Iconografia e arquitetura nos textos das Cantigas de Santa Maria

Atualizado: 1 de Dez de 2020

Resumo: O sagrado por meio do profano. Assim são as Cantigas de Santa Maria, uma compilação de mais de 420 milagres e louvores à Virgem Maria, originalmente produzidos para serem cantados nas principais celebrações do calendário cristão, especialmente nas procissões festivas. Implementada pelo rei castelhano Afonso X (1221-1284), a obra é ricamente iluminada com imagens: o códice contém centenas de iluminuras de página inteira que representam, por meio de imagens historiadas, o que a cantiga a que se refere exprime em versos. Compreender a relação imagem-texto é o principal objetivo de nossa análise histórica, de que forma os motivos iconográficos e arquitetônicos se apresentam nos textos das cantigas e a conexão com suas iluminuras.

Palavras-chave: Cantigas de Santa Maria; Arquitetura Medieval; Iconografia Medieval.

Resumen: Lo sagrado por medio del profano. Así son las Cantigas de Santa María, una compilación de más de 420 milagros y alabanzas a la Virgen María, originalmente producidos para seren cantados en las principales celebraciones del calendario cristiano, especialmente en las procesiones festivas. La obra es ricamente iluminada con imágenes: el códice contiene centenos de iluminaciones de página entera que representan, por medio de imágenes historiadas, lo que la cantiga a que se refiere expresa en versos. Comprender la relación imagen-texto es el principal objetivo de nuestro análisis histórico, de qué forma los motivos iconográficos y arquitectónicos se presentan en los textos de las cantigas y la conexión con sus iluminaciones.

Palabras clave: Cantigas de Santa María; Arquitectura; Iconografía.


Abstract: The sacred through the profane. Thut are the Cantigas de Santa Maria, a compilation of more than 420 miracles and praises to the Virgin Mary, originally produced to be sung in the main celebrations of the christian calendar, especially in festive processions. The work is richly illuminated with images: the codex contains hundreds of full-page illuminations which represent, through recorded images, what the cantiga referred to expresses in verses. Understanding the image-text relationship is the main objective of our historical analysis, how the iconographic and architectural motifs are presented in the texts of the songs and the connection with their illuminations.

Keywords: Cantigas de Santa Maria; Architecture; Iconography.


1. Permanências de um passado longínquo


Figura 01: Cantigas de Santa Maria. Rei Afonso X de Leão e Castela. Séc. XIII. Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri – Espanha. Prólogo A (detalhe da iluminura).[1]


Afonso X coordenou as atividades dos eruditos e artistas envolvidos na realização das Cantigas de Santa Maria. Nesta imagem, estão diferentes manifestações artísticas unidas para louvar a Virgem Maria. Literatura: o rei Afonso está no centro da imagem. Narra para o escrivão atento ao que diz uma das cantigas que fará parte do códice. Música: à esquerda, um grupo de trovadores toca belas harmonias em seus instrumentos musicais enquanto um escrivão as transforma em notas musicais. Arquitetura: os motivos arquitetônicos que cobrem o pano de fundo da imagem demonstram que o ambiente é urbano. Escultura: dois capitéis ornamentais são a base do arco quebrado do centro e dos quatro arcos quebrados em forma de gablete das laterais esquerda e direita.[2] Pintura: as cores primárias, fortes em sua essência, compõem os motivos ornamentais das margens da iluminura.

Um oceano profundo nos separa dos homens que produziram as Cantigas de Santa Maria. Para eles, medievais, um livro era um bem precioso. Obra valiosa por seu valor espiritual, intelectual e material. Hoje ele é mais um objeto reprodutível. Por sua vez, os códices medievais nos surpreendem. Em um tempo que nos parece em constante aceleração devido a uma realidade que rapidamente envelhece bens e ideias, deparamo-nos, através deles, com as lentas mudanças, com as firmes permanências de um passado longínquo, considerado morto, todavia, ainda manifesto pelo costume.[3]

O costume é um hábito que se estende através do tempo. Mutável, mas duradouro. A pesquisa, no entanto, é sempre conduzida pelo presente. Em sua prática, o historiador carrega este emblema. Não pode esquecê-lo. Caso contrário, corre o risco de, na junção da prática com o discurso, ter sua produção mais ideológica que histórica. Desde as primeiras leituras da fonte, o historiador deve, sobretudo, tentar entender como aquela sociedade se percebia. A história é nosso mito. Ela combina o ‘pensável’ e a origem.[4] A fonte é a origem. Nosso olhar, o mito. Por isso devemos ter o cuidado para não diminuirmos o valor de dogmas, antes significativos, em favor de um olhar atual.

