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Traduções e iluminuras historiadas de página inteira das Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X (século XIII)

Foto do escritor: Autora | Bárbara Dantas
Autora | Bárbara Dantas
22 de jun. de 2024
28 min de leitura

Atualizado: 22 de ago.

Se quiser citar, tê-lo como referência, usar:

DANTAS, Bárbara. Traduções das Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X. História & Arte. 2024-2026.


Esta publicação tem como objetivo disponibilizar de forma mais acessível traduções já publicadas em trabalhos acadêmicos dos textos em galego-português para o português atual dos louvores e dos relatos de milagres que fazem parte do códice afonsino nomeado como as Cantigas de Santa Maria. À medida que forem publicados, cada um dos textos serão aqui acrescentados. De fato, é um trabalho a longo prazo, pois o manuscrito encomendado por D. Afonso, em homenagem à Virgem Maria, possui mais de quatro centenas de canções escritas em galego-português, no formato de verso, acompanhadas de milhares de Letras Capitulares e centenas de iluminuras historiadas de página inteira.


As traduções tentam acompanhar a versificação do texto, o mais próximo possível, tanto da fidedignidade ao original em galego-português quanto ao bom entendimento no português hodierno. Para isso, utilizei como parâmetro formal e como referência teórica a profunda análise dos quatro volumes da obra do filólogo alemão Water Mettmann, publicada entre os anos de 1986 e 1989 pela Editora Castalia, de Madri, na Espanha. Segundo o próprio, a grandiosa obra do rei Afonso possui três parâmetros linguísticos: "el contar, trobar y rimar". No que se refere à Maria, as centenas de canções celebram seu poder como "auxiliadora, medianera y procuradora [...] nos asiste como aviogada y padrõa, vence al diablo, repara las injusticias y las consecuencias de la caída de los primeros padres y nos muestra el camino derecho".


Cf. ALFONSO X, EL SÁBIO. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. Madrid: Castalia, 1986-1989, 4 v.


Outra ferramenta teórica largamente utilizada para esta opublicação é o trabalho disponibilizado pela Universidade de Lisboa, o Projeto Littera, que abrange aspectos relacionados com Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, em especial, o rico glossário.


Cf. GLOSSÁRIO. Cantigas Medievais Galego-portuguesas. Projeto Littera - FCSH. 2011-2012. Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.


Para melhorar a compreensão dos textos, antes de grande parte das traduções dos louvores e dos relatos de milagres, haverá um resumo em prosa de cada cantiga. Tais resumos fazem parte do belo trabalho "Cantigas de Santa Maria Data Base", da universidade de Oxford. São publicados em inglês, cuja tradução em português estará disponível aqui.


Cf. OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023.


Para enriquecer a apreensão dos textos, cada tradução terá a companhia de sua correspondente iluminura historiada de página inteira.


Desejo a todos excelentes momentos junto às Cantigas do Rei Sábio!

Bárbara Dantas


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PRÓLOGO A


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

DANTAS, Bárbara. “A música nas Cantigas de Santa Maria.” Trabalho apresentado na IV Semana de pesquisa em música da Faculdade de Música do Espírito Santo-FAMES, Vitória, 2014. Revista de Pesquisa em Música da FAMES, v. 6, n. 6, Vitória-ES: DIO/ES, 2015, p. 13-19. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/f%C3%A9-cantada-a-m%C3%BAsica-nas-cantigas


Don Afonso de Castela,

de Toledo, de Leon

Rei e ben des Compostela

ta o reyno d' Aragon,

Don Afonso de Castela,

de Toledo, de Leão

Rei e benfeitor desde Compostela

até o reino de Aragão,

De Cordova, de Jahen,

de Sevilla outrossi,

e de Murça, u gran ben

lle fez Deus, com' aprendi,

De Córdova, de Jaén

de Sevilha também[1]

e de Murcia, onde um grande bem

lhe fez Deus, como ouvi,


[1] Fernando III, pai de Afonso X, foi um dos maiores chefes militares cristãos da Reconquista Ibérica (séc. VIII ao XV). Conquistou e legou ao seu filho Córdoba em 1236, Jaén em 1246 e Sevilha em 1248. Fernando III conquistou Múrcia em 1244 e Afonso, ainda infante, estabeleceu a fronteira entre o reino de Múrcia e o reino de Aragão. Ver em: O’CALLAGHAN, Joseph F. El Rey Sabio. El reinado de Alfonso X de Castilla. Sevilla: Universidad de Sevilla, 1999, p. 35.

Do Algarve, que gãou

de mouros e nossa ffe

meteu y, e ar pobrou

Badallouz, que reyno é

Do Algarve, onde ganhou

de mouros e nossa fé

impôs ali. E, ainda, povoou

Badajoz, que um reino é

Muit' antigu', e que tolleu

a mouros Nevl' e Xerez,

Beger, Medina prendeu

e Alcalá d' outra vez,

Muito antigo, e que tomou

dos mouros Niebla e Jerez,

Vejer, Medina prendeu

e Alcalá, noutra vez,[1]


[1] Afonso X conquistou Niebla em 1262. Jerez de la Frontera, Vejer de la Frontera e Medina Sidonia, em 1264.  Alcalá de los Gazules (Cádiz) pagava um tributo (paria) ao pai de Afonso X, Fernando III. Em 1263, Afonso X conquistou Cádiz. Ver em: AFONSO X, o Sábio. Prólogo B. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. V. I. Madri: Castalia, 1986, p. 53. Também em: RUCQUOI, Adeline. História Medieval da Península Ibérica. Lisboa: Estampa, 1995, p. 171.

E que dos Romãos Rey

é per dereit' e Sennor,

este livro, com' achei,

fez a onrr' e a loor

E que dos romanos rei

é por direito e Senhor,

este livro, como pensei,

fez em honra e louvor

Da Virgen Santa Maria,

que éste Madre de Deus,

en que ele muito fia.

