Traduções e iluminuras historiadas de página inteira das Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X (século XIII)

Atualizado: 22 de ago.
Se quiser citar, tê-lo como referência, usar:
DANTAS, Bárbara. Traduções das Cantigas de Santa Maria do rei Afonso X. História & Arte. 2024-2026.
Esta publicação tem como objetivo disponibilizar de forma mais acessível traduções já publicadas em trabalhos acadêmicos dos textos em galego-português para o português atual dos louvores e dos relatos de milagres que fazem parte do códice afonsino nomeado como as Cantigas de Santa Maria. À medida que forem publicados, cada um dos textos serão aqui acrescentados. De fato, é um trabalho a longo prazo, pois o manuscrito encomendado por D. Afonso, em homenagem à Virgem Maria, possui mais de quatro centenas de canções escritas em galego-português, no formato de verso, acompanhadas de milhares de Letras Capitulares e centenas de iluminuras historiadas de página inteira.
As traduções tentam acompanhar a versificação do texto, o mais próximo possível, tanto da fidedignidade ao original em galego-português quanto ao bom entendimento no português hodierno. Para isso, utilizei como parâmetro formal e como referência teórica a profunda análise dos quatro volumes da obra do filólogo alemão Water Mettmann, publicada entre os anos de 1986 e 1989 pela Editora Castalia, de Madri, na Espanha. Segundo o próprio, a grandiosa obra do rei Afonso possui três parâmetros linguísticos: "el contar, trobar y rimar". No que se refere à Maria, as centenas de canções celebram seu poder como "auxiliadora, medianera y procuradora [...] nos asiste como aviogada y padrõa, vence al diablo, repara las injusticias y las consecuencias de la caída de los primeros padres y nos muestra el camino derecho".
Cf. ALFONSO X, EL SÁBIO. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. Madrid: Castalia, 1986-1989, 4 v.
Outra ferramenta teórica largamente utilizada para esta opublicação é o trabalho disponibilizado pela Universidade de Lisboa, o Projeto Littera, que abrange aspectos relacionados com Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, em especial, o rico glossário.
Cf. GLOSSÁRIO. Cantigas Medievais Galego-portuguesas. Projeto Littera - FCSH. 2011-2012. Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Para melhorar a compreensão dos textos, antes de grande parte das traduções dos louvores e dos relatos de milagres, haverá um resumo em prosa de cada cantiga. Tais resumos fazem parte do belo trabalho "Cantigas de Santa Maria Data Base", da universidade de Oxford. São publicados em inglês, cuja tradução em português estará disponível aqui.
Cf. OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023.
Para enriquecer a apreensão dos textos, cada tradução terá a companhia de sua correspondente iluminura historiada de página inteira.
Desejo a todos excelentes momentos junto às Cantigas do Rei Sábio!
Bárbara Dantas
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PRÓLOGO A
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
DANTAS, Bárbara. “A música nas Cantigas de Santa Maria.” Trabalho apresentado na IV Semana de pesquisa em música da Faculdade de Música do Espírito Santo-FAMES, Vitória, 2014. Revista de Pesquisa em Música da FAMES, v. 6, n. 6, Vitória-ES: DIO/ES, 2015, p. 13-19. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/f%C3%A9-cantada-a-m%C3%BAsica-nas-cantigas
Don Afonso de Castela, de Toledo, de Leon Rei e ben des Compostela ta o reyno d' Aragon, | Don Afonso de Castela, de Toledo, de Leão Rei e benfeitor desde Compostela até o reino de Aragão, |
De Cordova, de Jahen, de Sevilla outrossi, e de Murça, u gran ben lle fez Deus, com' aprendi, | De Córdova, de Jaén de Sevilha também[1] e de Murcia, onde um grande bem lhe fez Deus, como ouvi, [1] Fernando III, pai de Afonso X, foi um dos maiores chefes militares cristãos da Reconquista Ibérica (séc. VIII ao XV). Conquistou e legou ao seu filho Córdoba em 1236, Jaén em 1246 e Sevilha em 1248. Fernando III conquistou Múrcia em 1244 e Afonso, ainda infante, estabeleceu a fronteira entre o reino de Múrcia e o reino de Aragão. Ver em: O’CALLAGHAN, Joseph F. El Rey Sabio. El reinado de Alfonso X de Castilla. Sevilla: Universidad de Sevilla, 1999, p. 35. |
Do Algarve, que gãou de mouros e nossa ffe meteu y, e ar pobrou Badallouz, que reyno é | Do Algarve, onde ganhou de mouros e nossa fé impôs ali. E, ainda, povoou Badajoz, que um reino é |
Muit' antigu', e que tolleu a mouros Nevl' e Xerez, Beger, Medina prendeu e Alcalá d' outra vez, | Muito antigo, e que tomou dos mouros Niebla e Jerez, Vejer, Medina prendeu e Alcalá, noutra vez,[1] [1] Afonso X conquistou Niebla em 1262. Jerez de la Frontera, Vejer de la Frontera e Medina Sidonia, em 1264. Alcalá de los Gazules (Cádiz) pagava um tributo (paria) ao pai de Afonso X, Fernando III. Em 1263, Afonso X conquistou Cádiz. Ver em: AFONSO X, o Sábio. Prólogo B. Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann. V. I. Madri: Castalia, 1986, p. 53. Também em: RUCQUOI, Adeline. História Medieval da Península Ibérica. Lisboa: Estampa, 1995, p. 171. |
E que dos Romãos Rey é per dereit' e Sennor, este livro, com' achei, fez a onrr' e a loor | E que dos romanos rei é por direito e Senhor, este livro, como pensei, fez em honra e louvor |
Da Virgen Santa Maria, que éste Madre de Deus, en que ele muito fia. Poren dos miragres seus | Da Virgem Santa Maria, que é Mãe de Deus. em que ele muito confia. Por isso, dos milagres seus |
Fezo cantares e sões, saborosos de cantar, todos de sennas razões, com' y podedes achar. | Fez canções e sons soborosos de cantar, todos de boas razões, como aqui podes achar. |
Tradução: Bárbara Dantas | |

Afonso X. Prólogo A. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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CANTIGA 4
*Se precisar citar este texto, tê-lo como referência, utilize o formato a seguir:
DANTAS, Bárbara. Des oge mais quer' eu trobar pola sennor onrrada: a iconografia e os motivos arquitetônicos nos textos das Cantigas de Santa Maria. In: Anais do XVI Simpósio regional de História da ANPUH-RJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2014, Rio de Janeiro, p. 316-328.
COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. "Cantigas de Santa Maria de Afonso X: Análise comparativa entre texto e imagem da Cantiga 04." In: FERREIRA, Álvaro Mendes (org.) et al. Problematizando a Idade Média. Niterói: Ed. UFF/PPGHISTÓRIA, 2014, p. 16-34.
RESUMO: Um menino judeu chamado Abel, filho de um vidreiro, frequentava a escola com cristãos. Na Páscoa, foi à igreja com os outros alunos e viu o abade dar-lhes a comunhão. Parecia-lhe que a Virgem no altar lhes dava o sacramento. Ele fez fila para receber a comunhão e a Virgem deu a ele. Ele voltou para casa e contou ao pai o que fizera. Seu pai ficou furioso e o jogou na fornalha. Sua mãe, Rachel, gritou e correu para a rua. As pessoas vieram em seu auxílio. A Virgem protegeu o menino no meio das chamas, assim como seu Filho protegeu Hananias, Azarias e Misael [na fornalha ardente]. O menino judeu foi batizado imediatamente, sua mãe converteu-se ao cristianismo e seu pai foi jogado na fornalha.
Cf. AFONSO X. A madre do que livrou/ dos leões Daniel. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).
Esta é como Santa Maria guardou ao fillo do judeu que non ardesse, que seu padre deitara no forno | Esta [cantiga] é como Santa Maria guardou o filho do judeu para que não ardesse, que seu pai colocara no forno |
refrão | |
A Madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou un menỹo d'Irrael. | A Mãe do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um menino de Israel. |
En Beorges un judeu ouve que fazer sabia vidro, e un fillo seu -ca el en mais non avia, per quant' end' aprendi eu- ontr' os crischãos liya na escol'; e era greu a seu padre Samuel. | Em Bourges[1], um judeu havia que sabia fazer vidro, e um filho seu -porque ele mais não tinha, pelo quanto a respeito eu aprendi - entre os cristãos lia na escola; o que era penoso a seu pai, Samuel. [1] Bourges, comuna francesa. – ALFONSO X, EL SÁBIO. “Glosario.” Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1989, p. 469; Id. “Cantiga 4.” Ibid., 1986, p. 63. |
O menỹo o mellor leeu que leer podia e d'aprender gran sabor ouve de quanto oya; e por esto tal amor con esses moços collia, con que era leedor, que ya en seu tropel. | O menino o melhor leu que ler podia e de aprender grande sabor tinha de quanto ouvia; e, por esse tal amor com esses moços conseguia, com que era leitor, já em seu grupo. |
Poren vos quero contar o que ll' avẽo un dia de Pascoa, que foi entrar na eygreja, u viia o abad' ant' o altar, e aos moços dand' ya ostias de comungar e vy' en un calez bel. | Portanto, desejo vos contar o que lhe aconteceu em um dia de Páscoa, em que foi entrar na igreja, onde via o abade ante o altar, e aos moços dando já hóstias de comungar e vinho em um cálice belo. |
O judeucỹo prazer ouve, ca lle parecia que ostias a comer lles dava Santa Maria, que viia resprandecer eno altar u siia e enos braços tẽer seu Fillo Hemanuel. | O judeuzinho prazer teve, porque lhe parecia que hóstias a comer lhes dava Santa Maria, que via resplandecer no altar, onde estaria e nos braços trazia seu filho Emanuel.[1] [1] “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco”. – Mateus (Mt 1: 23). In: BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2013, p. 1704. |
Quand' o moç' esta vison vyu, tan muito lle prazia, que por fillar seu quinnon ant' os outros se metia. Santa Maria enton a mão lle porregia, e deu-lle tal comuyon que foi mais doce ca mel. | Quando o moço esta visão viu, tanto muito lhe aprazia, que por pegar seu quinhão antes dos outros se metia. Santa Maria, então A mão lhe estendia, E deu-lhe tal comunhão Que foi mais doce que o mel. |
Poi-la comuyon fillou, logo dali se partia e en cas seu padr' entrou como xe fazer soya; e ele lle preguntou que fezera. El dizia: «A dona me comungou que vi so o chapitel.» | Pois a comunhão pegou, logo dali se partia e em casa seu pai entrou como ele de costume fazia; e ele lhe perguntou o que fizera. Ele dizia: “A Senhora me comungou Mas, eu só vi o capitel”.[1] [1] Capitel: parte superior de coluna ou pilar, geralmente estilizada ou decorada. Em cima do capitel se colocavam esculturas. – BRACONS, José. Saber ver a arte gótica, op. cit., p. 79. |