Desta forma, adentramo-nos nos estudos da iconografia e dos motivos arquitetônicos presentes nos textos das Cantigas de Santa Maria com o coração e a mente abertos a este passado distante. A um mundo no qual o espiritual e o terrestre estavam intimamente ligados. Por analogia. Por anagogia. Estreita união entre as manifestações visíveis e as divinas.[5] Assim são as Cantigas. Um códice profano que representa a religiosidade daquele período, a Idade Média. E naquela região “corrompida”, a España.


2. O códice e suas cópias


Na mentalidade da época, as graças divinas recaíam sobre os nobres homens. Estes, em agradecimento, deveriam fazer valiosas ofertas. Para um rei, quanto maior seu poder, maior sua oferta: objetos litúrgicos, vitrais, catedrais. Um livro ricamente iluminado poderia ter o mesmo valor de uma vila inteira. Assim, o projeto inicial de Afonso X (1221-1284), rei de Castela e Leão, foi produzir 100 cantigas, mas estendeu-se até cerca de 420.[6]

Entre louvores e relatos de milagres de Santa Maria, cada uma das Cantigas é acompanhada de uma iluminura de página inteira com a representação iconográfica da história ou louvor do texto poético. Inclui também notações musicais, pois deveriam ser cantadas nas principais festividades do calendário cristão em homenagem à Virgem Maria.[7] As diferentes artes − pintura, música e literatura – estão magnificamente entrelaçadas neste códice.


Figura 02: Cantigas de Santa Maria. Rei Afonso X de Leão e Castela. Séc. XIII. Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri – Espanha (detalhe da iluminura).[8]


Cantiga 54: Esta é como Santa Maria guaryu com seu leite o monge doente que cuidavan que era morto.[9]


Monges brancos da ordem cistercience em liturgia.[10] Três dos monges portam livros com capa vermelha. Na Baixa Idade Média a produção de manuscritos atingiu seu ápice. Saltérios, evangeliários, homiliários, breviários, livros de horas, entre outros, foram alguns dos tipos de livros religiosos produzidos naquele período. Deus e Sua palavra deveriam acompanhar os que Nele criam em todos os lugares. Dispendiosa, a produção de livros exigia riqueza do mecenas e dedicação da oficina produtora.


Oh você, leitor sortudo, não toque em um livro antes de lavar as mãos, vire as páginas com cuidado e mantenha os dedos bem longe das letras! Alguém incapaz de escrever não pode imaginar o imenso trabalho que isto é”. Oh! Quão árduo é escrever: obscurece os olhos, aperta os rins e tortura cada membro. Apenas três dedos escrevem, mas o corpo inteiro sofre...[11]


No séc. XIII, a relação imagem/texto atingiu um grau nunca antes visto nos reinos da França, da Inglaterra e do Sacro Império. Produziram-se manuscritos religiosos e profanos riquíssimos, tanto em materiais, como ouro, quanto em conteúdo textual e imagético. Destes, fizeram-se cópias, algumas feitas no próprio scriptorium. Outras, em períodos posteriores. Assim, chegaram até nós quatro códices das Cantigas, todos feitos sob a supervisão de Afonso X:[12]


· Códice Toledano. Biblioteca Nacional de Madrid.

· Dois códices que estão na Biblioteca de San Lorenzo e no Complexo de El Escorial, em Madri: Códice Rico e o de El Escorial.

· Códice de Florença. Biblioteca Nacional de Florença.


