seus súditos que ninguém mais quis seu “real” sangue nos governos seguintes e a Dinastia dos Chous terminou após a desejada morte da sua terrível pessoa.


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6. FILOSOFIA


SUMÉRIA: A escrita sumeriana, apesar de não conhecer símbolos para representar somente uma letra, foi tão rica que, segundo DURANT, estava “apta a exprimir pensamentos complexos em todos os campos” (p. 91). Registros sumerianos remontam, de acordo com a arqueologia, a 3.600 anos a.C. Os Mitos de Origem se confundiam com os ideais mais intrísecos dos homens daqueles tempos. A partir de 2.000 a.C., historiadores tentaram reconstituir o “passado glorioso” para legitimar o presente e grarantir um legado cultural para o futuro. O autor nos lembra que o povo da Suméria foi o pioneiro a identificar, relacionar e refletir sobre o pecado. Tabuinhas de argila nos contam o que pensavam a respeito dos déspotas, da guerra, da religião e da escravidão, tudo isso com uma sutileza diferenciada.


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É comum entre os historiadores da filosofia iniciar a narrativa com os gregos. O hindus, que pretendem ser os inventores da filosofia, e os chineses, que pretendem tê-la aperfeiçoado, riem-se do nosso provincialismo. É possível que todos estejamos enganados... A sabedoria dos egípcios era proverbial entre os gregos, os quais se confessavam crianças diante de tão antiga raça (p. 133).


EGITO: A filosofia do Egito Antigo nasceu na religião. Depois de mais de 3.000 anos de domínio, quando a religião se viu alquebrada frente aos romanos, deixou-se vencer pela filosofia. DURANT enfatizou que a filosofia dos antigos egípcios é classificada pelos pósteros como uma “moralidade”, o que, para ele, é um descabimento. Profundas e severas foram as questões levantadas pelo pensamento egípcio, questões estas não restritas à práticas religiosas ou aos bons conselhos do mestre ao aluno. A Filosofia que nasceu nas terras em torno do Nilo, por volta de 2.800 a.C., questionava o sabor e dissabor da vida, além de expor as mais recôndidas quimeras humanas. Como na Instrução de Ptah-hotep para seu filho, o qual começa com palavras de desventurada sabedoria: “a velhice desce sobre mim; a fraqueza sobrevém e a infantilidade se renova” (p. 133).

Grande parte desta literatura filosófica está imersa em alto nível de pessimismo e ceticismo. Talvez porque foi contemporânea da invasão e domínio dos Hicsos e, por isso, aqueles que pensaram sobre a vida e a morte, viram os tempos de então com um real desgosto e melancolia. O autor comparou-os com o seu próprio tempo (a década de 1930), “o nosso interregno moral de hoje, em que a razão suplanta a fé e os homens ficam sem saber como e por que viver” (p. 136).


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ÍNDIA: DURANT, em vários pontos de seu livro, enfatizou que os mais profundos temas filosóficos nasceram da religiosidade. E, para o autor, a filosofia nasceu na Índia. Um destes legados do pensamento e da espiritualidade hindu conquistou a admiração de Arthur Schopenhauer (1788-1860), segundo nos conta DURANT. “Os pensamentos mais profundos da história da filosofia” (p. 277) são um conjunto de opiniões e lições de mestres a seus discípulos chamados de Upanishads. Sua escrita remonta aos séculos 800 a 500 a.C. em 108 discursos escritos por vários pessoas desconhecidas no decorrer destas centúrias. Estas exordias reunidas não formam uma filosofia única, contudo, as temáticas giram em torno da superficialidade do mundo frente às benesses promovidas por Purusha, o Supremo Espírito. “Vemos esta filosofia dominar a Índia desde Buda até Gandhi” (p. 280). E lá se vão mais de 5.000 anos nos quais milhares de hindus continuam a não se importar em adquirir fortuna, família e notoriedade. Desejam, somente, respostas. Visto que o Maitri Upanishad pergunta: “de que vale o gozo do desejo, se depois que o homem o sacia o vê retornar?” (p. 277).