Poren dos miragres seus

Da Virgem Santa Maria,

que é Mãe de Deus.

em que ele muito confia.

Por isso, dos milagres seus

Fezo cantares e sões,

saborosos de cantar,

todos de sennas razões,

com' y podedes achar.

Fez canções e sons

soborosos de cantar,

todos de boas razões,

como aqui podes achar.

Tradução: Bárbara Dantas


Afonso X. Prólogo A. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).


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CANTIGA 4


*Se precisar citar este texto, tê-lo como referência, utilize o formato a seguir:


DANTAS, Bárbara. Des oge mais quer' eu trobar pola sennor onrrada: a iconografia e os motivos arquitetônicos nos textos das Cantigas de Santa Maria. In: Anais do XVI Simpósio regional de História da ANPUH-RJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2014, Rio de Janeiro, p. 316-328.


COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. "Cantigas de Santa Maria de Afonso X: Análise comparativa entre texto e imagem da Cantiga 04." In: FERREIRA, Álvaro Mendes (org.) et al. Problematizando a Idade Média. Niterói: Ed. UFF/PPGHISTÓRIA, 2014, p. 16-34.


RESUMO: Um menino judeu chamado Abel, filho de um vidreiro, frequentava a escola com cristãos. Na Páscoa, foi à igreja com os outros alunos e viu o abade dar-lhes a comunhão. Parecia-lhe que a Virgem no altar lhes dava o sacramento. Ele fez fila para receber a comunhão e a Virgem deu a ele. Ele voltou para casa e contou ao pai o que fizera. Seu pai ficou furioso e o jogou na fornalha. Sua mãe, Rachel, gritou e correu para a rua. As pessoas vieram em seu auxílio. A Virgem protegeu o menino no meio das chamas, assim como seu Filho protegeu Hananias, Azarias e Misael [na fornalha ardente]. O menino judeu foi batizado imediatamente, sua mãe converteu-se ao cristianismo e seu pai foi jogado na fornalha.

Cf. AFONSO X. A madre do que livrou/ dos leões Daniel. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).


Esta é como Santa Maria guardou ao fillo do judeu que non ardesse, que seu padre deitara no forno

Esta [cantiga] é como Santa Maria guardou o filho do judeu para que não ardesse, que seu pai colocara no forno

refrão

A Madre do que livrou

 dos leões Daniel,

essa do fogo guardou

 un menỹo d'Irrael.

A Mãe do que livrou

 dos leões Daniel,

 essa do fogo guardou

 um menino de Israel.


En Beorges un judeu

 ouve que fazer sabia

vidro, e un fillo seu

-ca el en mais non avia,

per quant' end' aprendi eu-

ontr' os crischãos liya

 na escol'; e era greu

a seu padre Samuel.

Em Bourges[1], um judeu

havia que sabia fazer

vidro, e um filho seu

-porque ele mais não tinha,

pelo quanto a respeito eu aprendi -

entre os cristãos lia

na escola; o que era penoso

a seu pai, Samuel.


[1] Bourges, comuna francesa. – ALFONSO X, EL SÁBIO. “Glosario.” Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1989, p. 469; Id. “Cantiga 4.” Ibid., 1986, p. 63.

O menỹo o mellor

leeu que leer podia

 e d'aprender gran sabor

ouve de quanto oya;

e por esto tal amor

con esses moços collia,

con que era leedor,

que ya en seu tropel.

O menino o melhor

leu que ler podia

e de aprender grande sabor

tinha de quanto ouvia;

e, por esse tal amor

com esses moços conseguia,

com que era leitor,

já em seu grupo.

Poren vos quero contar

o que ll' avẽo un dia

de Pascoa, que foi entrar

 na eygreja, u viia

o abad' ant' o altar,

e aos moços dand' ya

ostias de comungar

e vy' en un calez bel.

Portanto, desejo vos contar

o que lhe aconteceu em um dia

de Páscoa, em que foi entrar

na igreja, onde via

o abade ante o altar,

e aos moços dando já

hóstias de comungar

e vinho em um cálice belo.

O judeucỹo prazer

ouve, ca lle parecia

que ostias a comer

lles dava Santa Maria,

que viia resprandecer

eno altar u siia

e enos braços tẽer

seu Fillo Hemanuel.

O judeuzinho prazer

teve, porque lhe parecia

que hóstias a comer

lhes dava Santa Maria,

 que via resplandecer

 no altar, onde estaria

e nos braços trazia

seu filho Emanuel.[1]


[1] “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco”. – Mateus (Mt 1: 23). In: BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2013, p. 1704.

Quand' o moç' esta vison

vyu, tan muito lle prazia,

que por fillar seu quinnon

ant' os outros se metia.

Santa Maria enton

 a mão lle porregia,

e deu-lle tal comuyon

que foi mais doce ca mel.

Quando o moço esta visão

viu, tanto muito lhe aprazia,

que por pegar seu quinhão

antes dos outros se metia.

Santa Maria, então

A mão lhe estendia,

E deu-lhe tal comunhão

Que foi mais doce que o mel.

Poi-la comuyon fillou,

logo dali se partia

e en cas seu padr' entrou

como xe fazer soya;

e ele lle preguntou

 que fezera. El dizia:

 «A dona me comungou

que vi so o chapitel.»

Pois a comunhão pegou,

logo dali se partia

e em casa seu pai entrou

como ele de costume fazia;

e ele lhe perguntou

o que fizera. Ele dizia:

“A Senhora me comungou

Mas, eu só vi o capitel”.[1]


[1] Capitel: parte superior de coluna ou pilar, geralmente estilizada ou decorada. Em cima do capitel se colocavam esculturas. – BRACONS, José. Saber ver a arte gótica, op. cit., p. 79.