Nossa fonte é o fac-símile da PUC-Minas, feita a partir do Códice Rico. Boa parte das Cantigas possui como temática as relações sociais entre os crentes das três religiões (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo) ou do cotidiano em geral. Acontecimentos históricos também são recorrentes, especialmente as principais batalhas da Reconquista Ibérica (séculos VIII-XV). Os relatos de milagres não se restringiram à Península. Muitos deles ocorreram em cidades da França, em Jerusalém, na Inglaterra, entre outras. Em diferentes períodos da Idade Média. Peregrinos, reis, comerciantes e artífices são alguns dos personagens representados que dão um valor histórico imensurável às Cantigas de Santa Maria.[13]


3. Iconografia das Cantigas


Segundo a metodologia de análise iconográfica proposta por Erwin Panofsky, identificamos algumas características formais que são destacadas e, repetidas vezes, utilizadas na série iconográfica das Cantigas. O método do teórico alemão é uma abordagem em três etapas distintas que, no entanto, formam um único processo: descrição pré-iconográfica, análise iconográfica e, por fim, interpretação iconológica. Utilizamos as duas primeiras etapas: descrição e análise.[14]

Motivos artísticos, História: imagens são representações de um grupo, de uma dada sociedade. Como ela se via. Como via o outro. Em forma de alegoria. A iconografia medieval tinha estreita relação com os símbolos que uniam as manifestações terrestres com as divinas. Fruto de uma mentalidade e de práticas que perpassaram as gerações, as oficinas de manuscritos na Idade Média, por tradição, trabalhavam segundo suas particulares normas e estilo.[15]

As características estéticas e formais das iluminuras não variaram no decorrer dos anos que os manuscritos das Cantigas de Santa Maria foram produzidos. Os iluminadores seguiram um método e estilo bem definidos pela oficina de trabalho através da junção de conteúdos tradicionais do românico germânico junto aos conteúdos inovadores do gótico francês. Sob a repetição de motivos artísticos clássicos ou de outra região, prática comum entre os artífices medievais, estava a inovação de cada obra.[16]


Figura 03: Uma das cópias das Cantigas de Santa Maria está abrigada na Biblioteca do complexo de El Escorial, Madri – Espanha. Conhecido como “Códice Rico”.[17]


A imagem mostra a Cantiga 74: Como Santa Maria quiser deffender, non lle pod´o demo niun mal fazer.[18]


1. Notações musicais; 2. Texto da cantiga; 3. Iluminura historiada de página inteira; 4. Verso do fólio; 5. Frente do fólio; 6. Letra capitular ornamental; 7. Número da cantiga em algarismos romanos; 8. Letra capitular; 9. Título da cantiga; 10. O refrão da cantiga se repete nos textos em vermelho.


Tema religioso secular. Junção de estilos. Renovação gótica. As iluminuras de página inteira são representações iconográficas dos textos das Cantigas, sejam louvores ou relatos de milagres. A ornamentação das iluminuras não varia muito de um fólio para outro. Muitos elementos se repetem, como nas laterais, onde estão duas fileiras de ornamentos em formato quadrilobado.[19] Nota-se, também, a ornamentação em forma de cruz grega. Separa os quadros da imagem ou limita os quadros da própria iluminura: iconografia historiada dividida em seis vinhetas sequenciais nas quais se conta a história: do início (alto à direita) até seu fim (último quadro à esquerda).

Há representações heráldicas dos reinos de Leão (leão), Castela (torre) e do Sacro Império Romano Germânico (águia) – título que Afonso X almejou durante boa parte de sua vida graças ao seu estreito grau de parentesco com o falecido imperador germânico (era neto de Frederico II). Estão presentes nos pequenos quadros dentro das fileiras de ornamentos ou entre os quadros de iconografia historiada.[20]

A luz e o brilho das cores primárias tinham o objetivo de entusiasmar aqueles que contemplassem as imagens. O uso dos contrastes de cores foi prática corrente na pintura do Ocidente Medieval a partir do séc. XII.[21] Das iluminuras aos vitrais, o colorido foi enaltecido como instrumento que aproximava o homem da “luz” divina.[22] Desta forma, o vermelho e o azul são cores recorrentes nas iluminuras das Cantigas. Largamente utilizado nas representações de vestimentas, tanto no altar da Virgem quanto na ornamentação marginal.