O padre, quand' est' oyu, creceu-lli tal felonia, que de seu siso sayu; e seu fill' enton prendia, e u o forn' arder vyu meté-o dentr' e choya o forn', e mui mal falyu como traedor cruel. | O pai, quando isto ouviu, cresceu-lhe tal felonia, que de seu juízo saiu; e seu filho, então, prendia, e onde o forno arder viu meteu-o dentro e fecharia o forno, e mui mal agiu como traidor cruel. |
Rachel, sa madre, que ben grand' a seu fillo queria, cuidando sen outra ren que lle no forno ardia, deu grandes vozes poren e ena rua saya; e aque a gente vem ao doo de Rachel. | Rachel, sua mãe, que bem grande a seu filho queria, cuidando sem demora que ele no forno ardia, deu grandes gritos, portanto e na rua saía; e eis que a pessoas veem a dor de Rachel. |
Pois souberon sen mentir o por que ela carpia, foron log' o forn' abrir en que o moço jazia, que a Virgen quis guarir como guardou Anania Deus, seu fill', e sen falir Azari' e Misahel. | Pois souberam sem mentir o por que ela carpia, foram logo o forno abrir em que o moço jazia, que a Virgem quis guarir como guardou Ananias Deus, seu filho, e sem falhar Azaria e Misael.[1] [1] “Ananias, Azarias e Misael, bendigam o Senhor; louvem e exaltem o Senhor para sempre. Porque ele nos tirou da mansão dos mortos e nos salvou do poder da morte; livrou-nos da chama da fornalha ardente e retirou-nos do meio do fogo”. – DANIEL (Dn 3: 88). In: BÍBLIA de Jerusalém, op. cit., p. 1560. |
O moço logo dali sacaron con alegria e preguntaron-ll' assi se sse d'algun mal sentia. Diss' el: «Non, ca eu cobri[1] o que a dona cobria que sobelo altar vi con seu Fillo, bon donzel.» [1] “Cobrir tiene aquí el sentido de ‘ponerse, vestir’.” – ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 4.” Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 66, nota 4. | O moço logo dali sacaram com alegria e lhe perguntaram assim se de algum mal sentia. Disse ele: “Não, porque eu [me] cobri com o que a dona [se] cobria que sobre o altar vi com seu Filho, boa donzela”. |

Afonso X. Cantiga 4. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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CANTIGA 7
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. “A arquitetura sagrada e a Natureza nas Cantigas de Santa Maria.” In: SANTOS, Bento Silva (org.). Mirabilia 20 (2015/1). Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 44-65. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/natureza-e-arquitetura-sagrada
RESUMO: Uma abadessa engravidou de seu mordomo. As freiras sob sua responsabilidade descobriram sua indiscrição e foram vingativas. Eles acusaram a abadessa ao seu bispo, que viajou de Colônia. Ele a convocou. Depois de se encontrar com o bispo, a abadessa rezou à Virgem. Maria apareceu para ela, como num sonho, e fez com que o bebê fosse entregue e enviado para Soissons para ser criado. A abadessa apareceu diante do bispo e ele a fez despir-se. Ele a declarou inocente e repreendeu as freiras.
Cf. AFONSO X. Santa Maria amar/ devemos muit’ e rogar/ que a sa graça ponna/ sobre nos por que errar/ non nos faça nen pecar/ o demo sen vergonna. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).
Esta é como Santa Maria livrou a abadessa prenne, que adormecera ant' o seu altar chorando | Esta [canção conta] como Santa Maria livrou a abadessa grávida que adormecera diante de seu altar chorando |
refrão | |
Santa Maria amar devemos muit' e rogar que a ssa graça ponna sobre nos, por que errar non nos faça, nen peccar, o demo sen vergonna. | Santa Maria amar devemos muito e rogar que a sua graça ponha sobre nós, para que errar não nos faça, nem pecar, o diabo sem vergonha. |
Porende vos contarey un miragre que achei que por hũa badessa fez a Madre do gran Rei, ca, per com' eu apres' ei, era-xe sua essa. Mas o demo enartar a foi, por que emprennnar s' ouve dun de Bolonna, ome que de recadar avia e de guardar seu feit' e sa besonna | Por isso, vos contarei um milagre que achei que por uma abadessa fez a Mãe do grande Rei, porque, como eu examinei era-lhe sua essa. mas, o demo enganar a foi, porque engravidar se houve de um de Bolonha, homem que de governar havia e de guardar seu caso e sua necessidade. |