O padre, quand' est' oyu,

creceu-lli tal felonia,

que de seu siso sayu;

e seu fill' enton prendia,

e u o forn' arder vyu

meté-o dentr' e choya

o forn', e mui mal falyu

como traedor cruel.

O pai, quando isto ouviu,

cresceu-lhe tal felonia,

que de seu juízo saiu;

e seu filho, então, prendia,

e onde o forno arder viu

meteu-o dentro e fecharia

o forno, e mui mal agiu

como traidor cruel.

Rachel, sa madre, que ben

 grand' a seu fillo queria,

cuidando sen outra ren

que lle no forno ardia,

deu grandes vozes poren

e ena rua saya;

e aque a gente vem

ao doo de Rachel.

Rachel, sua mãe, que bem

grande a seu filho queria,

cuidando sem demora

que ele no forno ardia,

deu grandes gritos, portanto

e na rua saía;

e eis que a pessoas veem

a dor de Rachel.

Pois souberon sen mentir

 o por que ela carpia,

foron log' o forn' abrir

en que o moço jazia,

que a Virgen quis guarir

como guardou Anania

Deus, seu fill', e sen falir

Azari' e Misahel.

Pois souberam sem mentir

o por que ela carpia,

foram logo o forno abrir

em que o moço jazia,

que a Virgem quis guarir

como guardou Ananias

Deus, seu filho, e sem falhar

Azaria e Misael.[1]


[1] “Ananias, Azarias e Misael, bendigam o Senhor; louvem e exaltem o Senhor para sempre. Porque ele nos tirou da mansão dos mortos e nos salvou do poder da morte; livrou-nos da chama da fornalha ardente e retirou-nos do meio do fogo”. – DANIEL (Dn 3: 88). In: BÍBLIA de Jerusalém, op. cit., p. 1560.

O moço logo dali

 sacaron con alegria

 e preguntaron-ll' assi

 se sse d'algun mal sentia.

Diss' el: «Non, ca eu cobri[1]

o que a dona cobria

que sobelo altar vi

con seu Fillo, bon donzel.»


[1] “Cobrir tiene aquí el sentido de ‘ponerse, vestir’.” – ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 4.” Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 66, nota 4.

O moço logo dali

sacaram com alegria

e lhe perguntaram assim

se de algum mal sentia.

Disse ele: “Não, porque eu [me] cobri

 com o que a dona [se] cobria

que sobre o altar vi

com seu Filho, boa donzela”.

Por este miragr' atal

log' a judea criya,

e o menỹo sen al

o batismo recebia;

e o padre, que o mal

fezera per sa folia,

deron-ll' enton morte qual

quis dar a seu fill' Abel.[1]


[1] Ibid., pp. 64-65. 

Por este tal milagre

logo a judia cria,

e o menino, sem demora,

o batismo recebia;

e o pai, que o mal

fizera por sua folia,

deram-lhe, então, morte qual

quis dar a seu filho Abel.[1]


[1] Tradução: Bárbara Dantas.

Afonso X. Cantiga 4. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).


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CANTIGA 7


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. “A arquitetura sagrada e a Natureza nas Cantigas de Santa Maria.” In: SANTOS, Bento Silva (org.). Mirabilia 20 (2015/1). Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 44-65. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/natureza-e-arquitetura-sagrada


RESUMO: Uma abadessa engravidou de seu mordomo. As freiras sob sua responsabilidade descobriram sua indiscrição e foram vingativas. Eles acusaram a abadessa ao seu bispo, que viajou de Colônia. Ele a convocou. Depois de se encontrar com o bispo, a abadessa rezou à Virgem. Maria apareceu para ela, como num sonho, e fez com que o bebê fosse entregue e enviado para Soissons para ser criado. A abadessa apareceu diante do bispo e ele a fez despir-se. Ele a declarou inocente e repreendeu as freiras.


Esta é como Santa Maria livrou a abadessa prenne, que adormecera ant' o seu altar chorando

Esta [canção conta] como Santa Maria livrou a abadessa grávida que adormecera diante de seu altar chorando

refrão

Santa Maria amar

devemos muit' e rogar

que a ssa graça ponna

sobre nos, por que errar

non nos faça, nen peccar,

o demo sen vergonna.

Santa Maria amar

devemos muito e rogar

que a sua graça ponha

sobre nós, para que errar

não nos faça, nem pecar,

o diabo sem vergonha.


Porende vos contarey

un miragre que achei

que por hũa badessa

fez a Madre do gran Rei,

ca, per com' eu apres' ei,

era-xe sua essa.

Mas o demo enartar

a foi, por que emprennnar

s' ouve dun de Bolonna,

ome que de recadar

avia e de guardar

seu feit' e sa besonna

Por isso, vos contarei

um milagre que achei

que por uma abadessa

fez a Mãe do grande Rei,

porque, como eu examinei

era-lhe sua essa.

mas, o demo enganar

 a foi, porque engravidar

se houve de um de Bolonha,

homem que de governar

havia e de guardar

seu caso e sua necessidade.

As monjas, pois entender

foron esto e saber,

ouveron gran lediça;

ca, porque lles non sofrer

queria de mal fazer,

avian-lle mayça.[1]

E fórona acusar

ao Bispo do logar,

e el ben de Colonna

chegou y; e pois chamar

a fez, vēo sen vagar,

leda e mui risonna.


[1] A palavra “mayça”, embora esteja na transcrição, não possui correspondente ou significado no Glossário de Mettmann. Tampouco existe em alguma língua. Mas, a palavra “meiça” existe em galego-português e se coaduna com o significado necessário ao termo. Cf. MEIÇA. GLOSSÁRIO. Cantigas Medievais Galego-portuguesas. Projeto Littera - FCSH. Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 2011-2012.