A ioga é um dos meios com os quais o hindu piedoso tenta se afastar dos desejos carnais, mundanos e espirituais para se aproximar da paz no Nirvana. O processo tem 08 níveis que, se transpostos, levará o indivíduo a diferentes estados mentais que o libertará, mais e mais, do mal que advem do sofrimento, do medo e do desejo. Nota-se que a grande diferença entre a filosofia hindu e as outras é o fato dela ser, literalmente, praticada. Da ioga à meditação, dos encantadores de serpentes aos estudo dos Upanishads, a Índia se notabiliza como o povo mais asceta e liberto do medo que se conhece.


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CHINA: Deixemos os próprios filósofos da China falarem por si, afinal, DURANT não se absteve de cobrir seu livro com muitas citações de poetas e filósofos das diferentes civilizações que estudou:


Todas as coisas na natureza trabalham silenciosamente. Entram na existência e não possuem nada. Desempenham a função e nada reclamam. Todas as coisas fazem o seu trabalho e depois desaparecem. Após alcançarem a florescência, retornam à sua origem. Voltar à origem significa descanso, ou realização do destino. Esta reversão é uma lei eterna. E conhecê-la é a sabedoria.

A coisa mais macia do mundo bate contra a mais dura e suplanta-a... Nada no mundo é mais macio e fraco que a água e, no entanto, ela vence a pedra dura. (p. 442)


Lao-Tsé

Tinha olhos de rio e fronte de dragão... Quando falava, louvava os antigos reis. Andava sempre na trilha da humildade e da cortesia. Tinha ouvidos para todos os assuntos, e tudo na memória. Seu conhecimento das coisas parecia inexaurível. Não tínhamos nele um sábio em formação?


Um dos professores de Confúcio

Os antigos que desejavam implantar a felicidade e a paz no império primeiro davam boa ordem a seus próprios Estados. E, desejando bem ordenar seus Estados, davam boa ordem à família. E desejando bem ordenar a família, cultivavam-se a si próprios. E desejando cultivar-se a si próprios, retificavam seus corações. E desejando retificar seus corações, procuravam ser sinceros com seus pensamentos e estendiam ao máximo seus conhecimentos. Tal extensão de conhecimento jaz na investigação das coisas.


Confúcio

As coisas sendo investigadas, o conhecimento se torna completo. O conhecimento sendo completo, os pensamentos são sinceros. Os pensamentos sendo sinceros,os corações se retificam. Os corações estando retificados, os seus “eus” estão cultivados. Seus “eus” estando cultivados, suas famílias estão reguladas. As famílias estando reguladas, os Estados são bem governados. Os Estados sendo bem governados, todo o império se torna tranquilo e feliz.



7. LITERATURA


SUMÉRIA: Se a história escrita tem, pelo menos, 6.000 anos, durante metade deste tempo, foi dominio dos habitantes do Oriente Próximo. Os primeiros registros da escrita cuneiforme (em forma de cunhas) sumeriana foram encontrados em pedra, por volta de 3.600 anos a.C. Mas as “tabuinhas de argila” são os maiores tesouros literários que a Suméria deixou para a posteridade, há um universo de informações em milhares delas. Sabe-se que, em 2.700 a.C., grandes bibliotecas guardavam milhões destas tabuinhas. E, ao contrário do que se pensa, DURANT nos alerta que a literatura tem sua origem na religiosidade, afinal, “os primeiros poemas não foram madrigais, mas orações” (p. 92). Quase todos os temas que hoje consomem a mente e os corações dos historiadores, naqueles tempos já eram “cantados” em versos por sacerdotes-historiadores. Desde os épicos relatos da história de reis - de Tammuz a Gilgamesh - às histórias da Criação, com direito a Éden e um terrível dilúvio que assolou o mundo inteiro. Com Hamurabi (1811-1750 a.C.), rei da Babilônia, os semitas passaram a governar a Mesopotâmia, apesar dos lamentos que os poetas de Ur registraram em tabuinhas.