As monjas, pois entender foron esto e saber, ouveron gran lediça; ca, porque lles non sofrer queria de mal fazer, avian-lle mayça.[1] E fórona acusar ao Bispo do logar, e el ben de Colonna chegou y; e pois chamar a fez, vēo sen vagar, leda e mui risonna. [1] A palavra “mayça”, embora esteja na transcrição, não possui correspondente ou significado no Glossário de Mettmann. Tampouco existe em alguma língua. Mas, a palavra “meiça” existe em galego-português e se coaduna com o significado necessário ao termo. Cf. MEIÇA. GLOSSÁRIO. Cantigas Medievais Galego-portuguesas. Projeto Littera - FCSH. Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 2011-2012. | As monjas, pois foram perceber isto e saber, havendo grande lediça; assim, porque elas sem sofrer queriam mal fazer, Havia nelas malícia. E foram-na acusar ao Bispo do lugar, e ele bem de Colônia chegou ali; e, pois, chamar a fez, veio sem tardar, leda e muito risonha. |
O Bispo lle diss' assi: «Dona, per quant' aprendi mui mal vossa fazenda fezestes; e vin aqui por esto, que ante mi façades end' emenda.» | O Bispo lhe disse assim: “Dona, pelo quanto ouvi muito mal vossa façanha fizestes; e vim aqui por isto, que ante mim faças, a respeito disso, emenda”. |
Mas a dona sen tardar a Madre de Deus rogar foi; e, come quen sonna, Santa Maria tirar lle fez o fill' e criar o mandou en Sanssonna. | |
Tão logo a senhora despertou e salva se achou, logo ante o Bispo veio; e ele muito a observou e desnudá-la mandou; e, pois, viu-lhe o seio, começou Deus a louvar e as donas a blasfemar, que eram da Ordem de San Salvador de Oña [Burgos], dizendo: “Se Deus me amparar, por salva possa esta dar, que não sei o que lhe imputar”.[1] [1] Tradução: Bárbara Dantas. | |

Afonso X. Cantiga 7. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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CANTIGA 8
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
DANTAS, Bárbara. “A música nas Cantigas de Santa Maria.” Trabalho apresentado na IV Semana de pesquisa em música da Faculdade de Música do Espírito Santo-FAMES, Vitória, 2014. Revista de Pesquisa em Música da FAMES, v. 6, n. 6, Vitória-ES: DIO/ES, 2015, p. 13-19. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/f%C3%A9-cantada-a-m%C3%BAsica-nas-cantigas
RESUMO: Um menestrel, Pedro de Sigrar, cantava e tocava seu violino diante de uma estátua da Virgem. Ele rezou para que a Virgem lhe desse uma vela, e ela fez com que uma repousasse sobre seu violino. Um monge, tesoureiro do santuário, arrancou-lhe a vela de volta e acusou o menestrel de feitiçaria. A vela retornou ao violino e o povo, ao ver isso, não permitiu que o monge a retirasse do menestrel novamente. O monge reconheceu o milagre, arrependeu-se e pediu perdão ao menestrel. Todos os anos, o menestrel levava uma vela para a igreja da Virgem.
Cf. AFONSO X. A Virgen Santa Maria/ todos a loar devemos/ cantand’ e con alegria/ quantos seu ben atendemos. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).
Esta é como Santa Maria fez en Rocamador decender hũa candea na viola do jograr que cantava ant' ela | Como Santa Maria fez em Rocamador[1] descer uma candeia na viola do jogral que cantava diante dela [1] Rocamadour (França), um dos mais famosos santuários marianos da Idade Média. Cf. ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 8.” In: Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 77. |
refrão | |
A Virgen Santa Maria todos a loar devemos, cantand' e con alegria, quantos seu ben atendemos. | À Virgem Santa Maria todos a louvar devemos, cantando e com alegria, enquanto seu bem esperamos. |
E por aquest' un miragre vos direi, de que sabor averedes poy-l' oirdes, que fez en Rocamador a Virgen Santa Maria, Madre de Nostro Sennor; ora oyd' o miragre, e nos contar-vo-lo-emos. | Por isso, contarei um milagre vos direi, deque sabor tereis quando ouvirdes, que fez em Rocamador a Virgem Santa Maria, Mãe de Nosso Senhor; agora, ouvirdes o milagre, e contar-vo-lo-emos. |
Un jograr, de que seu nome era Pedro de Sigrar, que mui ben cantar sabia e mui mellor violar, e en toda-las eigrejas da Virgen que non á par un seu lais senpre dizia, per quant' en nos aprendemos. | Um jogral, cujo nome era Pedro de Sigrar[1] , que muito bem cantar sabia e melhor ainda violar, e em todas as igrejas da Virgem sem par uma canção sua sempre entoava, pelo que soubemos. [1] Sieglar, perto da cidade de Colônia, na Alemanha. Cf. ALFONSO X, EL SÁBIO. “Cantiga 8.” In: Cantigas de Santa Maria. Edição crítica de Walter Mettmann, op. cit., 1986, p. 78.