As monjas, pois foram perceber

isto e saber,

havendo grande lediça;

assim, porque elas sem sofrer

queriam mal fazer,

Havia nelas malícia.

E foram-na acusar

ao Bispo do lugar,

e ele bem de Colônia

chegou ali; e, pois, chamar

a fez, veio sem tardar,

leda e muito risonha.

O Bispo lle diss' assi:

«Dona, per quant' aprendi

mui mal vossa fazenda

fezestes; e vin aqui

por esto, que ante mi

façades end' emenda.»

O Bispo lhe disse assim:

“Dona, pelo quanto ouvi

muito mal vossa façanha

fizestes; e vim aqui

por isto, que ante mim

faças, a respeito disso, emenda”.

Mas a dona sen tardar

a Madre de Deus rogar

foi; e, come quen sonna,

Santa Maria tirar

lle fez o fill' e criar

o mandou en Sanssonna.

Mas a dona, sem demora

à Mãe de Deus rogar

foi; e como quem sonha

Santa Maria tirar

lhe fez o filho e criar

o mandou em Sansonna[1].


[1] Trata-se da cidade francesa de Soissons. – ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 7.” Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 76.

Pois s' a dona espertou

e se guarida achou,

log' ant' o Bispo vēo;

e el muito a catou

e desnua-la mandou;

e pois lle vyu o sēo,

começou Deus a loar

e as donas a brasmar,

que eran d'ordin d'Onna,

dizendo: «Se Deus m'anpar,

por salva poss' esta dar,

que non sei que ll'aponna.» [1]


[1] Ibid., pp. 75-76.

Tão logo a senhora despertou

e salva se achou,

logo ante o Bispo veio;

e ele muito a observou

 e desnudá-la mandou;

e, pois, viu-lhe o seio,

começou Deus a louvar

e as donas a blasfemar,

que eram da Ordem de San Salvador de Oña [Burgos],

dizendo: “Se Deus me amparar,

por salva possa esta dar,

que não sei o que lhe imputar”.[1]


[1] Tradução: Bárbara Dantas.

Afonso X. Cantiga 7. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal). 


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CANTIGA 8


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

DANTAS, Bárbara. “A música nas Cantigas de Santa Maria.” Trabalho apresentado na IV Semana de pesquisa em música da Faculdade de Música do Espírito Santo-FAMES, Vitória, 2014. Revista de Pesquisa em Música da FAMES, v. 6, n. 6, Vitória-ES: DIO/ES, 2015, p. 13-19. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/f%C3%A9-cantada-a-m%C3%BAsica-nas-cantigas


RESUMO: Um menestrel, Pedro de Sigrar, cantava e tocava seu violino diante de uma estátua da Virgem. Ele rezou para que a Virgem lhe desse uma vela, e ela fez com que uma repousasse sobre seu violino. Um monge, tesoureiro do santuário, arrancou-lhe a vela de volta e acusou o menestrel de feitiçaria. A vela retornou ao violino e o povo, ao ver isso, não permitiu que o monge a retirasse do menestrel novamente. O monge reconheceu o milagre, arrependeu-se e pediu perdão ao menestrel. Todos os anos, o menestrel levava uma vela para a igreja da Virgem.


Esta é como Santa Maria fez en Rocamador decender hũa candea na viola do jograr que cantava ant' ela

Como Santa Maria fez em Rocamador[1] descer uma candeia na viola do jogral que cantava diante dela


[1] Rocamadour (França), um dos mais famosos santuários marianos da Idade Média. Cf. ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 8.” In: Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 77.

refrão

A Virgen Santa Maria 

todos a loar devemos, 

cantand' e con alegria,

quantos seu ben atendemos.

À Virgem Santa Maria

todos a louvar devemos,

cantando e com alegria,

enquanto seu bem esperamos.


E por aquest' un miragre

vos direi, de que sabor averedes poy-l' oirdes,

que fez en Rocamador a Virgen Santa Maria,

Madre de Nostro Sennor; ora oyd' o miragre,

e nos contar-vo-lo-emos.

Por isso, contarei um milagre

vos direi, deque sabor tereis quando ouvirdes,

que fez em Rocamador a Virgem Santa Maria,

Mãe de Nosso Senhor; agora, ouvirdes o milagre,

e contar-vo-lo-emos.

Un jograr, de que seu nome

era Pedro de Sigrar, que mui ben cantar sabia

e mui mellor violar, e en toda-las eigrejas da Virgen que non á par un seu lais senpre dizia,

per quant' en nos aprendemos.

Um jogral, cujo nome

era Pedro de Sigrar[1] , que muito bem cantar sabia

e melhor ainda violar, e em todas as igrejas da Virgem sem par uma canção sua sempre entoava,

pelo que soubemos.


[1] Sieglar, perto da cidade de Colônia, na Alemanha. Cf. ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 8.” In: Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 78.

 

O lais que ele cantava

era da Madre de Deus, 

estand' ant' a sa omagen,

chorando dos ollos seus; 

e pois diss': «Ai, Groriosa,

se vos prazen estes meus cantares, hũa candea

nos dade a que cēemos.»

A música que ele cantava

era da Mãe de Deus,

Estando ante a Sua imagem,

chorandor dos olhos seus;

e certa vez disse: “Ai, Gloriosa,

se vos agrada estes meus cantares, uma candeia

nos dê para que ceemos”.

De com' o jograr cantava

Santa Maria prazer 

ouv', e fez-lle na viola

hũa candea decer; 

may-lo monge tesoureiro

foi-lla da mão toller, dizend': «Encantador sodes,

e non vo-la leixaremos.

Enquanto o jogral cantava

Santa Maria com prazer

ouvia, e fez na viola

uma candeia descer;

no entanto, o monge tesoureiro

foi de sua mão a tolher, dizendo: “Encantador sois

e não vos a deixaremos’.

