Metodologia ou bom senso? Iconografia na internet: Comentário ao Apocalipse do Beatus de Liébana

Atualizado: Ago 4

Resumo: Ao estudar algumas iluminuras de uma das mais famosas obras da Idade Média, o “Comentário do Apocalipse de São João” de autoria do Beatus de Liébana, deparei-me com três códices distintos. Foram produzidos com o mesmo título em três diferentes mosteiros espanhóis e as iluminuras tenham características estéticas e formais diferentes. Este estudo traz à tona duas questões: muitas vezes, no Google, as referências das imagens não são confiáveis e pesquisadores não apenas citam-nas incorretamente, como inserem em seus trabalhos imagens fora de seu recorte temporal ou geográfico. Ademais, este procedimento é um “método” ou trata-se apenas do uso de “bom senso” por parte dos pesquisadores? Metodologia ou bom senso, o fato é que as fontes iconográficas são fontes históricas tão importantes quanto as textuais e, por isso, devem ter o mesmo tratamento e forma na citação.

Palavras-chave: Iconografia; pesquisa; iluminura.


Resumen: Al estudiar algunas iluminaciones de una de las más famosas obras de la Edad Media, el "Comentario del Apocalipsis de San Juan" de autoría del Beatus de Liébana, me encontré con tres códices distintos. Se han producido con el mismo título en tres diferentes monasterios españoles y las iluminaciones tienen características estéticas y formales diferentes. Este estudio trae a la superficie dos cuestiones: muchas veces, en Google, las referencias de las imágenes no son confiables y los investigadores no sólo las citan incorrectamente, como insertan en sus trabajos imágenes fuera de su recorte temporal o geográfico. Además, este procedimiento es un "método" o se trata sólo del uso de "buen sentido" por parte de los investigadores? Metodología o buen sentido, el hecho es que las fuentes iconográficas son fuentes históricas tan importantes como las textuales y, por eso, deben tener el mismo tratamiento y forma en la cita.

Palabras clave: Iconografía; De la investigación; Iluminación.


Abstract: During the studying of the some illuminations in the one of the most famous works of the Middle Ages, the "Commentary on the Apocalypse of St. John" by Beatus de Liébana, I came across three different codices. They were produced with the same title in three different spanish monasteries and the illuminations have different aesthetic and formal characteristics. This study raises two questions: often, in Google, the references of the images are not reliable and researchers not only cite them incorrectly as also insert in their works images outside their temporal or geographical clipping. In addition, is this procedure is a "method" or is it just the use of "good sense" by the researchers? Methodology or good sense, the fact is that the iconographic sources are historical sources as important as the textual ones and, therefore, must have the same treatment and form in the citation.

Keywords: Iconography; search; Illuminated.


1 A Iluminura


A iluminura é um tipo de fonte iconográfica. É Desenhada e/ou pintada dentro de livros por artesãos chamados de “iluminadores” (do latim illuminare = iluminar)[2], produzida desde a época paleocristã por volta do séc. III. Não apenas livros religiosos foram iluminados na Idade Média, mas, a maior parte das obras que chegaram até nós se associava às cópias do Livro Sagrado ou de capítulos que faziam menção a ele: Saltérios e Comentários, entre outros. Porque a religião Cristã advém do livro, fez do livro sua religião e as iluminuras, gradativamente, adquiriram mais riqueza em seus materiais, técnicas e estética.[3]

No decorrer do período medieval, as iluminuras foram tão importantes quanto os textos aos quais se referiam segundo uma associação imagem-texto na qual um cooperava com o outro como elo entre o terrestre e o Celeste. A figuração sempre associada ao seu protótipo divino: Deus, Jesus, Maria ou os santos.[4]


2 As Cantigas de Santa Maria de Afonso X, séc. XIII


Meu objeto de estudo na graduação em História (com ênfase na História da Arte) são as iluminuras das Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X de Castela e Leão – Espanha, séc. XIII. Um corpus documental em galego-português medieval com relatos de milagres da Virgem Maria e canções em louvor a esta. O códice é formado por cerca de 420 registros textuais versificados, notações musicais, centenas de iluminuras e milhares de letras capitulares.[5]

O estudo desta fonte de tipos artísticos tão diversificados abre nossa perspectiva a respeito de outros temas relacionados. As imagens das iluminuras historiadas de página inteira das Cantigas de Santa Maria, por exemplo, são formadas por uma infinidade de elementos formais, iconográficos e arquitetônicos. Também são sui generis em seu formato: as iluminuras comportam de seis a oito vinhetas nas quais o relato textual da cantiga é representado em imagens.

