A pedra edifica a fé mariana: a Cantiga 53 das Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X

Atualizado: 5 de out.

Bárbara Dantas


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

DANTAS, Bárbara. " Soissons: a pedra edifica a fé mariana (a Cantiga 53 das Cantigas de Santa Maria de Afonso X)." In: COSTA, Ricardo da (org.). Mirabilia Journal 32, 2021/1, p. 154-166. Disponível em: https://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/07._barbara.pdf e https://www.barbaradantas.com/post/soissons-a-pedra-edifica-a-f%C3%A9-mariana-a-cantiga-53-das-cantigas-de-santa-maria-do-rei-afonso-x


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Resumo: Afonso X, soberano dos reinos peninsulares de Leão e Castela, honrou a fama dos reis do Ocidente medieval do século XIII e dedicou muito de seu tempo e dinheiro para promover as artes, as ciências e o culto mariano. Uma das formas de unir todas essas iniciativas foi a criação das Cantigas de Santa Maria, um conjunto de centenas de histórias de milagres e de louvores à Virgem Maria, nas quais se registram outras centenas de iluminuras de página inteira. Este trabalho centrar-se-á no Cantiga 53 e pretende mostrar o desenvolvimento técnico implementado pelos arquitetos góticos, bem como o sincretismo entre os reinos francês e peninsular no que diz respeito à arquitetura da catedral, a exemplo da Catedral de Soissons.


Resumen: Alfonso X, soberano de los reinos peninsulares de León y Castilla, honró la fama de los reyes del Occidente medieval del siglo XIII y dedicó gran parte de su tiempo y dinero a la promoción de las artes, de las ciencias y del culto mariano. Una de las formas de unir todas estas iniciativas fue la creación de las Cantigas de Santa María, un conjunto de cientos de relatos de milagros y alabanzas a la Virgen María, en el que se registran otras cien iluminaciones a página completa. Este trabajo se centrará en la Cantiga 53 y tiene como objetivo mostrar el desarrollo técnico implementado por los arquitectos góticos, así como el sincretismo entre los reinos francés y peninsular en lo que respecta a la arquitectura catedralicia por el ejemplo de la Catedral de Soissons


Abstract: Alfonso X, sovereign of the peninsular kingdoms of León and Castilla, honored the fame of the kings of the medieval West of the 13th century and dedicated much of his time and money to promoting the arts, sciences and Marian cult. One of the ways to unite all these initiatives was the creation of the Cantigas de Santa María, a set of hundreds of stories of miracles and praises to the Virgin Mary, in which another hundred full-page illuminations are recorded. This work will focus on Cantiga 53 and aims to show the technical development implemented by gothic architects, as well as the syncretism between the French and peninsular kingdoms with regard to cathedral architecture, for the example of Soissons Cathedral.


Palavras-chave: Afonso X - Cantigas de Santa Maria - Idade Média - Catedral de Soissons - Villar de Honnecourt.


Keywords: Alfonso X − Cantigas de Santa María – Middle Ages − Soissons Cathedral - Villar de Honnecourt.


Palabras-clave: Alfonso X − Cantigas de Santa María – Edad Media – Catedral de Soissons - Villar de Honnecourt.


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I. Afonso X e o século XIII


O Ocidente medieval atingiu seu ápice cultural, técnico e político no século XIII. Foi nessa centúria que grande parte das mais espetaculares catedrais góticas foram erigidas devido à evolução técnica das construções implementada por arquitetos como Villard de Honnecourt (1220-1250), e pela utilização de novos materiais, como a vidraria; além disso, foram monarcas como Luís IX, (1214-1270), de França, que promoveram aquela vastidão de obras direcionadas a vários fins, em especial, o religioso. Entre os ibéricos, o soberano dos reinos de Leão e Castela ganhou a alcunha de sábio devido ao seu apreço pelas ciências e pelas artes. Afonso X, o Sábio (1252-1284) foi literalmente o arquiteto que projetou e viabilizou todo um programa de mecenato direcionado à tradução de textos antigos, à construção de santuários e à criação de códices iluminados com temas que variaram entre jogos, ciência, astrologia, arte e religiosidade. Considerada por Joseph O’Callaghan (1928-) como a biografia espiritual do rei castelhano, as Cantigas de Santa Maria são relatos de milagres e louvores em honra à Virgem Maria. Os códices da obra completam cerca de 420 canções, entre as quais, centenas de iluminuras de página inteira, milhares de letras capitulares, além de notações musicais.