Mas o jograr, que na Virgen

tĩia seu coraçon, non quis leixar seus cantares,

e a candea enton ar pousou-lle na viola; mas o frade mui felon tolleu-lla outra vegada

mais toste ca vos dizemos.

Mas o jogral, que na Virgem

tinha seu coração, não quis deixar seus cantares,

e a cadeia, então, novamente lhe pousou na viola;

mas o frade muito turrão arrancou-a de novo, rápido como vos dizemos.

Pois a candea fillada

ouv' aquel monge des i ao jograr da viola, foy-a põer ben ali u x' ant' estav', e atou-a mui de rrig' e diss' assi: «Don jograr, se a levardes,

por sabedor vos terremos.»

Assim, a candeia apanhada

por aquele monge dali ao jogral da viola,

foi a colocar bem ali onde antes estava, e atou-a

muito rija e disse assim: “Dom Jogral, se a levardes,

por sábio vos teremos".

O jograr por tod' aquesto

non deu ren, mas violou como x' ante violava,

e a candea pousou outra vez ena vyola; mas o monge lla cuidou fillar, mas disse-ll' a gente:

«Esto vos non sofreremos.»

O jogral, por tudo aquilo

sem preocupação, mais violou como ele antes violava,

e a candeia pousou outra vez na sua viola; mas, o monge pensou em a pegar, mas lhe disse a multidão:

“Isto não vos permitiremos”.

Poi-lo monge perfiado

aqueste miragre vyu, entendeu que muit' errara,

e logo ss' arrepentiu; e ant' o jograr en terra

se deitou e lle pedyu perdon por Santa Maria,

en que vos e nos creemos.

Pois o monge teimoso

aquele milagre viu, entendeu que muito errara,

e logo se arrependeu; e, ante o jogral, em terra

se deitou e lhe pediu perdão por Santa Maria,

em que vós e nós cremos.

Poy-la Virgen groriosa

fez este miragr’ atal, que deu ao jograr dõa

e converteu o negral Monge, dali adeante cad’ na’ um grand’ estadal lle trouxe a ssa eigreja

o jograr que dit’ avemos.

Pois a Virgem gloriosa

fez este milagre tamanho, que deu ao jogral dom

e converteu o mal monge, dali em diante

a cada ano, um grande estadal lhe trouxe a sua igreja

o jogral que dissemos.

Tradução: Bárbara Dantas


Afonso X. Cantiga 8. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal). 


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LOUVOR 10


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. “A arquitetura sagrada e a Natureza nas Cantigas de Santa Maria.” In: SANTOS, Bento Silva (org.). Mirabilia 20 (2015/1). Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 44-65. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/natureza-e-arquitetura-sagrada


Rosas das rosas e Fror das frores,

Dona das donas, Sennor das sennores.

Rosa das rosas, flor das flores,

Dona das donas, Senhora das senhoras.

Rosa de beldad' e de parecer

e Fror d'alegria e de prazer,

Dona en mui piadosa seer,

Sennor en toller coitas e doores.

Rosa de beldade e de parecer

e Flor de alegria e de prazer,

Dona mui piedosa ser,

Senhora em tolher aflições e dores.

Atal Sennor dev' ome muit' amar,

que de todo mal o pode guardar;

e pode-ll' os peccados perdõar,

que faz no mundo per maos sabores.

A tal Senhora deve o homem muito amar,

porque de todo mal o pode guardar

e pode-lhe os pecados perdoar,

que faz no mundo por maus costumes.

Devemo-la muit' amar e servir,

ca punna de nos guardar de falir;

des i dos erros nos faz repentir,

que nos fazemos come pecadores.

Devemo-la muito amar e servir,

porque insiste em nos guardar de confundir;

assim, dos erros nos faz advertir,

que nós fazemos como pecadores.

Esta dona que tenno por Sennor

e de que quero seer trobador,

se eu per ren poss' aver seu amor,

dou ao demo os outros amores.[1]


[1] ALFONSO X, EL SÁBIO. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 84.

Esta dona que tenho como Senhora

e de que quero ser trovador,

se eu, porventura, possa ter seu amor,

dou ao demo os outros amores.[1]


[1] Tradução: Bárbara Dantas.

Afonso X. Louvor 10. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal). 


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CANTIGA 26


*Se precisar citar este texto, tê-lo como referência, utilize o formato a seguir:

DANTAS, Bárbara. Des oge mais quer' eu trobar pola sennor onrrada: a iconografia e os motivos arquitetônicos nos textos das Cantigas de Santa Maria. In: Anais do XVI Simpósio regional de História da ANPUH-RJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2014, Rio de Janeiro, p. 316-328.


RESUMO: Um homem fazia uma peregrinação anual a Santiago de Compostela. Certa vez, antes de partir, passou a noite com uma prostituta e seguiu viagem sem confessar seus pecados. O diabo apareceu-lhe, "mais branco que o arminho", disfarçado de São Tiago. Ordenou-lhe que cortasse o próprio pênis e cortasse a garganta. O peregrino obedeceu à ordem e foi encontrado morto por seus companheiros. Eles fugiram para não serem acusados ​​de assassiná-lo. Demônios vieram para levar a alma do peregrino. Enquanto a carregavam para o alto, passaram por uma capela dedicada a São Pedro; São Tiago surgiu rapidamente e acusou-os de terem conquistado a alma de forma enganosa. Os demônios argumentaram que o peregrino havia cometido atos malignos e tirado a própria vida. São Tiago sugeriu que a Virgem resolvesse a disputa pela alma.Maria ordenou que a alma fosse devolvida ao corpo do peregrino, e ele reviveu. No entanto, seu membro não foi restaurado.