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EGITO: Até fins do século XVIII, o que se sabia do Egito Antigo se restringia aos vestígios arquitetônicos e artísticos, além de uma múmia aqui e ali. Apesar da deferência que os gregos dirigiram aos egípcios, com o advento do poder do Império Romano, o pensamento e a literatura do Egito faraônico foram quase esquecidos por séculos. O imperialismo napoleônico de fins do século XVIII, aliado à genialidade de Jean-François Champolion (1790-1832), trouxe à lume “a reconstituição de todo um mundo perdido” (p. 101). Após quase 20 anos de trabalhos, 1814 foi premiado com a tradução completa da Pedra de Rosetta (c. 196 a.C.), estela encontrada em 1790 nas imediações da região que leva seu nome. Champollion e colegas versados em línguas mortas conseguiram decifrar os símbolos inscritos na pedra e conhecer todo o alfabeto egípcio ao estudarem e compararem as três línguas ali presentes: hieroglífica, demótica e grega.


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Pedra de Rosetta, Galeria Egípcia no British Museum-Londres.


Pelo jeito, o papel de papiro produzido pelos egípcios teve afinidade com o propósito de eternidade das pirâmides e múmias. Chegou até nós manuscritos com escrita à tinta negra igualmente “indestrutível” com mais de 5.000 anos! Foi esse legado literário que nos abriu as portas da vida e da morte no universo sob os faraós. Os itens remanescentes das bibliotecas do Egito, que já abundavam 2.000 anos antes de Cristo, puderam ser decifrados e descobriu-se literatura fantasiosa e didática, épica e historiográfica.

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Detalhe de estela com escrita hieroglífica em baixo-relevo, Egito, c. 2230-2180 a.C.

Museu do Vaticano.


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ÍNDIA: Assim como o latim medieval do Ocidente, o sânscrito ainda é, per si, a língua da erudição indiana. O povo o desconhece e a Índia se tornou a Torre de Babel de nossos dias com mais de 100 línguas, além do inglês, idioma oficial. Como na ciência, os gramáticos indianos já produziam seus tratados no século IV a.C. e, dois séculos depois, a Filologia ali nasceu. Aqueles que escreveram na Índia Antiga costumavam usar como suporte pedras, cascas e folhas de palmeiras. O papel ali chegou após a conquista dos muçulmanos. A impressa, só no século XIX, junto com os canhões ingleses.


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Obra citada por DURANT. Fachada da Universidade de Benares - Índia.


As universidades seguem como a glória da Índia desde a Antiguidade. Benares se notabiliza como a mais antiga instituição de ensino do país, da época de Buda até nossos dias. Em Nalanda, funcionava uma famosa instituição educacional para budistas. O regime quase monástico de vida e de ensino era tão difícil que um sábio chinês que ali permaneceu por 5 anos escreveu que: “Dos de fora, que desejam entrar nas escolas de debates de Nalanda, a maioria, descoroçada ante as dificuldades, afasta-se logo; só dois ou três em dez são bem sucedidos” (p. 376). Os escritos ficcionais e didáticos, morais e épicos originários destas e outras instituições de ensino são o grande tesouro intelectual e literário da Índia. Segundo DURANT, em seu tempo, ainda eram insuficientes as pesquisas feitas nestas ricas fontes textuais indianas.


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Obra citada por DURANT. Restos arqueológicos dos dormitórios da antiga instituição educacional para budistas em Nalanda - Índia.


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CHINA: Voltaire (1694-1778) confessou: “Li atentamente os livros de Confúcio, fiz extratos; neles só encontrei a mais pura moralidade, sem o mais leve resquício de charlatanismo”. De acordo com DURANT, a tradição escrita da China remonta ao século XVIII a.C. Mesmo que o Taoísmo e o Confuncionismo tenham tomado as rédeas da moralidade e até da espiritualidade desta civilização, o Budismo que ali se assentou moldou o caráter e as expressões artísticas dos chineses. Deixemos que outra eminente figura do pensamento ocidental nos confesse sua opinião a respeito da cultura e da literatura chinesas, afinal, o Século das Luzes na Europa, o XVIII, foi acompanhado pela redescoberta das várias preciosidades que a China tinha a oferecer para enobrecer a arte e a filosofia do mundo. Denis Diderot (1713-1784) afirmou que os chineses “são superiores a todos os asiáticos em antiguidade, arte, intelecto, sabedoria, política e gosto pela filosofia; e no juízo de certos autores disputam a palma, nessas matérias, com todas as nações da Europa” (p. 467). Há outros, o autor não polpou esforços em buscar nos grandes filósofos europeus as impressões que tiveram a respeito da China.