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O lais que ele cantava era da Madre de Deus, estand' ant' a sa omagen, chorando dos ollos seus; e pois diss': «Ai, Groriosa, se vos prazen estes meus cantares, hũa candea nos dade a que cēemos.» | A música que ele cantava era da Mãe de Deus, Estando ante a Sua imagem, chorandor dos olhos seus; e certa vez disse: “Ai, Gloriosa, se vos agrada estes meus cantares, uma candeia nos dê para que ceemos”. |
De com' o jograr cantava Santa Maria prazer ouv', e fez-lle na viola hũa candea decer; may-lo monge tesoureiro foi-lla da mão toller, dizend': «Encantador sodes, e non vo-la leixaremos. | Enquanto o jogral cantava Santa Maria com prazer ouvia, e fez na viola uma candeia descer; no entanto, o monge tesoureiro foi de sua mão a tolher, dizendo: “Encantador sois e não vos a deixaremos’. |
Mas o jograr, que na Virgen tĩia seu coraçon, non quis leixar seus cantares, e a candea enton ar pousou-lle na viola; mas o frade mui felon tolleu-lla outra vegada mais toste ca vos dizemos. | Mas o jogral, que na Virgem tinha seu coração, não quis deixar seus cantares, e a cadeia, então, novamente lhe pousou na viola; mas o frade muito turrão arrancou-a de novo, rápido como vos dizemos. |
Pois a candea fillada ouv' aquel monge des i ao jograr da viola, foy-a põer ben ali u x' ant' estav', e atou-a mui de rrig' e diss' assi: «Don jograr, se a levardes, por sabedor vos terremos.» | Assim, a candeia apanhada por aquele monge dali ao jogral da viola, foi a colocar bem ali onde antes estava, e atou-a muito rija e disse assim: “Dom Jogral, se a levardes, por sábio vos teremos". |
O jograr por tod' aquesto non deu ren, mas violou como x' ante violava, e a candea pousou outra vez ena vyola; mas o monge lla cuidou fillar, mas disse-ll' a gente: «Esto vos non sofreremos.» | O jogral, por tudo aquilo sem preocupação, mais violou como ele antes violava, e a candeia pousou outra vez na sua viola; mas, o monge pensou em a pegar, mas lhe disse a multidão: “Isto não vos permitiremos”. |
Poi-lo monge perfiado aqueste miragre vyu, entendeu que muit' errara, e logo ss' arrepentiu; e ant' o jograr en terra se deitou e lle pedyu perdon por Santa Maria, en que vos e nos creemos. | Pois o monge teimoso aquele milagre viu, entendeu que muito errara, e logo se arrependeu; e, ante o jogral, em terra se deitou e lhe pediu perdão por Santa Maria, em que vós e nós cremos. |
Poy-la Virgen groriosa fez este miragr’ atal, que deu ao jograr dõa e converteu o negral Monge, dali adeante cad’ na’ um grand’ estadal lle trouxe a ssa eigreja o jograr que dit’ avemos. | Pois a Virgem gloriosa fez este milagre tamanho, que deu ao jogral dom e converteu o mal monge, dali em diante a cada ano, um grande estadal lhe trouxe a sua igreja o jogral que dissemos. |
Tradução: Bárbara Dantas | |

Afonso X. Cantiga 8. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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LOUVOR 10
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. “A arquitetura sagrada e a Natureza nas Cantigas de Santa Maria.” In: SANTOS, Bento Silva (org.). Mirabilia 20 (2015/1). Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 44-65. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/natureza-e-arquitetura-sagrada
Rosas das rosas e Fror das frores, Dona das donas, Sennor das sennores. | Rosa das rosas, flor das flores, Dona das donas, Senhora das senhoras. |
Rosa de beldad' e de parecer e Fror d'alegria e de prazer, Dona en mui piadosa seer, Sennor en toller coitas e doores. | Rosa de beldade e de parecer e Flor de alegria e de prazer, Dona mui piedosa ser, Senhora em tolher aflições e dores. |
Atal Sennor dev' ome muit' amar, que de todo mal o pode guardar; e pode-ll' os peccados perdõar, que faz no mundo per maos sabores. | A tal Senhora deve o homem muito amar, porque de todo mal o pode guardar e pode-lhe os pecados perdoar, que faz no mundo por maus costumes. |
Devemo-la muit' amar e servir, ca punna de nos guardar de falir; des i dos erros nos faz repentir, que nos fazemos come pecadores. | Devemo-la muito amar e servir, porque insiste em nos guardar de confundir; assim, dos erros nos faz advertir, que nós fazemos como pecadores. |

Afonso X. Louvor 10. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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CANTIGA 26
*Se precisar citar este texto, tê-lo como referência, utilize o formato a seguir:
DANTAS, Bárbara. Des oge mais quer' eu trobar pola sennor onrrada: a iconografia e os motivos arquitetônicos nos textos das Cantigas de Santa Maria. In: Anais do XVI Simpósio regional de História da ANPUH-RJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2014, Rio de Janeiro, p. 316-328.
RESUMO: Um homem fazia uma peregrinação anual a Santiago de Compostela. Certa vez, antes de partir, passou a noite com uma prostituta e seguiu viagem sem confessar seus pecados. O diabo apareceu-lhe, "mais branco que o arminho", disfarçado de São Tiago. Ordenou-lhe que cortasse o próprio pênis e cortasse a garganta. O peregrino obedeceu à ordem e foi encontrado morto por seus companheiros. Eles fugiram para não serem acusados de assassiná-lo. Demônios vieram para levar a alma do peregrino. Enquanto a carregavam para o alto, passaram por uma capela dedicada a São Pedro; São Tiago surgiu rapidamente e acusou-os de terem conquistado a alma de forma enganosa. Os demônios argumentaram que o peregrino havia cometido atos malignos e tirado a própria vida. São Tiago sugeriu que a Virgem resolvesse a disputa pela alma.Maria ordenou que a alma fosse devolvida ao corpo do peregrino, e ele reviveu. No entanto, seu membro não foi restaurado.
Cf. AFONSO X. Non é gran cousa se sabe | bon joizo dar/ a madre do que o mundo/ tod’ á de joigar. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).