Cf. AFONSO X. Non é gran cousa se sabe | bon joizo dar/ a madre do que o mundo/ tod’ á de joigar. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).


Esta é como Santa Maria juigou a alma do romeu que ya a Santiago, que sse matou na carreira por engano do diabo, que tornass' ao corpo e fezesse pẽedença

Esta [cantiga] é a de como Santa Maria julgou a alma do romeiro que ia a Santiago, que se matou no caminho por engano do diabo, e que retornou ao corpo e fizesse penitência

refrão

Non é gran cousa se sabe

bon joyzo dar a Madre do que o mundo tod' á de joigar. 

Não é grande coisa se sabe

bom juízo dar a Mãe do que o mundo todo há de julgar.


Mui gran razon é que sábia dereito  

que Deus troux' en seu corp' e de seu peito 

mamentou, e del despeito

nunca foi fillar; 

poren de sen me sospeito 

que a quis avondar.

Mui grande razão é que saiba direito

que Deus trouxe em seu corpo e de seu peito

amamentou, e do desgosto

nunca foi tomar;

por isso, com razão suponho,

que a quis fartar.

Sobr' esto, se m' oissedes, diria 

dun joyzo que deu Santa Maria 

por un que cad' ano ya, 

com' oý contar, 

a San Jam' en romaria, 

porque se foi matar.

sobre isto, se me ouve, diria

sobre um julgamento que deu Santa Maria

por um [homem] que a cada ano ia,

como ouvi contar,

a Santiago de Compostela[1] em romaria,

porque se foi matar.


[1] AFONSO X, op. cit., 1986, p. 123.

Este romeu con bõa voontade 

ya a Santiago de verdade; 

pero desto fez maldade 

que ant' albergar 

foi con moller sen bondade, 

sen con ela casar.

Este romeiro com boa vontade

ia a Santiago de verdade;

porém, disto fez maldade

que antes de deitar

foi com mulher sem bondade

sem com ela casar.

Pois esto fez, meteu-ss' ao camỹo, 

e non sse mãefestou o mesqỹo; 

e o demo mui festỹo 

se le foi mostrar 

mais branco que un armỹo, 

polo tost' enganar.

Pois isto fez, meteu-se ao caminho,

e não se manifestou o mesquinho;

e o diabo muito festivo

a ele se foi mostrar

mais branco que um arminho,

para logo o enganar.

Semellança fillou de Santiago 

e disse: «Macar m' eu de ti despago, 

a salvaçon eu cha trago 

do que fust' errar, 

por que non cáias no lago 

d' iferno, sen dultar.

Semelhança tomou de Santiago

e disse: “embora eu de ti esteja desagradado,

a salvação eu te trago

do que foste errar,

para que não caias no lago

do inferno, sem duvidar.

Mas ante farás esto que te digo, 

se sabor ás de seer meu amigo: 

talla o que trages tigo 

que te foi deytar 

en poder do ẽemigo, 

e vai-te degolar.»

Mas antes farás isto que te digo,

se prazer há de ser meu amigo:

corta o que trazes contigo

que te foi cair

em poder do inimigo

e vai-te degolar”.

O romeu, que ssen dovida cuidava

que Santiag' aquelo lle mandava, 

quanto lle mandou tallava; 

poi-lo foi tallar, 

log' enton se degolava, 

cuidando ben obrar.

O romeiro, que sem dúvida, considerava

que Santiago aquilo lhe mandava,

quanto lhe mandou cortava;

pois o foi cortar,

então, logo se degolava,

considerando bem obrar.

Seus companneiros, poi-lo mort' acharon, 

por non lles apõer que o mataron, 

foron-ss'; e logo chegaron 

a alma tomar 

demões, que a levaron 

mui toste sen tardar.

Seus companheiros, pois, morto o acharam,

para que não lhes acusassem de que o mataram,

foram-se; e logo chegaram

para a alma tomar

demônios, que a levaram

rapidamente e sem tardar.

E u passavan ant' hũa capela 

de San Pedro, muit' aposta e bela, 

San James de Conpostela 

dela foi travar, 

dizend': «Ai, falss' alcavela, 

non podedes levar

E quando passavam ante uma capela

de São Pedro, muito composta e bela,

São Tiago de Compostela

dela foi pegar,

dizendo: “ai, falsa raça,

não podes levar

A alma do meu romeu que fillastes,

ca por razon de mi o enganastes; 

gran traiçon y penssastes, 

e, se Deus m' anpar, 

pois falssament' a gãastes, 

non vos pode durar.»

A alma do meu romeiro que tomastes,

com razão penso que o enganastes;

com grande traição ali pensastes,

e, se Deus me amparar,

pois falsamente a ganhastes,

não vos pode perdurar.”

Responderon os demões louçãos:     

«Cuja est' alma foi fez feitos vãos, 

por que somos ben certãos 

que non dev' entrar 

ante Deus, pois con sas mãos 

se foi desperentar.»

Responderam os demônios louções

“cuja esta alma fez feitos vãos,

porque somos bem certos

de que não deve estar

ante Deus, pois com suas mãos

se foi matar.

Santiago diss': «Atanto façamos: 

pois nos e vos est' assi rezõamos,

ao joyzo vaamos 

da que non á par, 

e o que julgar façamos 

logo sen alongar.»

Santiago disse: “De tal modo façamos:

pois nós e vós isto assim resolvemos,

ao julgamento vamos

da que não há par,

e o que julgar façamos

logo sem alongar.”

Log' ante Santa Maria veron 

e rezõaron quanto mais poderon. 

Dela tal joiz' ouveron: 

que fosse tornar 

a alma onde a trouxeron, 

por se depois salvar.

Logo ante Santa Maria vieram,

e defenderam quanto mais puderam.

Dela tal julgamento tiveram:

que fosse retornar

a alma onde a trouxeram,

para depois se salvar.