Isso nos faz refletir que, embora os movimentos estéticos da atualidade tenham influenciado a Arte de tal forma que uma pintura pode conter apenas uma pequena pincelada, as pinturas medievais, geralmente são formadas por muitos elementos, pois, funcionavam também como “relatos visuais”. E como a Idade Média, em seus mais de mil anos de história, não foi um período estanque, a produção e cópias de manuscritos tiveram como característica a versatilidade, a criatividade e a imaginação. Os medievais não viam a história como nós, mas foram tão criativos quanto nós.


Figura 1: Cantigas de Santa Maria. Rei Afonso X de Leão e Castela, séc. XIII. Biblioteca de San Lorenzo. Complexo de El Escorial, Madri – Espanha. Cantiga 93: Relato de um milagre de Santa Maria (cura da lepra do filho de um burguês).[6]


3 As pesquisas de imagens na Internet


Este artigo relata minha experiência enquanto estudante de história e de pesquisas em imagens: as questões levantadas e os erros descobertos. O estudo de caso com o “Beatus de Liébana” será o suporte para abordar erros comuns na busca, utilização e referência de imagens por parte de pesquisadores. É um trabalho que levanta esta questão deixando-a em aberto se é um "método" ou simplesmente o uso de "bom senso" por parte dos pesquisadores de um modo geral. Ou seja, não é um artigo sobre História ou sobre Arte, mas que trata das práticas da pesquisa de imagens, principalmente, na internet.


Figura 2: googleimages.com


Segundo a profa. Maria Cristina Pereira,[7] “existe a necessidade de chamar a atenção para esses procedimentos errôneos na Internet. Buscar as imagens não é exatamente a prioridade, isso é imprescindível, mas é algo relativamente simples: buscar sites confiáveis, de boa qualidade e fazer comparações”.

O que é imprescindível e simples para a professora Cristina e bom senso para o professor Ricardo da Costa, ressalto nesta comunicação como algo fundamental na busca por imagens na internet, seja como ilustração do texto ou como uma fonte histórica a ser analisada. Os sites oficiais das instituições nas quais as imagens estão abrigadas (como bibliotecas e museus) são os mais confiáveis, pois neles as imagens têm maior qualidade e veracidade em suas características formais e pictóricas que em outros locais da internet.

4 O Beatus de Liébana, séc. VIII


Figura 3: Comentário do Apocalipse de São João. Beatus de Liébana. Séc. X. Mosteiro de San Miguel de Escalada (Leão) Espanha. Fólio 222, verso. Biblioteca do Pierpont Morgan Museum e no Museu Nova York. [8]


A Jerusalém Celeste com suas doze portas, cada uma delas ocupada por um dos apóstolos de Cristo ornada com uma pedra preciosa.[9]

Ao estudar algumas imagens de um dos mais famosos livros iluminados do período medieval, o Comentário do Apocalipse de São João, deparei-me com 03 códices diferentes no livro Obras maestras de la iluminación.[10] Todos com o mesmo autor, mas produzidos em locais e períodos diferentes. Muito mais se seguiu. Mesmo à primeira vista, é possível vermos como a iluminura do códice abrigado na biblioteca do Pierport Morgan Museum em comparação com a imagem da iluminura do códice abrigado no Arquivo da Catedral de Girona.


Figura 4: Comentário do Apocalipse de São João. Beatus de Liébana, séc. X. Mosteiro de San Salvador de Tábara (Zamora) Espanha, fólio 16, verso. Arquivo da Catedral de Girona, Espanha.[11]


Este livro também contém iluminuras representando a vida de Cristo. Aqui, a crucificação. No alto, a personificação do Sol e da Lua. Abaixo da cruz, o túmulo de Adão.[12]

Trinta e quatro manuscritos foram copiados entre os séculos IX e XIII a partir da compilação feita por um monge no séc. VIII no mosteiro de Liébana, na Espanha. O termo beato associa o autor desconhecido ao local da produção de sua obra para identificá-lo. Neste caso, o compilador do protótipo, o beato de Liébana. Para as cópias deste manuscrito feitas nos séculos posteriores usa-se o termo beatus.[13]

Ao pesquisar estas imagens apenas na internet não conseguimos chegar à mesma conclusão. Ou seja, as informações a respeito de uma fonte iconográfica, mesmo as de um site oficial, não são suficientes para que tenhamos um total conhecimento sobre a obra. O ideal é que continuemos a remexer os livros de Arte, Teoria da Arte, História e artigos afins para que tenhamos certeza sobre a correta utilização de uma determinada imagem em um trabalho acadêmico que se pretende sério.


5 A complexa pesquisa de imagens


Figura 5: Mosteiro de San Miguel de Escalada (Leão). Espanha, séc. X.