II. A Cantiga 53 das Cantigas de Santa Maria


Este trabalho analisará pela via da relação imagem-texto algumas peculiaridades presentes na fonte textual e na fonte imagética da Cantiga 53: respectivamente, o relato de milagre versificado em galego-português medieval e a sua iluminura historiada de página inteira. Abaixo, a interpretação em prosa do relato do milagre; seguido do extrato original, versificado em galego português medieval.

A Cantiga 53 conta a respeito de um jovem pastor que sofria com a doença conhecida como Fogo de São Marçal:


Aflita, sua mãe o levou à igreja de Soissons. Lá, deitou-o diante do altar da Virgem e, após uma noite de vigília, o menino estava curado. Depois de um ano, o pastorzinho quis ao santuário retornar, mas sua mãe não, então, ele disse que se não retornassem à igreja da Virgem seria novamente atormentado pela doença atroz. Mal acabou de falar, acometeu-o tal dor que pulou no colo da mãe aos gritos. Com pressa, a mãe com o menino no colo seguiu a pé em direção à igreja. Logo que o deitaram diante do altar da Virgem, o menino adormeceu e, em visão, sentiu a presença da Virgem. Sua alma foi ao paraíso, presenciou a santa pedir ao seu Filho misericórdia pelo pastorzinho, por todos que sofriam com o ‘Mal do Fogo’ e mais: a Virgem disse a Deus que a capela de Soissons era pobre e, por isso, pediu uma melhor. Deus, em sua sabedoria, concedeu ao menino a graça de falar latim e de explanar todo o texto das Sagradas Escrituras. Assim, de muitos lugares vieram peregrinos para ver o pastorzinho que sabia o Antigo e o Novo Testamento. Todos que o ouviram deram graças pelo milagre e ajudaram na construção do novo santuário em homenagem à Virgem Maria.


E oyu mais que a Virgen diss' a Deus esta razon:

«Fillo, esta mia capela que é tan pobr' en Seixon,

fas tu que seja ben feita.» E el lle respos enton:

«Madr', eu farei y as gentes vĩir ben dalend' o mar.


De Santa Maria é

prazer que esta igreja façades mui ben obrar.


Todos quantos est' oyron | deron graças e loor

aa Virgen groriosa, Madre de Nostro Sennor;

e acharon en verdade quanto diss' aquel pastor,

e começaron tan toste na eigreja de lavrar. [1]


E ouviu o que a Virgem disse a Deus sobre um problema:

“Filho, esta minha capela em Soissons é tão necessitada,

faças tu com que sejas bem-feita.” Então, respondeu a ela:

“Mãe, eu farei as multidões virem aqui até do Além-mar”.


De Santa Maria é

desejo que construa muito bem esta igreja.


Todos que a isso ouviram deram graças e louvor

à Virgem gloriosa, Mãe de Nosso Senhor.

Consideraram verdade tudo que disse aquele pastor

e começaram logo na igreja trabalhar.


Imagem 1

Afonso X. Códice Rico. Iluminura historiada de página inteira da Cantiga 53 das Cantigas de Santa Maria.[2] Fonte: Arquivo pessoal.


Imagem 2

Vinheta 06 da iluminura da Cantiga 53.


Na Imagem 2, à direita, um canteiro de obras similar ao que Afonso X e seus iluminadores imaginavam representar a Catedral de Soissons, na França. Na vinheta, enquanto o pastorzinho encantava a multidão com suas palavras vindas das Sagradas Escrituras, as atividades de ampliação arquitetônica do santuário aconteciam.

Um elemento arquitetônico nos sugere que o santuário está, efetivamente, em obras: os arcos inacabados localizados na parte superior, um à esquerda, outro à direita. Os obreiros representados na imagem trabalham conforme o desejo dos intelectuais que idealizaram a obra. A inspiração surgiu, provavelmente, a partir do intuito de materializar as palavras de Agostinho nas quais os princípios de ordem matemática se associam aos da estética:


Os artistas humanos possuem, em sua própria mente, números de todas as belezas corporais para conformar a eles as suas obras. Com as mãos e os instrumentos, eles trabalham até que o objeto que modelam exteriormente seja relacionado com a luz interior que possuem dos seus números.[3]


III. Os doutores em pedra


“Mãe, eu farei as multidões virem aqui até do Além-mar”, disse Cristo à Maria na Cantiga 53. A ampliação e renovação de santuários perduraram durante toda a Idade Média devido às necessidades de uma religião que envolvia um número cada vez maior de adeptos e que precisava demonstrar seu poder por meio do esplendor. A Europa medieval imergiu em inúmeros canteiros de obras.