Esta é como Santa Maria juigou a alma do romeu que ya a Santiago, que sse matou na carreira por engano do diabo, que tornass' ao corpo e fezesse pẽedença | Esta [cantiga] é a de como Santa Maria julgou a alma do romeiro que ia a Santiago, que se matou no caminho por engano do diabo, e que retornou ao corpo e fizesse penitência |
refrão | |
Non é gran cousa se sabe bon joyzo dar a Madre do que o mundo tod' á de joigar. | Não é grande coisa se sabe bom juízo dar a Mãe do que o mundo todo há de julgar. |
Mui gran razon é que sábia dereito que Deus troux' en seu corp' e de seu peito mamentou, e del despeito nunca foi fillar; poren de sen me sospeito que a quis avondar. | Mui grande razão é que saiba direito que Deus trouxe em seu corpo e de seu peito amamentou, e do desgosto nunca foi tomar; por isso, com razão suponho, que a quis fartar. |
Sobr' esto, se m' oissedes, diria dun joyzo que deu Santa Maria por un que cad' ano ya, com' oý contar, a San Jam' en romaria, porque se foi matar. | |
Este romeu con bõa voontade ya a Santiago de verdade; pero desto fez maldade que ant' albergar foi con moller sen bondade, sen con ela casar. | Este romeiro com boa vontade ia a Santiago de verdade; porém, disto fez maldade que antes de deitar foi com mulher sem bondade sem com ela casar. |
Pois esto fez, meteu-ss' ao camỹo, e non sse mãefestou o mesqỹo; e o demo mui festỹo se le foi mostrar mais branco que un armỹo, polo tost' enganar. | Pois isto fez, meteu-se ao caminho, e não se manifestou o mesquinho; e o diabo muito festivo a ele se foi mostrar mais branco que um arminho, para logo o enganar. |
Semellança fillou de Santiago e disse: «Macar m' eu de ti despago, a salvaçon eu cha trago do que fust' errar, por que non cáias no lago d' iferno, sen dultar. | Semelhança tomou de Santiago e disse: “embora eu de ti esteja desagradado, a salvação eu te trago do que foste errar, para que não caias no lago do inferno, sem duvidar. |
Mas ante farás esto que te digo, se sabor ás de seer meu amigo: talla o que trages tigo que te foi deytar en poder do ẽemigo, e vai-te degolar.» | Mas antes farás isto que te digo, se prazer há de ser meu amigo: corta o que trazes contigo que te foi cair em poder do inimigo e vai-te degolar”. |
O romeu, que ssen dovida cuidava que Santiag' aquelo lle mandava, quanto lle mandou tallava; poi-lo foi tallar, log' enton se degolava, cuidando ben obrar. | O romeiro, que sem dúvida, considerava que Santiago aquilo lhe mandava, quanto lhe mandou cortava; pois o foi cortar, então, logo se degolava, considerando bem obrar. |
Seus companneiros, poi-lo mort' acharon, por non lles apõer que o mataron, foron-ss'; e logo chegaron a alma tomar demões, que a levaron mui toste sen tardar. | Seus companheiros, pois, morto o acharam, para que não lhes acusassem de que o mataram, foram-se; e logo chegaram para a alma tomar demônios, que a levaram rapidamente e sem tardar. |
E u passavan ant' hũa capela de San Pedro, muit' aposta e bela, San James de Conpostela dela foi travar, dizend': «Ai, falss' alcavela, non podedes levar | E quando passavam ante uma capela de São Pedro, muito composta e bela, São Tiago de Compostela dela foi pegar, dizendo: “ai, falsa raça, não podes levar |
A alma do meu romeu que fillastes, ca por razon de mi o enganastes; gran traiçon y penssastes, e, se Deus m' anpar, pois falssament' a gãastes, non vos pode durar.» | A alma do meu romeiro que tomastes, com razão penso que o enganastes; com grande traição ali pensastes, e, se Deus me amparar, pois falsamente a ganhastes, não vos pode perdurar.” |
Responderon os demões louçãos: «Cuja est' alma foi fez feitos vãos, por que somos ben certãos que non dev' entrar ante Deus, pois con sas mãos se foi desperentar.» | Responderam os demônios louções “cuja esta alma fez feitos vãos, porque somos bem certos de que não deve estar ante Deus, pois com suas mãos se foi matar. |
Santiago diss': «Atanto façamos: pois nos e vos est' assi rezõamos, ao joyzo vaamos da que non á par, e o que julgar façamos logo sen alongar.» | Santiago disse: “De tal modo façamos: pois nós e vós isto assim resolvemos, ao julgamento vamos da que não há par, e o que julgar façamos logo sem alongar.” |
Log' ante Santa Maria vẽeron e rezõaron quanto mais poderon. Dela tal joiz' ouveron: que fosse tornar a alma onde a trouxeron, por se depois salvar. | Logo ante Santa Maria vieram, e defenderam quanto mais puderam. Dela tal julgamento tiveram: que fosse retornar a alma onde a trouxeram, para depois se salvar. |
Este joyzo logo foi comprido, e o romeu morto foi resorgido, de que foi pois Deus servido; mas nunca cobrar pod' o de que foi falido, con que fora pecar. | Este parecer logo foi cumprido, e o romeiro morto foi ressurgido, de que, pois, foi de Deus servido; mas nunca recobrar pode o de que foi perdido com que fora pecar. |
Tradução: Bárbara Dantas | |

Afonso X. Louvor 10. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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CANTIGA 74
*Se precisar citar este texto, tê-lo como referência, utilize o formato a seguir:
DANTAS, Bárbara. Des oge mais quer' eu trobar pola sennor onrrada: a iconografia e os motivos arquitetônicos nos textos das Cantigas de Santa Maria. In: Anais do XVI Simpósio regional de História da ANPUH-RJ. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2014, Rio de Janeiro, p. 316-328.