A professora Cristina, citada acima, ressalta a complexidade da pesquisa de imagens ao escrever sobre como lidar com o Beato de Liébana:


Falar em autoria do beato já levanta problemas. Não se conhece o nome desse monge, por isso é chamado, genericamente, de beato. Não existe apenas ‘um’ beato. Depois, a maioria (se não todos) os comentários não são dele. Ele os compilou apenas. É também muito comum (e eu falo disso em aula) que as obras, ao serem copiadas, tenham mudanças. Um pouquinho no texto, mas, muitíssimo nas imagens. Cada copia é única, podemos dizer. Não é a mesma concepção de livro, copia e obra que temos hoje.


Figura 6: Mosteiro de San Millan de La Cogolla (Castela). Espanha. Séc. IV.


Portanto, há diferença entre autor do livro (o beato) e a autoria de cada cópia. Ou seja, cada cópia teve um copista (muito provavelmente mais de um) e cada cópia teve um iluminador (também, muito provavelmente, mais de um). O copista, a princípio, não alterou o conteúdo do texto (mas não posso afirmar com certeza porque não fiz esse estudo comparativo).

O iluminador (ou iluminadores) com certeza fizeram alterações. Por isso, quando nos referimos a cópias medievais, podemos ressaltar que toda cópia é única. Cada cópia ganhou um ‘nome’ diferente dos estudiosos segundo o local onde foi descoberto, produzido ou está abrigado: Beatus de San Milan de Cogolla, Beatus de Tábara, Beatus da Pierpont etc. Isso reforça o caráter particular de cada obra.


Figura 7: Monastério de San Salvador de Tábara (Zamora). Espanha, séc. IX.


6 Conclusão


Relembro, por fim, as aulas da disciplina História da Arte I que a professora Cristina ministrou na UFES em 2009, antes de se mudar para a USP. Foi lá que a conheci e como sua aluna, uma das pessoas que literalmente suaram para fazer simples buscas e citações de imagens que buscávamos na Internet a pedido dela. A professora (lembro-me bem) passou o semestre inteiro nos ensinando como buscar, utilizar, citar, descrever e analisar imagens em suas 06 avaliações. Muitos de nós passaram horas na internet e rodeados de livros para ter certeza que utilizávamos bem em nossos trabalhos apenas uma ou duas imagens.“Não é questão de metodologia, mas sim de ‘procedimento metodológico’, do primeiro passo que deve ser dado em qualquer pesquisa, que é o tratamento das fontes (verificar procedência etc.)” escreve a professora Cristina.


Figura 8: Comentário do Apocalipse de São João. Beatus de Liébana, séc X, Mosteiro de San Millan de La Cogolla (Castela), Espanha. Fólio 120, frente. Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri - Espanha.[14]


Iluminura referente ao texto do Apocalipse 14, 14. “Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice afiada”.[15]

Por fim, enfatizo que, metodologia ou bom senso, o fato é que as fontes iconográficas necessitam ocupar o lugar que lhes cabe como fontes históricas tão importantes quanto as textuais e, portanto, precisam da mesma atenção ao serem utilizadas e citadas.


*Se precisar citá-lo, ter como referência:

DANTAS, BÁRBARA. METODOLOGIA OU BOM SENSO? Fontes iconográficas na internet. Estudo de caso: Comentário do Apocalipse de São João. Beato de Liébana, séc. VIII, Espanha. In: II ENCONTRO DISCENTE DE HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL. Niterói: UFF, 2012. Na internet em: https://www.barbaradantas.com/post/metodologia-ou-bom-senso-iconografia-na-internet-coment%C3%A1rio-ao-apocalipse-do-beatus-de-li%C3%A9bana


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Notas:

[1] Graduada em História e Mestre em História da Arte pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

[2] DICIONÁRIO Latim-português/português-latim. Porto: Portugal, 2010.

[3] WOLF, W; WALTHER, I. “Introducción.” In: Obras maestras de la iluminación. Los manuscritos más bellos del mundo desde el año 400 hasta 1600. Colônia: Alemanha, 2005.

[4] BASCHET, J. “A expansão ocidental das imagens.” In: A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006.

[5] AFONSO X, o Sábio. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. Madri: Castalia, 1986-1989, 4 v.

[6] AFONSO X, op. cit., 1989.

[7] Aula de História da Arte. USP, 2012.

[8] Disponível em: www.themorgan.org.

[9] WOLF; WALTHER, op. cit., 2005.

[10] WOLF; WALTHER, op. cit., 2005.

[11] Disponível em: www.catedraldegirona.org

[12] WOLF; WALTHER, op. cit., 2005.

[13] FAVORETO, F. P. Beatus de Facundus: um estudo da ornamentalidade das cores. Comunicação apresentada no XIII CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA MEDIEVAL. Vitória: UFES, 2011.

[14] WOLF; WALTHER, op. cit., 2005.

[15] BÍBLIA SAGRADA. “Apocalipse 14,14.” In: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

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Bárbara

Dantas

Historiadora

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