Imagem 3

Eugène Viollet-le-Duc. Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle. Fonte: VIOLLET-LE-DUC, op. cit., 1868, p. 30. Internet: https://archive.org/stream/raisonnedelarchi01viol#page/30/mode/1up/search/30

Nesse relato de milagre, Maria pediu a Cristo que “faças tu com que sejas bem-feita” a igreja. Os materiais que sustentaram os santuários medievais foram a pedra e o tijolo e, na miríade de reinos que compunham o Ocidente medieval, existiram diferentes formas de trabalhar com estes componentes.

A Imagem 3 mostra uma página do compêndio de estudos de Arquitetura medieval e renascentista realizado por Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879), estudioso dos mais singelos detalhes que envolveram a arte construtiva em tempos longínquos.

Os franceses, idealizadores do gótico, utilizaram a pedra como material primordial em suas obras.[4] A junção da cantaria em arcos de tal envergadura que desafiam as leis da física enaltece o talento dos canteiros (trabalhadores que lidavam com grandes pedras). Séculos atrás, já trabalhavam com encaixes de pedras como sugere os esquemas de junção de pedras para a construção da base de uma coluna gótica ou de união delas com o uso do cal.[5]

“Desejo que construa muito bem esta igreja”, conta a Cantiga 53. Nesse sentido, o arquiteto francês Villard de Honnecourt, um dos “doutores em pedra”,[6] observou algumas construções contemporâneas a ele e registrou por meio de textos e esquemas arquitetônicos as suas impressões: um desses registros é o estudo que realizou da Catedral de Lausanne (1235).


Imagem 4

Álbum de Villar de Honnecourt. Século XIII. Detalhe da Virgem com o Menino e uma rosácea. Internet: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6212475p/f411.item.r=villar%20de%20honecourt


O manuscrito do arquiteto da Picardia, região norte da França, é um dos maiores tesouros que a Idade Média legou aos tempos vindouros, está pleno de uma ciência na qual os sistemas geométricos proporcionais e harmônicos se unem em bela concórdia. O desenho acima mostra a Virgem com o Menino em traços bem naturais e emotivos e, abaixo, uma rosácea da catedral gótica de Lausanne com especial atenção à cantaria que sustenta, envolve e ornamenta todo o conjunto (Imagem 4).


Imagem 5

Álbum de Villar de Honnecourt. Século XIII. Pedra moldada para pilares e janelas. Internet: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6212475p/f411.item.r=villar%20de%20honecourt


Os “gabletes” e os “arcos polilobados”[7] das janelas são ornamentação em pedra (Imagem 5), assim como a rosácea com seus lóbulos e círculos. Para completar, a luz dos vitrais coloridos enche de graça esta composição petrificada, mas de uma leveza visual inebriante.

Villard de Honnecourt foi um arquiteto que nasceu na região norte da França. Soissons é uma cidade do norte francês. Tanto ao arquiteto francês quanto a Afonso X, parece que foi ímpar a beleza das obras góticas desta região francesa. Honnecourt registrou em seu famoso manuscrito esquemas arquitetônicos das catedrais de Colônia e de Lausanne: a primeira, na Alemanha e, a segunda, no território onde hoje está a Suíça, regiões próximas ao norte de França e que adotaram a estética francesa gótica.


IV. A Catedral de Soissons


Imagem 6

Catedral de Soissons. Transepto. Século XII. França.