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Obra citada por DURANT. Detalhe do frontispício do Sutra de Diamante, “o mais velho livro do mundo” (p. 492), 868, abrigado na British Library - Inglaterra.


Apesar do caos de guerras intestinas entre mandarins poderosos, a mentalidade do chinês continuou a mesma, eram súditos do imperador e faziam parte de uma mesma sociedade. A língua e a escrita foram as primeiras expressões a frutificarem de tal forma que seu legado logo migrou para fundamentar o que se tornariam as escritas da Coréia e do Japão. O papel, sem dúvida, foi o melhor presente que o mundo ganhou dos chineses. Foi neste suporte tão prático que, ainda nos séculos VI e V a.C., filósofos, poetas e historiadores da China expressaram em palavras suas ideias a respeito da natureza e das pessoas. De acordo com DURANT, estes foram os textos que ensinaram o homem a pensar e a questionar, pois, assim que a imprensa foi desenvolvida, por volta do século IX, a panfletagem “rebelde” correu solta nas praças públicas. Para calá-los, só mandando cortar-lhes a cabeça.

8. ARTE


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Figura de homem em pé, c. 2900–2600 a.C, Mesopotâmia, escultura da Arte Suméria, detalhe. Metropolitan Museum - Nova York.


SUMÉRIA: As esculturas são os vestígios que melhor se conservaram e nos mostram os sumérios portando suas longas e onduladas barbas. A joalheria remanescente mostra tal “refinamento de vida que perturba nossa concepção de progresso como linha reta ascendente” (p. 93). O marfim foi usado para a mobília e para acessórios: desde pentes à janelas. A Suméria foi o local no qual nasceram os fundamentos estruturais de nossas casas. Foi lá, também, que nasceu a arquitetura (mistura de técnica e arte) segundo nos contam os escribas daqueles tempos e nos mostram os vestígios artísticos que gerações de arqueólogos descobriram para nós. A coluna, a abóbada e o arco estavam presentes nos palácios dos mais abastados e nos templos. Os adornos em terracota criavam emaranhados espiralados ou formações geométricas quase ilusionistas. Os arabescos também eram escolhidos para ornar as grandes casas que se erguiam em torno de um pátio central belo em sua forma e composição.


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EGITO: “O melhor desta civilização foi a arte” (p. 127). Impetuosidade e grandeza nas formas e funções, beleza e finesse nos detalhes e cores, assim foi a arte egípcia. Evidente na arquitetura, as contruções do Egito Antigo burlaram o tempo e riram dos milênios para continuar a encantar a todos por sua perenidade. Assim fez com DURANT, que passou por lá em alguma de suas viagens pelo mundo. Nos primeiros textos a respeito da Civilização Egípcia, fez um poético relato de suas impressões enquanto navegou pelo Nilo “por entre montanhas desnudas e túmulos históricos” (p. 98) com destino à Luxor e Karnac.


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Obra citada por DURANT, “orgia de colunas” (p. 128) do Templo de Luxor, c. 1400 a.C.


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Obra citada por DURANT. Os Templos Budistas de Ajanta escavados na rocha entre os séculos I e VII.


ÍNDIA: Assim como a música, a arte indiana já era profusa e criativa 3.000 anos antes de Cristo. Os tecidos indianos, até hoje, são disputados e valem ouro, os lendários “xales de Cachemira” (p. 395) são pura realidade. Os brocados em tecidos com fios de ouro eram uma suntuosiadade somente permitida aos mais ricos brâmanes e à família do Xá, o rei da Índia. A madeira, abundante nas florestas vigiadas por tigres e macacos, foi profusamente talhada das mais diferentes formas possíveis. O bronze, antes da História, já era produzido e transformado em lâmpadas e utensílios diversos. O marfim dos elefantes se tornou atrativo mundial desde a descoberta dos indianos em o utilizar para as mais finas peças e ornamentos. As pinturas e as esculturas que sobreviveram “ao martelo dos muçulmanos iconoclastras” (p. 397) jazem no interior de enigmáticos templos de uma beleza intrigante.