As formas arquitetônicas das iluminuras são estreitamente ligadas ao estilo gótico. São um marco temporal, limite entre o ambiente externo e interno, ou representação do local no qual se passa a história (ambiente urbano ou rural, por exemplo). O livro medieval é a arquitetura e a iluminura é uma composição de arquiteto pelos elementos que a enquadram, todos eles, similares aos usados nos edifícios: colunas, arcadas, etc.[23]

A partir das citações de obras arquitetônicas, de pintura ou de escultura nos textos, montamos o quadro da iconografia nas Cantigas de Santa Maria. Analisamos toda a série documental, cerca de 420, e em sua língua original, o galego-português, nos 04 volumes da obra do filólogo Walther Mettmann.[24] Enumeramo-las segundo os tipos de obras artísticas mencionadas nos textos.

Dezenove textos das Cantigas mencionam motivos arquitetônicos. A Cantiga 26, por exemplo, conta como Santa Maria salvou a alma de um romeiro que pecou a caminho de Santiago de Compostela e foi enganado pelo diabo.[25] Um trecho da Cantiga cita a beleza da fachada externa de uma capela: E u passavan ant´ hua capela de San Pedro, muit´aposta e bela.[26]

Dentre as 35 Cantigas que citam uma escultura, na Cantiga 04, identificamos no texto e na iluminura menções a um objeto tridimensional, escultural: [27] O judeucỹo prazer ouve, ca lle parecia que ostias a comer lles dava Santa Maria, que viia resprandecer eno altar u siia e enos braços tẽer seu Fillo Hemanuel.[28] Por fim, localizamos 09 Cantigas que mencionam a pintura. Dentre elas, escolhemos a fenomenal história do pintor que enfrentou o diabo, na cantiga 74: u estava pintando, com' aprendi, a omagen da Virgen, segund' oý, e punnnava de a mui ben compõer.[29]

Alguns obstáculos requereram um maior cuidado para a identificação destes três tipos artísticos. O mais interessante foi a encruzilhada na qual nos deparamos com a palavra omagen no galego-português da fonte textual. Ela tem vários significados, cada um estreitamente ligado ao conteúdo do texto no qual está inserido, o que dificulta a identificação a qual tipo de imagem a cantiga se refere. Em alguns casos, nem se referia a um objeto, mas à imagem da Virgem em pessoa, através de uma visão espiritual. Segundo o glossário das edições de Mettman, o termo omagen se refere a uma imagem da Virgem: pintura e escultura, não a uma "visão" da mesma.[30] Por exemplo, a palavra omagen,


· na cantiga 09, entre outras, foi identificada como pintura;

· na cantiga 361 e outras, como escultura;

· na cantiga 77 e outras, deixamos uma observação para a identificação do suporte. Determinamo-la ao analisar sua iluminura correspondente;

· na cantiga 42, omagen significa uma imagem visionária da Virgem em sonho (não quantificadas nesta pesquisa). Portanto, não associada a um objeto artístico, fosse ele pintura ou escultura.


Figura 04: Cantigas de Santa Maria. Biblioteca do complexo de El Escorial, Madri – Espanha. Fac-símile do “Códice Rico”. [31]


Cantiga 29: Esta é como Santa Maria fez parecer nas pedras omagẽes a ssa semellança.[32]


1. Ornamentação floral quadrilobada; 2. Vinheta; 3. Símbolo heráldico do reino de Leão; 4. Símbolo heráldico do reino de Castela; 5. Representações arquitetônicas.


Levantamento lexicográfico árduo, mas envolvente. Encontrar estes elementos nos textos fez das nossas atividades uma experiência ímpar. Posteriormente, traçamos em alguns artigos um paralelo entre o que o texto narra com a iconografia historiada da sua iluminura correspondente. Uma relação imagem-texto, pois a imagem é tão importante quanto o texto.[33] Uma nova forma associativa de apreciar esteticamente o conteúdo textual.