RESUMO: Um pintor sempre retratava o diabo como uma figura feia. O diabo perguntou-lhe por que fazia isso, e o pintor explicou que o representava assim por ser ele uma criatura maligna. O diabo enfureceu-se e ameaçou matar o pintor. Certo dia, enquanto o pintor retratava a Virgem em uma parede, o diabo fez surgir um vento que derrubou o andaime onde o artista estava apoiado. O pintor clamou pela Virgem, e ela fez com que ele ficasse suspenso no ar, segurando-se apenas pelo pincel. As pessoas, que ouviram o estrondo da queda do andaime, viram o diabo derrotado fugir da igreja. Ao verem o pintor suspenso pelo pincel, agradeceram à Virgem.
Cf. AFONSO X. Quen Santa Maria quiser defender/ non lle pod’ o demo niun mal fazer. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).
Como Santa Maria guareceu o pintor que o demo quisera matar porque o pintava feo | Como Santa Maria salvou o pintou que o diabo queria matar porque o pintava feio |
refrão | |
Quen Santa Maria quiser deffender, non lle pod' o demo niun mal fazer. | Quem Santa Maria quiser defender, não lhe pode o diabo nenhum mal fazer. |
E dest' un miragre vos quero contar de como Santa Maria quis guardar un seu pintor que punnava de pintar ela muy fremos' a todo seu poder. | E disto um milagre vos quero contar de como Santa Maria quis guardar um pintor seu que se esforçava por pintá-la muito formosa em todo o seu poder. |
E ao demo mais feo d' outra ren pintava el sempr'; e o demo poren lle disse: «Por que me tẽes en desden, ou por que me fazes tan mal pareçer | E o diabo mais feio que outra coisa pintava ele sempre; e o diabo, porém lhe disse: “por que me despreza ou por que me fazes tão mal parecer |
A quantos me veen?» E el diss' enton: «Esto que ch' eu faço é con gran razon, ca tu sempre mal fazes, e do ben non te queres per nulla ren entrameter.» | A quantos me vêem? “E ele disse então: “Isto que a ti eu faço é com grande razão, porque tu sempre mal fazes, e do bem não te queres em nada se entreter.” |
Pois est' ouve dit', o demo ss' assannou e o pintor ferament' amẽaçou de o matar, e carreira lle buscou per que o fezesse mui çedo morrer. | Pois isto houve dito, o diabo se irritou e o pintor feramente ameaçou de o matar, e esforçou-se para que o fizesse muito cedo morrer. |
Porend' un dia o espreytou aly u estava pintando, com' aprendi, a omagen da Virgen, segund' oý, e punnnava de a mui ben compõer, | Por isso, um dia o espreitou ali onde estava pintando, como aprendi, a imagem da Virgem, segundo ouvi, e tratava de a muito bem fazer, |
Por que pareçesse mui fremos' assaz. Mais enton o dem', en que todo mal jaz, trouxe tan gran vento como quando faz mui grandes torvões e que quer chover. | Para que parecesse muito formosa assaz Mas, então, o diabo, em que todo mal jaz, trouxe tão grande vento como quando faz enormes trovões e quer chover. |
Pois aquel vento na ygreja entrou, en quanto o pintor estava deitou en terra; mais el log' a Virgen chamou, Madre de Deus, que o vẽess' acorrer. | Pois aquele vento na igreja entrou, e tudo onde o pintor estava derrubou em terra; mas logo ele a Virgem chamou, Mãe de Deus, que o viesse acorrer. |
E ela logo tan toste ll' acorreu e fez-lle que eno pinzel se soffreu con que pintava; e poren non caeu, nen lle pod' o dem' en ren enpeeçer. | E ela rapidamente lhe socorreu e fez-lhe com que no pincel se segurou com o qual pintava; e, contudo, não caiu nem lhe pôde o diabo em nada molestar. |
E ao gran son que a madeira fez vẽeron as gentes logo dessa vez, e viron o demo mais negro ca pez fogir da ygreja u ss' ya perder. | E ao grande som que a madeira fez vieram logo as pessoas dessa vez, e viram o diabo mais negro que pez fugir da igreja onde se ia perder. |
E ar viron com' estava o pintor colgado do pinzel; e poren loor deron aa Madre de Nostro Sennor, que aos seus quer na gran coita valer. | E então viram como estava o pintor pendurado pelo pincel;e, por isso, louvor deram à mãe de Nosso Senhor, que aos seus quer na grande aflição valer. |

Afonso X. Cantiga 74. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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CANTIGA 93
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
COSTA, Ricardo; DANTAS, Bárbara. “A arquitetura sagrada e a Natureza nas Cantigas de Santa Maria.” In: SANTOS, Bento Silva (org.). Mirabilia 20 (2015/1). Arte, Crítica e Mística – Art, Criticism and Mystique. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 44-65. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/natureza-e-arquitetura-sagrada
RESUMO: Um burguês tinha um filho bonito que se entregava a todos os tipos de vícios. Deus lhe infligiu lepra e ele foi morar em um eremitério. Durante três anos viveu uma vida piedosa, recitando mil Ave Marias para que a Virgem tivesse pena dele. Quando ela apareceu a ele, desnudou-lhe o peito e ungiu-lhe o corpo com o seu leite. A lepra desapareceu e sua pele voltou. O homem atravessou o país contando como a Virgem o curara.