Este joyzo logo foi comprido, 

e o romeu morto foi resorgido, 

de que foi pois Deus servido; 

mas nunca cobrar 

pod' o de que foi falido, 

con que fora pecar.

Este parecer logo foi cumprido,

e o romeiro morto foi ressurgido,

de que, pois, foi de Deus servido;

mas nunca recobrar

pode o de que foi perdido

com que fora pecar.

Tradução: Bárbara Dantas


Afonso X. Louvor 10. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal). 


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CANTIGA 74


*Se precisar citar este texto, tê-lo como referência, utilize o formato a seguir:

DANTAS, Bárbara. Des oge mais quer' eu trobar pola sennor onrrada: a iconografia e os motivos arquitetônicos nos textos das Cantigas de Santa Maria. In: Anais do XVI Simpósio regional de História da ANPUH-RJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2014, Rio de Janeiro, p. 316-328.


RESUMO: Um pintor sempre retratava o diabo como uma figura feia. O diabo perguntou-lhe por que fazia isso, e o pintor explicou que o representava assim por ser ele uma criatura maligna. O diabo enfureceu-se e ameaçou matar o pintor. Certo dia, enquanto o pintor retratava a Virgem em uma parede, o diabo fez surgir um vento que derrubou o andaime onde o artista estava apoiado. O pintor clamou pela Virgem, e ela fez com que ele ficasse suspenso no ar, segurando-se apenas pelo pincel. As pessoas, que ouviram o estrondo da queda do andaime, viram o diabo derrotado fugir da igreja. Ao verem o pintor suspenso pelo pincel, agradeceram à Virgem.

Cf. AFONSO X. Quen Santa Maria quiser defender/ non lle pod’ o demo niun mal fazer. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).


Como Santa Maria guareceu o pintor que o demo quisera matar porque o pintava feo

Como Santa Maria salvou o pintou que o diabo queria matar porque o pintava feio

refrão

Quen Santa Maria quiser deffender, 

non lle pod' o demo niun mal fazer. 

Quem Santa Maria quiser defender,

não lhe pode o diabo nenhum mal fazer.


E dest' un miragre vos quero contar 

de como Santa Maria quis guardar 

un seu pintor que punnava de pintar 

ela muy fremos' a todo seu poder.

E disto um milagre vos quero contar

de como Santa Maria quis guardar

um pintor seu que se esforçava por pintá-la

muito formosa em todo o seu poder.

E ao demo mais feo d' outra ren 

pintava el sempr'; e o demo poren 

lle disse: «Por que me tes en desden, 

ou por que me fazes tan mal pareçer

E o diabo mais feio que outra coisa

pintava ele sempre; e o diabo, porém

lhe disse: “por que me despreza

ou por que me fazes tão mal parecer

A quantos me veen?» E el diss' enton: 

«Esto que ch' eu faço é con gran razon, 

ca tu sempre mal fazes, e do ben non 

te queres per nulla ren entrameter.»

A quantos me vêem? “E ele disse então:

“Isto que a ti eu faço é com grande razão,

porque tu sempre mal fazes, e do bem não

te queres em nada se entreter.”

Pois est' ouve dit', o demo ss' assannou 

e o pintor ferament' amaçou 

de o matar, e carreira lle buscou 

per que o fezesse mui çedo morrer.

Pois isto houve dito, o diabo se irritou

e o pintor feramente ameaçou

de o matar, e esforçou-se

para que o fizesse muito cedo morrer.

Porend' un dia o espreytou aly

u estava pintando, com' aprendi, 

a omagen da Virgen, segund' oý, 

e punnnava de a mui ben compõer,

Por isso, um dia o espreitou ali

onde estava pintando, como aprendi,

a imagem da Virgem, segundo ouvi,

e tratava de a muito bem fazer,

Por que pareçesse mui fremos' assaz.  

Mais enton o dem', en que todo mal jaz, 

trouxe tan gran vento como quando faz

mui grandes torvões e que quer chover.

Para que parecesse muito formosa assaz

Mas, então, o diabo, em que todo mal jaz,

trouxe tão grande vento como quando faz

enormes trovões e quer chover.

Pois aquel vento na ygreja entrou, 

en quanto o pintor estava deitou 

en terra; mais el log' a Virgen chamou, 

Madre de Deus, que o vess' acorrer.

Pois aquele vento na igreja entrou,

e tudo onde o pintor estava derrubou

em terra; mas logo ele a Virgem chamou,

Mãe de Deus, que o viesse acorrer.

E ela logo tan toste ll' acorreu 

e fez-lle que eno pinzel se soffreu 

con que pintava; e poren non caeu, 

nen lle pod' o dem' en ren enpeeçer.

E ela rapidamente lhe socorreu

e fez-lhe com que no pincel se segurou

com o qual pintava; e, contudo, não caiu

nem lhe pôde o diabo em nada molestar.

E ao gran son que a madeira fez 

veron as gentes logo dessa vez, 

e viron o demo mais negro ca pez 

fogir da ygreja u ss' ya perder.

E ao grande som que a madeira fez

vieram logo as pessoas dessa vez,

e viram o diabo mais negro que pez

fugir da igreja onde se ia perder.

E ar viron com' estava o pintor 

colgado do pinzel; e poren loor 

deron aa Madre de Nostro Sennor, 

que aos seus quer na gran coita valer.

E então viram como estava o pintor

pendurado pelo pincel;e, por isso, louvor

deram à mãe de Nosso Senhor,

que aos seus quer na grande aflição valer.


Afonso X. Cantiga 74. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).