4. Arquitetura, escultura e pintura


Unidade e simultaneidade, um breve olhar sobre uma imagem nos remete ao tema e às formas representadas. [34] Em contrapartida, os textos são-nos apresentados de forma contínua. Não é possível chegarmos a uma conclusão a seu respeito, mesmo que breve, se não nos debruçarmos sobre sua decifração contínua até chegarmos ao seu fim. Construção e continuidade.[35] Portanto, a apreensão de imagens e de textos acontece de forma diversa. Uma rede de figurações mentais nos ajuda a interpretar a imagem imediatamente em sua totalidade, enquanto o texto precisa ser lido continuamente, até seu fim, quer seja de uma frase ou de um livro completo, para ser interpretado.

Nos textos das cantigas estão os termos que remetem à iconografia. Nas iluminuras, o relato imagético onde estes termos são figurados. Desta forma ocorre o que, na Idade Média, foi a relação entre os três tipos artísticos - arquitetura, pintura e escultura – e os relatos textuais. Estreita e sem lugar a hierarquias. Interagiam e se influenciavam continuamente.[36]


As respectivas especificidades da imagem e da língua impedem que a primeira seja jamais designada como ilustração de um texto, mesmo no caso de uma miniatura pintada tendo em vista um texto e em relação direta com o seu conteúdo. O texto evoca seus significados na sucessão temporal das palavras; a imagem organiza espacialmente a irrupção de um pensamento figurativo diferente.[37]


4.1. Pintura: Cantiga 74


O arquiteto, o imaginário e o pintor estão ligados ao filósofo e ao poeta e todos concorrem para erguer uma espécie de cidade do espírito.[38]


Intercessão de estilos e de suportes. Desde o período carolíngio, era comum aos mestres artesãos utilizarem imagens pintadas em códices como base formal, estilística e temática para suas produções em pintura mural ou em madeira e, sobretudo, nos vitrais.[39] A arte radiante do gótico esvaziou as paredes das catedrais para dar espaço às rosáceas e aos vitrais multicoloridos e translúcidos. Luz na arquitetura.

Desta forma, a pintura mural, foi, paulatinamente, relegada ao segundo plano. No séc. XIII, o gótico se impõe na Europa Ocidental como um estilo inter-regional. Internacional. No entanto, o advento de um estilo artístico não sugere a total queda de outro. Na Espanha, este estilo conviveu com as manifestações do românico e da arte muçulmana.[40]

Bem, notemos, contudo, que na Figura 5 o hábil e corajoso pintor pinta as imagens da Virgem e do diabo nas paredes entre os arcos. Sobrevivência de uma prática da pintura românica, a pintura mural, em um espaço-tempo já considerado gótico no qual os vitrais se sobressaíram. A cidade como pano de fundo, os arcos ogivais, a ornamentação em lóbulos e os capitéis florais são distintivos da arte gótica, mas nem por isso, e a imagem confirma, o românico e suas características não seriam praticados.

Este relato de milagre da Virgem Maria ocorreu com um pintor que sempre retratou o diabo de modo grotesco. Este, um dia, perguntou-lhe por que fazia isso. O pintor explicou que o pintava assim porque ele era mau. O diabo, furioso, ameaçou matar o pintor e se retirou. Posteriormente, quando o pintor retratava uma imagem da Virgem no tímpano de um arco, o diabo fez um vento soprar contra o andaime sobre o qual o pintor estava de pé.[41] O pintor rogou proteção à Virgem. Antes de cair, Ela o deixou suspenso no ar, graças ao pincel que tocava a parede. As pessoas que ouviram o barulho do cadafalso cair no chão correram em socorro ao pintor. Depararam-se com o diabo derrotado, a fugir da igreja. Ao verem o pintor pendurado apenas por seu pincel, todos louvaram a Mãe de Deus.[42]


Figura 5: Cantigas de Santa Maria. Rei Afonso X de Leão e Castela. Séc. XIII. Biblioteca de El Escorial, Madri – Espanha (detalhe da iluminura).[43]


Cantiga 74: Como Santa Maria guareceu o pintor que o demo quisera matar porque o pintava feo.[44]