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Poema de Wang Bo, raro manuscrito com caligrafia chinesa da Dinastia Tang - China, c. 650-676, abrigado na British Library - Inglaterra.


CHINA: Se existiu uma civilização na qual as “artes menores” superaram a arquiteura, escultura ou pintura, esta foi a China Antiga e Medieval. Assim como os egípcios, os chineses que inventaram a escrita partiram de pictogramas (imagens que se relacionavam diretamente a uma coisa, por exemplo, uma lua crescente para representar a lua) até chegar aos ideogramas (símbolos que representam ideias). Contudo, mesmo os egípcios, chegaram até a escrita demótica (mais fácil e popular). Os chineses se mantiveram leais aos ideogramas que, nada mais são, que sua escrita. No geral, seu aprendizado completo é tarefa para poucos e, sabe-se, nunca termina, pois são milhares de ideias e tonicidades representadas por símbolos, não por letras.


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Obra citada por DURANT. Palácio das princesas. Aquarela e desenho de K'ai-chih (345-406), China. Abrigado no British Museum - Londres.


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JAPÃO: Assim como a escrita e o budismo, grande parte das expressões artísticas japonesas vieram da China. Porém, o Japão foi o país do Oriente que mais influenciou a pintura do Ocidente. O alfabeto e a língua do Japão são mais arte que letras, são mais introspecção que expressão. O mesmo pincel da aquarela é o que se usa para escrever. Na verdade, primeiro se aprende a escrever em chinês com o pincel, para, só depois, arriscar-se a desenhar. Uma arte leva à outra. Desde que seus portos foram abertos pelos americanos, gente de todo o mundo - principalmente da Europa - ali aportou para conhecer aquele país exótico. Ao voltarem para seus lares, trouxeram as obras japonesas que mais renome ganharam internacionalmente, as gravuras. Como também herdaram da China a técnica da impressão, os japoneses se destacaram como minuciosos e criativos produtores de gravuras e de todo tipo de material impresso. Tanto as gravuras feitas no século XIX quanto as de períodos anteriores ganharam cada vez maior notoriedade no meio artístico mundial.


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Obra citada por DURANT. Hiroshige (1797-1858). Cem Vistas de Yedo (Tóquio), 1856-1858, gravura 1. É possível adquirir o livro com todas as gravuras. Internet: https://www.taschen.com/pages/en/catalogue/art/all/64901/facts.hiroshige_one_hundred_famous_views_of_edo.htm


As “impressões” do mundo que os artistas japoneses imprimiam ou desenhavam no papel - em leques, biombos, na seda, etc... - eram de uma singularidade tão grande que alguns pintores academicistas europeus abandoraram seus estúdios para tentar, também, captar impressões do sol, do vento, do lua, do entardecer... DURANT não nos deixa esquecer que Monet, Manet e Degas se notabilizaram por seu “novo olhar” sobre o mundo porque, em algum momento, tiveram contato com as gravuras japonesas que já estavam difundidas na Europa na década de 1860. Foi “a gravura japonesa, não a chinesa, que revolucionou a arte pictórica do século XIX” (p. 613).


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Se quiser citar, tê-lo como referência, seguir:


DANTAS, Bárbara. "Resenha." DURANT, Will. Nossa herança oriental. Rio de Janeiro: Record, 1995, ISBN 85-01-28821-7. In: Mirabilia, 28, 2019/1, p. 664-703. Disponível em: https://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/36.28.pdf e https://www.barbaradantas.com/post/resenha-durant-will-nossa-heran%C3%A7a-oriental-rio-de-janeiro-record-1995-isbn-85-01-28821-7


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Bárbara

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