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CANTIGA 93


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:

COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. “A arquitetura sagrada e a Natureza nas Cantigas de Santa Maria.” In: SANTOS, Bento Silva (org.). Mirabilia 20 (2015/1). Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 44-65. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/natureza-e-arquitetura-sagrada


RESUMO: Um burguês tinha um filho bonito que se entregava a todos os tipos de vícios. Deus lhe infligiu lepra e ele foi morar em um eremitério. Durante três anos viveu uma vida piedosa, recitando mil Ave Marias para que a Virgem tivesse pena dele. Quando ela apareceu a ele, desnudou-lhe o peito e ungiu-lhe o corpo com o seu leite. A lepra desapareceu e sua pele voltou. O homem atravessou o país contando como a Virgem o curara.

Cf. AFONSO X. Nulla enfermidade/ non é de sãar/ grav’, u a piedade/ da Virgen chegar. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).


Como Santa Maria guareceu um fillo dun burges que era gafo

Como Santa maria curou o filho de um burguês que era leproso

refrão

Nulla enfermidade

non é de sãar

grav', u a piedade

da Virgen chegar.

Nenhuma enfermidade

não é de sarar

grave, onde a piedade

da Virgem chegar.


Dest' un mui gran miragr' en fillo dun burges

mostrou Santa Maria, que foi gafo tres

anos e guareceu en mēos que un mes

pola sa piedade que lle quis mostrar.

Disto um mui grande milagre no filho de um burguês

mostrou Santa Maria, que foi leproso três

anos e recuperou em menos de um mês

por sua piedade que lhe quis mostrar.

Est' era mui fremoso e apost' assaz,

e ar mui leterado e de bon solaz;

mais tod' aquele viço que à carne praz

fazia, que ren non queria en leixar.

Este era muito formoso e belo assaz,

e, igualmente, muito letrado e de bom caráter;

mas todo aquele deleite que à carne prazer fazia, ele nunca queria deixar.

El assi mantendo orgull' e desden,

quiso Deus que caess' en el mui gran gafeen,

ond' ele foi coitado que non quis al ren

do mund' erg' ũ' ermid' u se foi apartar.

Ele, assim, mantendo orgulho e desdém,

quis Deus que caísse nele grande lepra,

sendo ele foi afligido que não quis mais nada

do mundo, ergueu uma ermida onde foi se apartar.

E el ali estando, fillou-ss' a dizer 

ben mil Ave Marias por fazer prazer 

aa Madre de Deus, por que quisess' aver

doo e piadad' e del amercēar.

E ele ali estando, pôs-se a dizer

bem mil Ave-Marias para dar prazer

à Mãe de Deus, para que quisesse haver

dor e piedade e dele se apiedar.

E el en atal vida tres anos durou, 

sofrendo ben sa coita, e nunca errou 

a Deus nen a sa Madre, e sempre rezou 

as Aves Marias de que vos fui falar.

E ele em tal vida três anos durou,

sofrendo bem sua aflição, e nunca errou

a Deus nem a sua Mãe, e sempre rezou

as Aves Marias de que vos fui falar.

E pois ouve rezado esta oraçon

quanto tenpo dissemos, mostrou-xe-ll' enton

a Virgen groriosa e diss': «Oi mais non 

quero que este mal te faça lazerar.»

Depois de haver rezado esta oração

quanto tempo dissemos, mostrou-se lhe, então

a Virgem gloriosa e disse: ““Hoje, mais não

quero que este mal te faça lancinar.”

Quando ll' est' ouve dit', a teta descobriu

e do seu santo leite o corpo ll' ongiu; 

e tan tost' a gafeen logo del se partiu, 

assi que o coiro ouve tod' a mudar.

Quando isto lhe houve dito, a teta descobriu

e do seu santo leite o corpo lhe ungiu;

e tão rápido a lepra logo dele se partiu,

bem como a pele começou toda a mudar.

Tanto que foi guarido, começou-ss' a ir 

dizendo pela terra como quis vĩir 

a el Santa Maria e o foi guarir, 

por que todos en ela devemos fiar.[1]


[1] ALFONSO X, EL SÁBIO. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, pp. 286-287.

Assim que foi curado, começou a ir

dizendo pela terra como quis vir

 a ele Santa Maria e o foi acudir,

porque todos nela devemos confiar.[1]


[1] Tradução: Bárbara Dantas.

Afonso X. Cantiga 93. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).


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 LOUVOR 140


* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:


A Santa Maria dadas sejan loores onrradas

À Santa Maria dados sejam louvores honrrados

Loemos a sa mesura,

seu prez, e ssa apostura,

e seu sen, e ssa cordura,

mui mais ca cen mil vegadas.

Louvemosa sua mesura,

seu valor, e sua compostura,

e seu senso, e sua cordura,

mui mais que cem mil vezes.

Loemos a ssa nobressa,

sa onrra e ssa alteza,

sa mercee e ssa franqueza,

e sas vertudes preçadas.

Louvemos sua nobreza,

sua honra e sua alteza,

sua misericórdia e sua franqueza,

e suas virtudes apreciadas.

Loemos ssa lealdade,

seu conort' e ssa bondade,

seu accorr' e ssa verdade,

con loores mui cantadas.

Louvemos sua lealdade,

seu consolo e sua bondade,

seu socorro e sua verdade,

com honras mui cantadas.

Loemos seu cousimento,

conssell' e castigamento,

seu ben, seu enssinamento,

e sass graças mui grãadas.

Louvemos seu comedimento,

seu conselho e castigamento,

seu bem, seu ensinamento,

e suas graças mui acentudas.

Loando-a, que nos valla

lle roguemos na batalla

do mundo que nos traballa,

e do dem' a denodadas.[1]


[1] ALFONSO X, EL SÁBIO. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1988, p. 115.

Louvando-a, para que nos valha

lhe roguemos na batalha,

do mundo que nos trabalha,

e do demônio a denodadas.[1]


[1] Tradução: Bárbara Dantas.

Afonso X. Louvor 140. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).


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