Ao pensarmos no mal, na maldade, instintivamente, pensamos em uma figura feia, horrenda.[45] Em contrapartida, o bem, a bondade, remete-nos a uma figura bem composta, bela. A fealdade e a beleza eram, para os medievais, representações de forças de espírito e de moral associadas aos vícios ou às virtudes. Para o pintor da imagem acima – bem como para o patrocinador da obra – Maria, por suas virtudes, deveria, obrigatoriamente, ser pintada bela. Aos fiéis que a contemplassem, esta, deveria demonstrar a beleza de ser virtuosa e boa. Em contraposição ao bem, o mal. O diabo, ser cruel, egoísta e disseminador dos vícios. A este, nada seria mais justo do que pintá-lo feio. Afinal, deveria causar ojeriza aos que o olhassem. Caráter moralizante das obras figurativas contidas nos santuários, que deveriam encaminhar os fiéis ao belo, ou seja, para o bem, afastando-os do feio, ou seja, do mal.

74

Como Santa Maria guareceu o pintor que o demo quisera matar porque o pintava feo


Como Santa Maria salvou o pintou que o diabo queria matar porque o pintava feio


Quen Santa Maria quiser deffender,

non lle pod' o demo niun mal fazer.


Quem Santa Maria quiser defender,

não lhe pode o diabo nenhum mal fazer.


E dest' un miragre vos quero contar

de como Santa Maria quis guardar

un seu pintor que punnava de pintar

ela muy fremos' a todo seu poder.


E disto um milagre vos quero contar

de como Santa Maria quis guardar

um pintor seu que se esforçava por pintá-la

muito formosa em todo o seu poder.


E ao demo mais feo d' outra ren

pintava el sempr'; e o demo poren

lle disse: «Por que me tẽes en desden,

ou por que me fazes tan mal parecer.


E o diabo mais feio que outra coisa

pintava ele sempre; e o diabo essa coisa

disse-lhe: “por que me despreza

ou por que me fazes tão mal parecer.


A quantos me veen?» E el diss' enton:

«Esto que ch' eu faço é con gran razon,

ca tu sempre mal fazes, e do ben non

te queres per nulla ren entrameter.»


a quantos me vêem? “E ele disse então:

“Isto que a ti eu faço é com grande razão,

porque tu sempre mal fazes e do bem não

te queres em nada se entreter.”


Pois est' ouve dit', o demo ss' assannou

e o pintor ferament' amẽaçou

de o matar, e carreira lle buscou

per que o fezesse mui çedo morrer.


Pois isto ouvi, o diabo se irritou

e o pintor feramente ameaçou

de o matar, e esforçou-se

para que muito cedo o fizesse morrer.


Porend' un dia o espreytou aly

u estava pintando, com' aprendi,

a omagen da Virgen, segund' oý,

e punnnava de a mui ben compõer,


Por isso um dia o espreitou ali

onde estava pintando, como aprendi,

a imagem da Virgem, segundo ouvi,

e se esforçava muito para a bem fazer,


Por que pareçesse mui fremos' assaz.

Mais enton o dem', en que todo mal jaz,

trouxe tan gran vento como quando faz

mui grandes torvões e que quer chover.


Para que parecesse muito formosa assaz

Mas, então, o diabo, em que todo mal jaz,

trouxe tão grande vento como quando faz

enormes trovões e quer chover.


Pois aquel vento na ygreja entrou,

en quanto o pintor estava deitou

en terra; mais el log' a Virgen chamou,

Madre de Deus, que o vẽess' acorrer.


Pois aquele vento na igreja entrou,

e tudo onde o pintor estava derrubou

em terra; mas logo ele a Virgem chamou,

Mãe de Deus, que o viesse acorrer.


E ela logo tan toste ll' acorreu

e fez-lle que eno pinzel se soffreu

con que pintava; e poren non caeu,

nen lle pod' o dem' en ren enpeeçer.


E ela rapidamente lhe socorreu

e fez-lhe com que no pincel se segurou

com o qual pintava; e, contudo, não pendeu

nem lhe pôde o diabo em nada empecer.