Na Imagem 6, a arquitetura translúcida e luminosa da Catedral de Soissons (Cathédrale Saint-Gervais-et-Saint-Protais de Soissons), santuário da Cantiga 53. Observa-se a organizada união da cantaria e a luminosidade das janelas e da rosácea de grandes dimensões. A despeito da conclusão da construção ocorrer somente no século XV, o lançamento da pedra inaugural ocorreu ainda no século XII. Na época de Afonso X e de Villard De Honnecourt, cerca de 100 anos depois do início dos trabalhos, grande parte do santuário já estava concluído e, dessa forma, a igreja já era motivo de admiração entre leigos, religiosos e arquitetos. [8]

A fama das catedrais do norte francês chegou ao norte, à Colônia e Lausanne.[9] Também chegou ao sul, na Espanha. Em especial, ao reino de Leão e Castela. Afonso X a registrou na Cantiga 53 das Cantigas de Santa Maria, uma homenagem aos trabalhos de edificação e disseminação da fé mariana, de norte a sul, no Ocidente medieval. Neste viés, Erwin Panofsky (1892-1968) nos lembra a respeito da reforma e ampliação na Abadia de Saint-Denis (1135), na Île-de-France, levadas a cabo pelo abade Suger. O abade, provavelmente, não imaginou que sua iniciativa criaria uma estética artística: o gótico.


Conclusão


Embora as estradas medievais não fossem exemplos de eficácia e segurança, isso não impediu que os arquitetos levassem seu oficio e saber para diferentes localidades, como vimos no exemplo de Honnecourt, o “doutor em pedra” que registrou suas impressões das catedrais góticas de diversas cidades, entre elas, Lausanne. Da mesma forma, a religiosidade e suas manisfestações materiais, como a arte, também viajaram pelos caminhos tortuosos das vias medievais e possibilitaram o encontro entre as expressões artísticas francesas e castelhanas, as Cantigas de Santa Maria são uma prova disso. Naquele tempo em que a arquitectura tentava se sobrepor ao tempo, desejava ser imortal, ou um arquétipo da Jerusalém Celeste de Agostinho, os arquitetos e seus desenvolvimentos técnicos foram os meios pelos quais os medievais tornaram a passagem do homem na Terra perene e grandiosa.


Fontes


AFONSO X, o Sábio. Cantigas de Santa Maria. Edição fac-símile do Códice T.1.1 da Biblioteca de San Lorenzo El Real de El Escorial. Séc. XIII. Madri: Edilán, 1979.

AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995.

HONNECOURT, Villar de. Álbum de Villar de Honnecourt. Século XIII. Internet: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6212475p/f411.item.r=villar%20de%20honecourt

VIOLLET-LE-DUC, Eugène. Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle. 10. V. Paris - França: Bance & Morel, 1854-1868. Internet: https://archive.org/stream/raisonnedelarchi01viol#page/30/mode/1up/search/30


Bibliografia


AFONSO X, o Sábio. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. Madri: Castalia, 1986.

DUBY, Georges. História artística da Europa: a Idade Média. Tomo I. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

FOCILLON, Henri. Le moyen âge gothique. Paris: Libraire Armand Colin, 1965.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1976.

TOMAN, Roman. O Gótico: arquitetura, escultura e pintura. Colônia: Könemann, 1998.

TOMAN, Roman. O Românico: arquitetura, escultura e pintura. Colônia: Könemann 2000.

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[1] AFONSO X, o Sábio. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. Madri: Castalia, 1986, p. 186-187; 45-48; 62-63; 70-73. [2] AFONSO X, o Sábio. Cantigas de Santa Maria. Edição fac-símile do Códice T.1.1 da Biblioteca de San Lorenzo El Real de El Escorial. Séc. XIII. Madri: Edilán, 1979. [3] AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995, p. 16. [4] FOCILLON, Henri. Le moyen âge gothique. Paris: Libraire Armand Colin, 1965, p. 11. [5] VIOLLET-LE-DUC, Eugène. Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle. 10. V. Paris – França: Bance & Morel, 1854-1868, p. 49. [6] DUBY, Georges. História artística da Europa: a Idade Média. Tomo I. São Paulo: Paz e Terra, 1995, p. 83. [7] Arco polilobado: “arcos cujas vigas mestras não são contínuas, mas que, por sua vez, formam pequenos arcos.” TOMAN, Roman. O Românico: arquitetura, escultura e pintura. Colônia: Könemann 2000, p. 205. [8] TOMAN, Roman. O Gótico: arquitetura, escultura e pintura. Colônia: Könemann,1998, p. 44. [9] “Será que Suger percebeu que, ao concentrar artistas ‘de todas as partes do reino’, inaugurava, na então relativamente deserta Île-de-France, aquela grande síntese seletiva de todos os estilos regionais franceses que chamamos de gótico?” PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1976, p. 188.


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