Cf. AFONSO X. Nulla enfermidade/ non é de sãar/ grav’, u a piedade/ da Virgen chegar. In: OXFORD Cantigas de Santa Maria Data Base. Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University. Oxford-Reino Unido. 2023 (Trad. Bárbara Dantas).
Como Santa Maria guareceu um fillo dun burges que era gafo | Como Santa maria curou o filho de um burguês que era leproso |
refrão | |
Nulla enfermidade non é de sãar grav', u a piedade da Virgen chegar. | Nenhuma enfermidade não é de sarar grave, onde a piedade da Virgem chegar. |
Dest' un mui gran miragr' en fillo dun burges mostrou Santa Maria, que foi gafo tres anos e guareceu en mēos que un mes pola sa piedade que lle quis mostrar. | Disto um mui grande milagre no filho de um burguês mostrou Santa Maria, que foi leproso três anos e recuperou em menos de um mês por sua piedade que lhe quis mostrar. |
Est' era mui fremoso e apost' assaz, e ar mui leterado e de bon solaz; mais tod' aquele viço que à carne praz fazia, que ren non queria en leixar. | Este era muito formoso e belo assaz, e, igualmente, muito letrado e de bom caráter; mas todo aquele deleite que à carne prazer fazia, ele nunca queria deixar. |
El assi mantẽendo orgull' e desden, quiso Deus que caess' en el mui gran gafeen, ond' ele foi coitado que non quis al ren do mund' erg' ũ' ermid' u se foi apartar. | Ele, assim, mantendo orgulho e desdém, quis Deus que caísse nele grande lepra, sendo ele foi afligido que não quis mais nada do mundo, ergueu uma ermida onde foi se apartar. |
E el ali estando, fillou-ss' a dizer ben mil Ave Marias por fazer prazer aa Madre de Deus, por que quisess' aver doo e piadad' e del amercēar. | E ele ali estando, pôs-se a dizer bem mil Ave-Marias para dar prazer à Mãe de Deus, para que quisesse haver dor e piedade e dele se apiedar. |
E el en atal vida tres anos durou, sofrendo ben sa coita, e nunca errou a Deus nen a sa Madre, e sempre rezou as Aves Marias de que vos fui falar. | E ele em tal vida três anos durou, sofrendo bem sua aflição, e nunca errou a Deus nem a sua Mãe, e sempre rezou as Aves Marias de que vos fui falar. |
E pois ouve rezado esta oraçon quanto tenpo dissemos, mostrou-xe-ll' enton a Virgen groriosa e diss': «Oi mais non quero que este mal te faça lazerar.» | Depois de haver rezado esta oração quanto tempo dissemos, mostrou-se lhe, então a Virgem gloriosa e disse: ““Hoje, mais não quero que este mal te faça lancinar.” |
Quando ll' est' ouve dit', a teta descobriu e do seu santo leite o corpo ll' ongiu; e tan tost' a gafeen logo del se partiu, assi que o coiro ouve tod' a mudar. | Quando isto lhe houve dito, a teta descobriu e do seu santo leite o corpo lhe ungiu; e tão rápido a lepra logo dele se partiu, bem como a pele começou toda a mudar. |

Afonso X. Cantiga 93. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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LOUVOR 140
* Se precisar citar, tê-lo como referência, seguir:
COSTA, Ricardo da; DANTAS, Bárbara. “Bondade, Justiça e Verdade. Três virtudes marianas nas Cantigas de Santa Maria e no Livro de Santa Maria, de Ramon Llull.” In: SALVADOR GONZÁLEZ, José María (org.). Mirabilia Ars 2 (2015/1). El Poder de la Imagen. Ideas y funciones de las representaciones artísticas. Barcelona: Institut d’Estudis Medievals, UAB, Jan-Jun 2015, p. 84-103. Disponível em: https://www.barbaradantas.com/post/afonso-x-ramon-llull-e-as-tr%C3%AAs-virtudes-marianas
A Santa Maria dadas sejan loores onrradas | À Santa Maria dados sejam louvores honrrados |
Loemos a sa mesura, seu prez, e ssa apostura, e seu sen, e ssa cordura, mui mais ca cen mil vegadas. | Louvemosa sua mesura, seu valor, e sua compostura, e seu senso, e sua cordura, mui mais que cem mil vezes. |
Loemos a ssa nobressa, sa onrra e ssa alteza, sa mercee e ssa franqueza, e sas vertudes preçadas. | Louvemos sua nobreza, sua honra e sua alteza, sua misericórdia e sua franqueza, e suas virtudes apreciadas. |
Loemos ssa lealdade, seu conort' e ssa bondade, seu accorr' e ssa verdade, con loores mui cantadas. | Louvemos sua lealdade, seu consolo e sua bondade, seu socorro e sua verdade, com honras mui cantadas. |
Loemos seu cousimento, conssell' e castigamento, seu ben, seu enssinamento, e sass graças mui grãadas. | Louvemos seu comedimento, seu conselho e castigamento, seu bem, seu ensinamento, e suas graças mui acentudas. |

Afonso X. Louvor 140. In: Cantigas de Santa Maria, século XIII. Facsímile do Códice Rico da Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri, Espanha. Biblioteca de Obras Raras, PUC-Minas (arquivo pessoal).
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